[Trecho de uma das aulas que ministro em meu curso Teologia & Filosofia]
Alguns indícios de que a teologia e a filosofia convergem entre si são cristalinos para aqueles que já tiveram algum contrato com qualquer uma dessas disciplinas. Tanto uma quanto outra dispendem grande esforço de abstração; ambas concentram sua energia no nível teorético do método; ambas, aliás, empregam mecanismos em comum em seus métodos; ambas buscam, como ventilou Aristóteles, as “causas últimas”; e ambas buscam a verdade. Esses são alguns dos vértices imediatos de congruência entre a teologia e a filosofia.
Entretanto, a verdadeira congruência entre ambas as disciplinas solidifica-se em um nível muito mais profundo. A tradição filosófica grega, desde Sócrates, movimenta esforços para encontrar a verdade. A dialética socrática, por exemplo, articulava-se no sentido de extrair a verdade. Perguntas como “O que é a virtude?” e “O que é o bem?”, entreviam o esforço dos filósofos para aquiescer à verdade e à moral absoluta. Mas há algo a ser discernido no meio deste esforço aparentemente honesto: a afirmação de autonomia. Os filósofos da tradição grega buscavam essas respostas à despeito do testemunho interno (Revelação Geral) que tinham acerca de Deus, de sua Lei, de seu senhorio e soberana majestade. O texto de Romanos, no primeiro capítulo, expõe o status moral por trás deste esforço em descobrir a verdade de forma autônoma:
"Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. … E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;" (Rom 1:18-23,28).
E ainda:
"Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os; No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho." (Rom 2:12-16).
Estes textos bíblicos são muito objetivos em mostrar os vetores morais da epistemologia. Eles mostram que, embora a verdade de Deus seja clara, o homem natural, movido pela rebeldia do pecado, sufoca essa verdade e outras ligadas a ela, e, fazendo isso, os homens detém a verdade em mentira, em injustiça. E mostra ainda que os homens não têm desculpas diante de Deus, pois a revelação do Senhor é de tal modo nítida que somente não a enxerga como tal quem não quer. E eis a disposição do homem caído: ele não quer enxergar a verdade. Ele tem acesso a ela e, inclusive, um impulso interno que para ela aponta, mas ele escolhe sufocar este testemunho para que não glorifique a Deus.
A relação dessa base para a epistemologia cristã com a tradição filosófica grega torna claro o esforço filosófico dos gregos para chegar à verdade e à virtude de forma autônoma, ou seja, a parte do Deus verdadeiro que dá nome a essas coisas. Se Deus é a realidade última e se ele é quem pode determinar o que é a virtude, qualquer empreendimento de buscar essas coisas sem o dono e inventor delas é um exercício pecaminoso.
Ora, é essa conclusão que nos permite indicar a verdadeira convergência entre teologia e filosofia. Para o povo de Deus, que tem a sua revelação como princípio de conhecimento, a Palavra de Deus é a fonte de toda a sabedoria. De fato, a Palavra de Deus é a própria sabedoria: "Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento." (Prov 2:6).
Ademais, uma vez que o Cristo é a perfeita expressão de Deus e Sua plena revelação, a sabedoria na teologia encontra a sua dimensão metafísica no próprio ser de Deus, em Jesus Cristo (1Co 1.24). Isso significa que, do ponto de vista da tradição filosófica grega (que não pressupõe a revelação de Deus como verdade anterior), há alguns locais comuns entre a teologia e a filosofia, pontos já listados no início deste tópico. Porém, a partir da perspectiva do cristianismo (que tem a revelação de Deus e Jesus Cristo como pressupostos inegociáveis), teologia e filosofia são a mesma e única coisa! A mesma e única tarefa. A mesma e única expressão do saber humano. Isso porque, se a filosofia é a amizade para com a sabedoria e orienta-se pela busca da verdade, então somente o cristianismo pode ser considerado a verdadeira filosofia pois só o cristianismo cumpre esses requisitos.
Desse modo, mesmo desconsiderando a fé cristã existem pontos de ligação entre as disciplinas em análise. Contudo, considerando a fé cristã (e, para o cristão, a opção de desconsiderá-la é inexistente), a teologia e a filosofia são sinônimos. Se, no esforço teológico, a Escritura é empregada como principal fonte e dela são extraídas as doutrinas da teologia, no esforço filosófico a mesma Estrutura é empregada como principal fonte para fornecer a matéria-prima das doutrinas filosóficas. Em outras palavras, para o filósofo cristão, não existe especulação vazia, desordenada e, sobretudo, autônoma. Antes, para o filósofo cristão, existe Cristo, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.3), e existe a palavra escrita de Deus, que dá testemunho de Cristo (Jo 5.39).
Portanto, para o filósofo cristão, a Bíblia é o material de coleta para a construção filosófica, de tal maneira que, para ele, teologia e filosofia equivalem: em última análise, ambas são sistemas de pensamento abrangente. Para o cristão, só pode existir um sistema de pensamento, e todos os momentos de verdade encontrados em outros sistemas são, assim, apropriações do sistema cristão.
Em uma de minhas aulas, eu disse certa vez:
Embora haja o que podemos chamar de "tradição filosófica grega", se partirmos dos pressupostos bíblicos, não existe filosofia sem Cristo, que é o início e o fim dela, pois ele próprio é a sabedoria. Foi isso o que quis dizer com a ideia de que, para a teologia, a filosofia e a teologia se constituem na mesma disciplina e na mesma tarefa. [...] é claro que os filósofos gregos disseram muitas verdades e propuseram muitos ensinos úteis! Mas isso só porque essas verdades e ensinos refletiram, pela graça de Deus, as verdades cristãs. Então há neles o que podemos chamar de "momentos de verdade", mas, como diria o filósofo cristão Van Til, são verdades, mas verdades roubadas do cristianismo.
A boa teologia deve partir da revelação de Deus. O próprio termo teologia atesta e pressupõe este fato. Como diz a Escritura:
"As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei." (Dt 29.29).
Qualquer proposição ou construção teológica, reivindicando-se verdadeira, NÃO pode ter origem, portanto, em qualquer outro lugar.
A ideia de uma teologia latino-americana, que dá ocasião à Teologia da Libertação (no catolicismo) e à Teologia da Missão Integral (no protestantismo), aponta para uma construção teológica que parte de um recorte sócio-econômico, no caso, situado no continente sul-americano. Mas, ainda que a posição teológica partisse de outro local do globo e de outra realidade social, o resultado da teologia estaria comprometido desde o início em virtude dos pressupostos empregados e do recrutamento de suas asserções hermenêuticas fundamentais, ou seja, seria errado desde o início por causa do método.
A Teologia da Missão Integral (TMI) e sua irmã católica, a Teologia da Libertação (TL) são sistemas construídos sobre premissas marxistas, conforme testemunha, em alto e bom som, o maior representante atual da TMI no Brasil, Ariovaldo Ramos, him self [1]. Elas pressupõem [o que julgam ser] disfunções sócio-econômicas como o seu referencial teórico e, a partir dele, orientam a reflexão teológica resultando em um sistema que:
▪ Adota uma cosmovisão flagrantemente antibíblica - o marxismo - como lente interpretativa;
▪ Entende "justiça social" como a redistribuição coercitiva de renda;
▪ Posiciona o Estado como o agente de caridade;
▪ Direciona conclusões originadas na ideia marxista de luta de classes;
▪ Expande a ideia de luta de classes para confrontos em outras instituições, como a família;
▪ Coloca-se favorável a modelos de governo irrefutavelmente corruptos, totalitários, ditatoriais, imorais, ladrões, sanguinários e perseguidores oficiais de cristãos;
▪ Defende abertamente o comunismo tanto pela declarada afeição aos referidos governos quanto pelo alinhamento ideológico e pessoal a ditadores de esquerda.
Diante disso, tanto a TMI quanto a TL são abominações. Com efeito, não deveriam sequer ser chamadas de teologias: suas estruturas doutrinais não partem da revelação de Deus, mas de outro ponto. A TMI e a TL são, assim, anomalias.
Notas
1. Ariovaldo Ramos e a Base Marxista da Teologia da Missão Integral. Disponível em: <https://m.youtube.com/watch?v=EC7onU_jSWA&feature=youtu.be>. Acesso em: 21.04.2016.
Neste artigo será abordada a natureza de uma correta articulação lógico-epistêmica, ou seja, a maneira correta de se empregar a lógica e a teoria do conhecimento, em relação indissolúvel uma com a outra, para construir um sistema de pensamento ou teologia.
Todo sistema pode ser estruturado a partir de uma lógica indutiva ou dedutiva.
Lógica indutiva
A lógica indutiva estabelece conclusões universais a partir de premissas particulares. Tome o seguinte argumento como exemplo:
De uma caixa foi retirada uma bola branca;
Da mesma caixa foi retirada outra bola branca;
Da mesma caixa foi retirada outra bola branca;
[...]
Logo, todas as bolas naquela caixa são brancas.
Este argumento mostra uma afirmação de verdade universal ("todas as bolas presentes na caixa são brancas") concluída a partir de constatações particulares, via de regra obtidas mediante observação ("da mesma caixa foi retirada mais uma bola branca...").
O que deve ser pontuado aqui é a natureza essencialmente falaciosa de toda lógica indutiva. Uma falácia é um silogismo inválido e o silogismo indutivo é logicamente inválido porque sua conclusão NÃO DERIVA DAS PREMISSAS.
Observando o exemplo acima, vemos que a afirmação de que todas as bolas naquela caixa são brancas não parte das premissas visto que não foi cada espécime de bola, exaustivamente, investigado para se concluir tal afirmação. Supondo que exista apenas uma bola amarela dentro daquela caixa com 10.000 bolas brancas e toda a verdade de que todas as bolas naquela caixa são brancas é imediatamente desconstruída. A não ser que se saiba de antemão, por meio de alguma "visão onisciente", que todas as bolas dentro da caixa são brancas, não é possível estabelecer, logicamente, nem mesmo que de dentro da caixa, em certo momento, não sairá um quadrado, um triângulo, uma lata de Coca-Cola ou uma serpente. De fato, existe um número literalmente INFINITO de possibilidades entre o "...da mesma caixa foi retirada outra bola branca" e a conclusão "todas as bolas naquela caixa são brancas". Um número infinito.
A lógica indutiva, assim, produz uma afirmação universal cujo conteúdo não é derivado das premissas e, portanto, é sempre falaciosa.
Lógica dedutiva
Por sua vez, a lógica dedutiva estabelece conclusões particulares a partir de premissas universais. Veja o seguinte exemplo:
A caixa "x" contém exclusivamente 10.000 bolas brancas;
Foi retirado um objeto da caixa "x";
Este objeto é uma bola branca.
A característica principal da lógica dedutiva é que sua conclusão realmente deriva das premissas. Uma premissa universal é fixada de antemão ("A caixa 'x' contém exclusivamente 10.000 bolas brancas") e, a partir de sua universalidade, qualquer conclusão particular dela extraída formalmente, por força lógica, será verdadeira. Além disso, o conteúdo das conclusões particulares extraídas de verdades universais nunca é novo ou apresenta informações novas, mas tão somente reproduz o que foi determinado antes por uma "onisciência" que estabeleceu uma primeira verdade universal, de forma axaustiva e inegociável.
A lógica indutiva é falaciosa. A lógica dedutiva não. O pensamento indutivo é falacioso. O pensamento dedutivo não. É óbvio, portanto, que um sistema de pensamento ou teologia deve ser estruturado mediante uma articulação lógico-epistêmica dedutiva, ao invés de indutiva. Somente dessa maneira um sistema de pensamento, cosmovisão ou teologia - termos intercambiáveis - pode ser reivindicado verdadeiro.
E de que maneira uma articulação lógico-epistêmica pode ser reivindicada no método teológico para a afirmação de um cristianismo autêntico?
Se uma lógica e um conhecimento, para serem verdadeiros, precisam ser edificados por vias dedutivas, é necessário que o primeiro princípio do qual todo o sistema derivará seja, além de coerente e amplo, auto-justificador. Na origem desses requisitos jaz a qualidade revelada da Bíblia. E uma vez que a Escritura Sagrada, como Palavra de Deus, preenche estes requisitos atendendo às qualificações necessárias, todo o processo lógico-epistêmico terá como a premissa número um - o primeiro princípio - a Bíblia, e a partir dela todo o processo será construído dedutivamente.
A Escritura, por ser revelação especial, é coerente, auto-justificadora e abrangente. E pode, com efeito, ser adotada como primeiro princípio porque a onisciência necessária para a formulação inicial em um processo dedutivo lhe é intrínseca.
Concluimos que o cristianismo é um sistema de pensamento perfeito e filosoficamente impenetrável, visto que seu método compreende a afirmação de um primeiro princípio completo e uma articulação lógico-epistêmica capaz de concluir a verdade. Daí, tudo o que o cristianismo afirmar, tendo sido corretamente extraído da Bíblia mediante uma articulação lógico-epistêmica dedutiva, é verdadeiro e digno de plena confiança.
Todas as ações e pensamentos humanos são orientados por pressupostos. Não há escolha quanto a isso. E os pressupostos existem em uma cadeia, uma rede cuja estrutura forma o que chamamos de cosmovisão. Deste modo, uma cosmovisão é uma cadeia ou conjunto de pressupostos entrelaçados através dos quais enxergamos e interpretamos o mundo. Nas palavras de James Sire, em Dando Nome ao Elefante:
"Cosmovisão é um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expresso como uma estória ou num conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movemos e existimos".
Em adição, os pressupostos, necessariamente, operam e fundamentam proposições em diversas áreas do pensamento humano, como a ética, a metafísica, a filosofia da história, etc. E visto que todas estas esferas da reflexão filosófica subjazem a um conceito pré-determinado e pré-teórico sobre deus, uma cosmovisão, em última análise, é também uma teologia e vice-versa.
Dito, isso, a cosmovisão ou teologia de uma pessoa pode ser coerente ou incoerente dependendo, entre outros fatores, de seus pressupostos serem subsidiários de um só ponto em comum, de uma só origem, sob a penalidade de entrarem em contradição lógica e se auto anularem, invalidando qualquer reivindicação de verdade. Se uma cosmovisão ou teologia emprega princípios diferentes para orientar suas conclusões sobre cada área do pensamento, estes princípios são distintos e conflitam entre si. Então é lógico que a afirmação de princípios diferentes para cada uma das áreas do pensamento viola a Lei da Não-Contradição (LNC) e faz com que a cadeia de pensamento se auto-refute.
Assim, como provo exaustivamente em meu curso Cosmovisão Cristã, toda visão de mundo ou teologia devem partir de um único princípio primeiro (ignore o pleonasmo aqui). A questão, neste artigo, é determinar quais são os requisitos que satisfazem a condição para que um primeiro princípio seja correto e, portanto, vetor de uma teologia ou cosmovisão correta.
Um primeiro princípio não pode ter contradições
Um primeiro princípio que viole a LNC sucumbe imediatamente. A LNC está na base de qualquer pensamento lógico de modo que, caso uma afirmação a ignore, ela fatalmente cairá.
Um primeiro princípio precisa ser auto-justificador e auto-autenticável
Um primeiro princípio que seja, de alguma maneira, justificado, deixa de ser um PRIMEIRO princípio, porque algo o justificou. Um primeiro princípio que derive de outro não é mais um primeiro princípio, assim como um primeiro princípio que dependa de outro.
Por definição, um primeiro princípio precisa deter o conteúdo para justificar a si mesmo e se auto-autenticar.
Um primeiro princípio precisa ser abrangente
Um primeiro princípio que respeite a LNC e que seja auto-justificador e auto-autenticável, mas que NÃO seja amplo o suficiente para gerar conclusões nas principais áreas do pensamento, outrossim não é correto.
Tome a proposição dois mais dois somam quatro como primeiro princípio. Ora, é evidente que esta proposição não viola a LNC. Neste requisito não há problemas. Repare também que este primeiro princípio possui um conteúdo que justifica a si mesmo e se auto-autentica, afinal, dois mais dois somam quatro PORQUE somam! - não há um "porquê" superior aqui.
Porém, a expressão dois mais dois somam quatro não me diz nada sobre a origem do universo, não me diz nada sobre ética, não me diz nada sobre o funcionamento do conhecimento, não me diz nada sobre política, sobre o ser humano, etc., etc. A expressão dois mais dois somam quatro não é ampla o suficiente para que sobre ela seja construída uma visão de mundo ou teologia. Ela simplesmente não possibilita conclusões nas diversas áreas do pensamento de modo que, embora seja verdadeira e auto-autenticável, não é abrangente o suficiente para que seja candidata a primeiro princípio de uma cosmovisão.
Tirando o fato de que a esmagadora maioria das cosmovisões que competem atualmente no mundo não passariam nem mesmo no primeiro requisito para uma cosmovisão verdadeira, que é sua origem em apenas UM princípio, uma análise estritamente filosófica revelaria que somente a cosmovisão cristã reivindica um primeiro princípio com as qualidades necessárias.
A Bíblia Sagrada, ou mais precisamente a afirmação "a Bíblia toda é a Palavra de Deus", é o primeiro princípio da cosmovisão ou teologia cristã.
Este primeiro princípio não viola a LNC. Na Bíblia inteira não é possível encontrar uma só contradição verdadeira.
Este primeiro princípio é auto-justificador e auto-autenticável. Tudo o que a Escritura diz, ela o faz como consequência de inspiração divina. E se o próprio Deus é quem fala por meio de sua palavra, e não existe autoridade superior a Deus ou que o justifique de alguma maneira, então a Bíblia é toda auto-justificadora. Não existe autoridade alguma acima da Escritura que lance justificativa sobre ela; antes, ela, como palavra de Deus, é que lança justificativa sobre tudo. Ademais, o caráter auto-justificador e auto-autenticável do primeiro princípio cristão o absolve da arbitrariedade inerente aos primeiros princípios dos sistemas racionalistas.
Finalmente, este primeiro princípio é deveras amplo e proporciona um conjunto completo de proposições sobre as principais áreas do pensamento humano.
A Escritura nos fornece uma epistemologia, uma teontologia, uma metafísica, uma antropologia, uma ética, uma política, uma filosofia da história, uma cosmologia, uma teodiceia, uma soteriologia e até mesmo uma estética, entre outros referenciais.
E o fato de a Escritura ser palavra de Deus resume sua qualidade revelada e inerrante.
Portanto, somente o cristianismo como sistema de pensamento reivindica um primeiro princípio válido e filosoficamente justificável. Doravante, o sistema cristão também emprega uma correta articulação lógico-epistêmica, que o garante como a verdadeira cosmovisão ou teologia.
Continuarei sobre isso em outro artigo.
"Quanto ao conteúdo da pregação, o exemplo de Paulo em Atos 17 é muito informativo. Em termos filosóficos, ele remete aos tópicos da epistemologia, metafísica, religião, biologia, história e ética. Em termos teológicos, ele remete aos tópicos da revelação, teologia propriamente dita, criação, providência, antropologia, ética, cristologia, soteriologia e escatologia. Dependendo que estivermos empregando nessa descrição, seu relato pode remeter a um sumário básico de filosofia ou teologia sistemáticas [alguns aspectos não são desenvolvidos em detalhes, mas isso poderia ser esperado, tendo em vista as circunstâncias e restrições enfrentadas por Paulo].
Uma vez que a 'estratégia de Paulo é a de acentuar as antíteses entre ele e os filósofos' [Bahnsen, Always Ready; p. 272] e considerando que ele é muito abrangente em seu discurso, segue-se que uma abordagem bíblica para a apologética deve demonstrar a nossa oposição abrangente às crenças pagãs, e a nossa apresentação construtiva deve da mesma forma ser minuciosa, cobrindo todos os principais tópicos. Uma implicação disto é que aqueles que não têm uma compreensão básica daquilo que agora chamamos de teologia sistemática não estão aptos a fazer apologética ou evangelismo de uma forma que seja suficientemente bíblica.
Em conexão ao evangelismo, Jesus instruiu os seus discípulos, 'Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações...ensinando-os a obedecer A TUDO o que eu lhes ordenei' (Mt 28.19-20). Ensiná-los a cerca de tudo? A maioria dos cristãos de hoje dificilmente sabe qualquer coisa sobre as doutrinas bíblicas e como estão relacionadas entre si. Mas um conhecimento bíblico abrangente é o pré-requisito de um ministério de pregação abrangente, que é o que Jesus exige aqui. Uma vez que a apologética bíblica e o evangelismo requerem um entendimento amplo pelo menos dos pontos básicos da teologia, aqueles que não têm esse conhecimento não podem com procedência alegar estarem verdadeiramente fazendo apologia bíblica e evangelismo".
CHEUNG, Vincent. Confrontações pressuposicionais, p. 83.
Este livro é uma tentativa de
esclarecer o conteúdo de uma
cosmovisão bíblica e sua
importância para nossas vidas,
à medida que procuramos ser
obedientes às Escrituras. As
idéias que constituem esta
cosmovisão não se originaram
comigo. Elas vieram de uma
longa tradição de reflexão
Cristã sobre as Escrituras e
nossa perspectiva total do
mundo, uma tradição enraizada
nas próprias Escrituras. Ela
teve como alguns de seus
representantes mais
proeminentes os Pais da Igreja
Irineu e Agostinho, e os
Reformadores Tyndale e
Calvino.
Esta cosmovisão escriturística
mencionada é às vezes chamada
de "reformacional" após a
Reforma Protestante, que
descobriu novamente o ensino
bíblico concernente à
profundidade e escopo do pecado e da redenção. O desejo de
viver pelas Escrituras somente,
antes do que pelas Escrituras ao
lado da tradição, é uma marca
dos Reformadores. Nós
seguimos seu caminho nesta
ênfase bem como em querer
uma reforma progressiva, em
querer ser reformados pelas
Escrituras continuamente (ver
Atos 17:11; Romanos 12:2),
antes do que viver por tradições
não examinadas.
A reflexão reformacional na
cosmovisão tem ocupado
distintas formas à medida que
tem se movido no século vinte,
algo que pode ser visto
especialmente na obra de
líderes holandeses como
Abraham Kuyper, Herman
Bavinck, Herman Dooyeweerd e
D. H. T. Vollenhoven. Suas
contribuições a uma
compreensão mais profunda e
articulada da cosmovisão
bíblica vieram através da
teologia, filosofia e outras
disciplinas acadêmicas, e
especialmente através da ação
cultural e social que surgiram
de um profundo desejo de
serem obedientes às Escrituras
em todas as áreas da vida e do
serviço.
O termo cosmovisão [worldview ]
veio da língua Inglesa como
uma tradução da palavra alemã
Wel-tanschauung [percepção (de
mundo), ponto-de-vista,
concepção (de mundo),
cosmovisão]. Este termo tem a
vantagem de ser claramente
distinto de "filosofia" (ao menos
no uso alemão) e de ser menos
enfadonho do que a frase "visão
do mundo e da vida", que foi
preferida pelos neo-Calvinistas
alemães (provavelmente
seguindo um uso feito popular
pelo filósofo Alemão [Wilhem]
Dilthey). Um sinônimo aceitável
é "perspectiva de vida" ou
"visão confessional". Nós
podemos também falar mais
vagamente sobre o conjunto dos
"princípios" ou "ideais" de uma
pessoa. Um marxista chamá-lo-
ia de uma "ideologia"; a
classificação mais prevalecente
nas ciências sociais hoje
provavelmente é "sistema de
valores". Estes termos são
menos que aceitáveis porque os
pró-prios termos possuem
conotações de determinismo e
relativismo que revelam uma
cosmovisão ina-ceitável.
Para nossas finalidades,
cosmovisão será definida como
"a estrutura abrangente das
crenças básicas de alguém sobre
coisas". Façamos um exame
mais minucioso dos elementos
desta definição.
Primeiramente, "coisas" é um
termo deliberadamente vago
que se refere a qualquer coisa
sobre a qual seja possível ter
uma crença. Eu estou tomando-
o no sentido mais geral que se
possa imaginar, como
abrangendo o mundo, a vida
humana em geral, o significado
do sofrimento, o valor da educa-
ção, o social, a moralidade e a
importância da família. Neste
sentido pode-se dizer que até
Deus está incluído entre as
"coisas" sobre as quais temos
crenças básicas.
Segundo, uma cosmovisão é
uma matéria das crenças de
determinada pessoa. As crenças
são diferentes dos sentimentos
ou opiniões porque elas
possuem uma "reivindicação
cognitiva" - isto é, uma
reivindicação a algum tipo de
conhecimento. Eu posso dizer,
por exemplo, que eu "creio" que
a educação é o caminho para a
felicidade humana. Isto
significa que estou afirmando
algo sobre o estado das coisas, o
que o caso é. Estou querendo
defender aquilo em que creio
com argumentos. Os
sentimentos não colocam
reivindicação ao conhecimento,
nem podem ser argumentados.
Crenças não são opiniões,
tampouco hipóteses. Para ser
exato, nós às vezes usamos a
palavra crer com aquele tipo de
sentido enfraquecido ("Eu creio
que Johnny chegará esta noite
novamente tarde em casa"), mas
eu estou usando aqui a palavra
no sentido de "credo", uma
crença comprometida, algo que
estou disposto não somente a
argumentar, mas também a
defender ou promover com o
gasto de dinheiro ou a paciência
em meio ao sofrimento. Por
exemplo, pode ser minha crença
que a liberdade de expressão
seja um direito inalienável na
sociedade humana, ou que
ninguém possa impor a sua
religião a alguma outra pessoa.
Sustentar uma crença pode
exigir um sacrifício de minha
parte, ou a tolerância ao
desprezo ou abuso se ela é uma
crença dita não-popular ou não-
ortodoxa, que os presídios
devem castigar bem como
reabilitar, ou que a livre
iniciativa é o flagelo de nossa
sociedade. Todas estas crenças
são exemplos do que entra em
uma cosmovisão. Tem a ver
com as convicções de uma
pessoa.
Terceiro, é importante notar
que as cosmovisões têm a ver
com crenças básicas sobre
coisas. Elas têm a ver com
questões fundamentais com as
quais somos confrontados; elas
envolvem assuntos de princípio
geral. Eu posso dizer que eu
tenho uma crença segura de que
os Yankees venceram o World
Series de 1956, seguro a ponto
de estar disposto a fazer uma
grande aposta sobre isto, mas
este tipo de crença não é o tipo
que constitui uma cosmovisão. É
diferente no caso de assuntos
profundos morais: A violência
pode alguma vez ser justa? Há
normas constantes para a vida
humana? Existe um motivo para
o sofrimento? Nós sobrevivemos
à morte?
Finalmente, as crenças básicas
que uma determinada pessoa
sustenta sobre coisas tendem a
formar uma estrutura ou
padrão; elas se unem de um
certo modo. Eis a razão por que
os humanistas freqüentemente
falam de um "sistema de
valores". Todos nós
reconhecemos, em algum grau
pelo menos, que devemos ser
consistentes em nossas visões,
se quisermos tomá-las com
seriedade. Nós não adotamos
uma posição arbitrária de
crenças básicas que não
possuam coerência ou não
pareçam consistentes. Certas
crenças básicas se chocam com
outras. Por exemplo, a crença
no matrimônio como uma
ordenança de Deus não se
comporta com a idéia de
divórcio fácil. Uma convicção
que filmes e teatros são
essencialmente "divertimentos
mundanos" não é muito
consoante com o ideal de uma
reforma cristã das artes. Uma
crença otimista no progresso
histórico é difícil de se
harmonizar com a crença na
depravação do homem.
Isto não é dizer que cosmovisões
nunca ou sejam internamente
inconsistentes - muitas são (de
fato, uma inconsistência pode
ser uma das coisas mais
interessantes sobre uma
cosmovisão) - mas continua
sendo verdade que a
característica mais significativa
da cosmovisão é sua tendência
voltada para o padrão e
coerência; até suas
inconsistências tendem a cair
em padrões claramente
reconhecíveis. Além disso, a
maioria das pessoas não admite
uma inconsistência em sua
própria cosmovisão, mesmo
quando esta é muito óbvia a
muitos outros.
Tem sido assumido em nossa
discussão até aqui que todos
possuem uma cosmovisão de
algum tipo. É este o caso, na
realidade? Certamente é
verdade que a maioria das
pessoas não possui uma resposta se elas forem inquiridas de
qual é sua cosmovisão, e os
assuntos piorariam se eles
fossem inquiridos sobre a
estrutura de suas crenças
básicas sobre as coisas.
Contudo, suas crenças básicas
emergem suficientemente
depressa quando eles são
enfrentados com questões
práticas que se levantam,
assuntos políticos atuais ou
convicções que se confrontam
com as suas. Como eles reagem
ao serviço militar obrigatório,
por exemplo? Qual é sua
resposta ao evangelismo ou à
contracultura, ao pacifismo ou
comunismo? Que palavras de
condolências podem oferecer ao
lado da tumba? Quem eles
responsabilizam pela inflação?
Qual é a visão deles sobre
aborto, pena de morte,
disciplina na educação de
crianças, homossexualidade,
segregação racial, inseminação
artificial, censura de filmes,
sexo extra-conjugal e questões
desse tipo? Todos estes assuntos
despertam respostas que
fornecem indicações da
cosmovisão de uma pessoa pela
sugestão de certos padrões
("conservador" ou "progressivo",
sendo muito rudes e não
confiáveis os padrões que a
maioria das pessoas reconhece).
Em geral, conseqüentemente,
todos possuem uma cosmovisão;
embora inarticulada, ele ou ela
pode expressá-la. Ter uma
cosmovisão é simplesmente
parte de ser um ser humano
adulto.
Qual o papel da cosmovisão em
nossas vidas? A resposta a isto,
creio, é que nossa cosmovisão
funciona como um guia para
nossa vida. Uma cosmovisão,
até quando ela é meio
inconsciente e desarticulada,
funciona como um compasso ou
um mapa de estrada. Ela nos
orienta no mundo de forma
geral, dando-nos um senso do
que é alto e do que é baixo, do
que é certo e do que é errado na
confusão de eventos e
fenômenos que nos confrontam.
Nossa cosmovisão forma, em um
grau significativo, o modo pelo
qual avaliamos os eventos,
assuntos e estruturas de nossa
civilização e de nossa época.
Ela nos permite "colocar" ou
"situar" os vários fenômenos
que estão ao nosso alcance. De
fato, outros fatores têm uma
função neste processo de
orientação (interesse próprio
psicológico ou econômico, por
exemplo), mas estes outros
fatores não eliminam a função
orientadora da cosmovisão de
alguém; eles freqüentemente
influenciam através de nossa
perspectiva de vida.
Uma das características
exclusivas dos seres humanos é
que nós não podemos fazer
nada sem um tipo de orientação
ou condução que uma
cosmovisão dá. Nós
necessitamos ser guiados
porque somos
inescapavelmente criaturas com
responsabilidade, que por
natureza são incapazes de
sustentar opiniões puramente
arbitrárias ou fazer decisões
inteiramente sem princípios.
Nós necessitamos de algum
credo para viver por ele, algum
mapa pelo qual tracemos nosso
curso. A necessidade de uma
perspectiva condutora é básica
para a vida humana, talvez
mais básica do que alimento ou
sexo.
Não somente nossas visões e
argumentos são decididamente
afetados pela nossa cosmovisão,
mas também todas as decisões
específicas que somos levados a
fazer. Quando o relacionamento
matrimonial começa a ficar
áspero, o divórcio é uma opção?
Quando a cobrança de impostos
é injusta, você trapaceia em
seus formulários de impostos?
Os crimes devem ser punidos?". Você demitirá um empregado
tão logo isto se torne
economicamente vantajoso?
Você começará a se envolver em
políticas? Você desencorajará
seu filho ou filha de ser tornar
um artista? As decisões que você
faz nestes e muitos outros
assuntos são guiadas pela sua
cosmovisão. As disputas sobre
elas envolvem freqüentemente
um conflito de perspectivas de
vida básicas.
Novamente, temos de admitir
que pode haver inconsistência
aqui: não somente podemos
sustentar crenças conflitantes,
mas às vezes podemos falhar em
agir em harmonia com as
crenças que sustentamos. Este é
um fato de nossa experiência
diária que todos devemos
reconhecer. Mas, isto significa
que nossa cosmovisão
conseqüentemente não tem o
papel guiador que estamos
atribuindo a ela? Não
necessariamente. Um navio
pode ser desviado de seu curso
por uma tempestade e ainda
estar se dirigindo ao seu
destino. É o padrão em geral
que conta, o fato que o
timoneiro faz tudo que for
possível para permanecer no
curso. Se sua ação está fora de
sintonia com suas crenças, você
tende a mudar suas ações ou
suas crenças. Você não pode
manter sua integridade (ou sua
saúde mental) por muito tempo
se não fizer nenhum esforço
para resolver o conflito.
Esta visão da relação de nossa
cosmovisão com a nossa
conduta é disputada por muitos
pensadores. Os marxistas, por
exemplo, sustentam que o que
realmente guia nosso
comportamento não são nos-sas
crenças, mas os interesses de
classes. Muitos psicólogos olham
para as cosmovisões mais como
guiadas do que como guiando,
como racionalizações para
comportamentos que são
realmente controlados pelas
dinâmicas de nossa vida
emocional. Outros psicólogos
sustentam que nossas ações são
basicamente condicionadas
pelos estímulos físicos vindos de
nosso meio. Seria tolice
desconsi-derar a evidência que
esses pensadores apresentam
para reforçar seus pontos de
vista. Na realidade, é verdade
que o comportamento humano é
muito complexo e inclui tais
assuntos como interesses de
classes, o condicionamento e a
influência de desejos
reprimidos. A questão é o que
constitui o fator decisivo e
dominante que conta para o
padrão da ação humana. O
modo como respondemos esta
questão depende de nossa visão
da natureza essencial da
humanidade: isto é em si
mesmo um assunto de nossa
cosmovisão.
Do ponto de vista cristão,
devemos dizer que nossa crença
é um fator decisivo em nossas
vidas, embora as crenças que
professamos possam estar em
desacordo com as crenças que
estão atualmente operando em
nossas vidas.
É um mandamento do
evangelho que vivamos nossas
vidas em conformidade com as
crenças ensinadas nas
Escrituras. O fato de
freqüentemente falharmos em
viver este mandamento, não
invalida o fato de que podemos
e devemos viver de acordo com
nossas crenças.
Qual é, então, o relacionamento
da cosmovisão com as
Escrituras? A resposta cristã a
esta questão é: nossa
cosmovisão deve ser formada e
testada pelas Escrituras. Ela
pode legitimamente guiar nossas vidas somente se ela for
escriturística. Isto significa que,
no assunto da cosmovisão, há
um abismo significativo entre
aqueles que aceitam estas
Escrituras como sendo a Palavra
de Deus e aqueles que não
aceitam. Isto significa que os
cristãos devem constantemente
verificar suas crenças da
cosmovisão à luz das Escrituras,
porque se não o fizerem haverá
uma poderosa inclinação a receber muitas de nossas crenças,
até as básicas, de uma cultura
que tem sido secularizada em
ritmo acelerado por gerações.
Uma boa parte da finalidade
deste livro é oferecer ajuda no
processo de reformar nossa
cosmovisão, para conformá-la
mais estreitamente ao ensino
das Escrituras.
Como cristãos, confessamos que
as Escrituras têm a autoridade
de Deus, que é superior a tudo
mais - acima da opinião
pública, da educação, da criação
de crianças, da mídia, e em
resumo, acima de todas as
poderosas interferências em
nossa cultura pela qual a
cosmovisão está constantemente
sendo formada. Contudo, uma
vez que estas interferências em
nossa cultura deliberadamente
ignoram, e de fato usualmente
rejeitam por completo a
suprema autoridade das
Escrituras, há considerável
pressão sobre os cristãos para
restringirem seu
reconhecimento da autoridade
das Escrituras à área da Igreja,
da teologia e da moralidade
pessoal - uma área que tem se
tornado basicamente irrelevan-
te no rumo tomado pela cultura
e pela sociedade como um todo.
Esta pressão, contudo, é em si
mesma o fruto de uma
cosmovisão secular, e deve ser
resistida pelos cristãos com
todos os recursos de que
dispõem. Os recursos
fundamentais são as próprias
Escrituras.
As Escrituras representam
muitas coisas para o cristão,
mas a principal é a instrução.
Não há passagem nas
Escrituras que não possa nos
ensinar algo sobre Deus e Seu
relacionamento conosco. Nós
devemos nos aproximar das
Escrituras como estudantes,
particularmente quando
começamos a pensar
criticamente sobre nossa
própria cosmovisão.
"Porquanto, tudo que dantes foi
escrito, para nos-so ensino foi
escrito", diz Paulo sobre o Velho
Testamento (Romanos 15:4), e o
mesmo se aplica ao Novo
Testamento. Eis por que o
conceito de "sã doutrina" é tão
central no testemunho
apostólico - não doutrina no
sentido de teologia acadêmica,
mas como instrução prática nas
realidades de vida e morte de
nosso andar em compromisso
com Deus. É por meio deste tipo
de ensino que a constância e
encorajamento provenientes
das Escrituras nos capacitam,
como Paulo apontou na mesma
passagem, não para nos
desesperarmos, mas para
estabelecermos nossa esperança
em Cristo. Isto está envolvido
também no que Paulo chama a
"renovação de nossas
mentes" (Romanos 12:2). Nós
necessitamos deste renovo se
formos discernir qual é a
vontade de Deus em toda a sua
extensão para nossas vidas -
"sua boa, agradável e perfeita
vontade". Testar nossa
cosmovisão à luz das Escrituras
e revisá-la de acordo com ela é
parte do renovo da mente.
Esta ênfase no ensino
escriturístico é claramente um
aspecto fundamental da religião
cristã. Todas as variedades de
cristãos, apesar de todas suas
diferenças, concordam sobre
este ponto de uma for-ma ou de
outra. Contudo é necessário
enfatizá-la novamente com
referência à questão de nossa
cosmovisão, porque quase todos
os ramos da Igreja Cristã
também concordam que o
ensino das Escrituras é
basicamente um assunto de
teologia e moralidade pessoal,
um setor privado rotulado de
"sagrado" e "religioso", separado
dos amplos assuntos do ser
humano, rotulados de
"seculares". As Escrituras, de
acordo com esta visão, precisam
certamente formar nossa
teologia (incluindo nossas
"éticas teológicas"), mas são, na
melhor das hipóteses, somente
indiretamente e
tangencialmente relacionadas a
assuntos seculares tais como
política, arte e conhecimento: a
Bíblia nos ensina uma visão de
Igreja e uma visão de Deus, não
uma cosmovisão.
Este é um erro perigoso. Sem
dúvida, nós devemos ser
ensinados pelas Escrituras em
assuntos tais como batismo,
oração, eleição e igreja, mas as
Escrituras falam centralmente a
tudo em nossa vida e mundo,
incluindo tecnologia, economia
e ciência. O escopo do ensino
bíblico inclui assuntos ordinários "seculares" como labor,
grupos sociais e educação. A
menos que tais assuntos estejam
aproximados em termos de
uma cosmovisão baseada
honestamente em categorias
escriturísticas centrais como
criação, pecado e redenção,
nossa avaliação destas
dimensões supostamente não-
religiosas de nossas vidas será
provavelmente dominada por
uma das competitivas
cosmovisões do Ocidente
secularizado.
Conseqüentemente, é essencial
relacionar os conceitos básicos
de "teologia bíblica" à nossa
cosmovisão - ou melhor,
entender estes conceitos básicos
como constituindo uma
cosmovisão. Em certo sentido,
o apelo que está sendo feito
aqui para uma cosmovisão
bíblica é simplesmente um
apelo para o crente levar a sério
a Bíblia e seu ensino para a
totalidade de nossa civilização
agora mesmo, e não para
relegá-la a alguma área
opcional chamada "religião".
Tudo isto levanta a questão do
relacionamento do que eu tenho
chamado de "cosmovisão" com a
teologia e a filosofia. Este é um
assunto que causa certa
confusão, uma vez que na
conversação comum quaisquer
perspectivas abrangentes sobre
as coisas que apela à autoridade
da Bíblia são chamadas de
"teologia", e qualquer
perspectiva que apela à
autoridade da razão é chamada
de "filosofia". O problema com
este modo de falar é que ele
falha em fazer uma distinção
entre a perspectiva de vida que
todo ser humano tem pelo fato
de ser humano e as disciplinas
acadêmicas especializadas que
são ensinadas pelos professores
de teologia e filosofia. Além
disso, ela faz uma suposição
equivocada que a teologia não
pode ser pagã ou humanística e
que a filosofia não pode ser
bíblica. A diferença entre
cristão e não-cristão não pode
ser tão facilmente dividida
entre duas disciplinas
acadêmicas.
Teologia e filosofia são campos
especializados de investigação
que nem todos podem adentrar.
Elas requerem habilidades
especiais, um certo tipo de
inteligência e uma quantia
considerável de melhor:
"conhecimento" ou "instrução".
Eles são campos para
especialistas treinados. Isto não
é dizer que elas estão fechadas
ao leigo inteligente;
simplesmente significa que os
leigos têm uma desvantagem
melhor: "definida" em si, pelo
simples fato de estarem nas
ciências médicas, econômicas e
em campos não-acadêmicos
específicos como altas finanças
e diplomacia internacional. Em
todos estes campos há homens e
mulheres profissionais, que são
especializados na área. Teologia
e filosofia não são exceção.
Mas a cosmovisão é um assunto
totalmente diferente. Você não
necessita de títulos ou
habilidades especiais para ter
uma perspectiva na vida.
Sabedoria bíblica ou sã doutrina
não aumentam com o avanço do
treinamento teológico. Se
aumentasse, os profetas e
apóstolos, para não mencionar
o próprio Jesus, teriam sido
totalmente deficientes
comparados com os brilhantes e
jovens teólogos de hoje que
acabam de sair de uma
faculdade. Brilhantismo
acadêmico é algo totalmente
diferente de sabedoria e de
senso comum - e uma
cosmovisão é uma questão de
sabedoria e senso comum, seja
bíblico ou não.
Sem tentar definir precisamente
a natureza de "ciência" e
"teoria" (que neste contexto
podemos considerar sinônimos),
podemos dizer que filosofia e
teologia, como disciplinas
acadêmicas, são cientificas e
teóricas, enquanto que uma
cosmovisão não é. Uma
cosmovisão é uma questão da
experiência diária da
humanidade compartilhada, um
componente inescapável de todo
saber humano, ou melhor,
(desde que o conhecimento
cientifico é sempre dependente
do conhecimento intuitivo de
nossa experiência diária) pré-
científico, por natureza. Ela
pertence a uma ordem de
cognição mais básica do que a
da ciência ou teoria. Da mesma
forma que a estética pressupõe
algum senso inato de beleza, e a
teoria legal pressupõe uma
noção fundamental de justiça,
assim a teologia e filosofia
pressupõem uma perspectiva
pré-teórica sobre o mundo. Elas
dão uma elaboração cientifica
de uma cosmovisão.
No geral, então, podemos dizer
que cosmovisão, filosofia e
teologia são semelhantes no
sentido de serem abrangentes
em escopo, mas que elas são
diferentes no que uma
cosmovisão é pré-científica, ao
passo que a filosofia e teologia
são científicas. A distinção
entre filosofia e teologia pode
talvez se tornar mais clara se
introduzirmos dois conceitos
chaves: "estrutura" e "rumo". A
filosofia pode ser descrita como
aquela disciplina científica
abrangente (totalmente
orientada) que se foca na
estrutura das coisas - isto é, na
unidade e diversidade daquilo
que é dado nas coisas criadas.
Teologia (isto é, teologia
sistemática cristã), por outro
lado, pode ser considerada
aquela disciplina cientifica
abrangente (totalmente
orientada) que se foca no rumo
das coisas - isto é, no mal que
contagia o mundo e a cura que
pode salvá-lo. A filosofia cristã
olha para a criação à luz das
categorias básicas da Bíblia; a
teologia cristã olha para a
Bíblia à luz das categorias
básicas da criação. Uma
cosmovisão, ao contrário, é
igualmente relacionada tanto
com as questões estruturais
como direcionais. Ela não tem
contudo a diferenciação de foco
característica das disciplinas
científicas abrangentes (ou
amplas).
Há muito que se pode dizer
sobre estas distinções,
especialmente sobre a distinção
entre estrutura e direção, mas
que terá de esperar até um
ponto posterior em nossa
discussão. No momento estamos
somente tocando nele
resumidamente para esclarecer
o relacionamento entre os três
modos abrangentes de
entender o mundo.
Agora que temos uma idéia
geral do que uma cosmovisão é,
resta-nos falar o que é diferente
na cosmovisão reformacional.
Que características peculiares a
distinguem de outras
cosmovisões, tanto da pagã ou
humanista como daquelas
cristãs.
Devemos começar aceitando o
fato que há diferentes
cosmovisões cristãs, até dentro
da corrente principal da
ortodoxia cristã histórica. Há
um sentido, naturalmente, em
que todas as igrejas cristãs
ortodoxas (que iremos entender
neste contexto como sendo
aquelas igrejas cristãs que
aceitam os assim chamados
credos ecumênicos da igreja
primitiva) compartilham uma
boa quantidade do ensino
bíblico básico. Todas elas
aceitam a Bíblia como a Palavra
de Deus, crêem em um Criador
transcendental que fez todas as
coisas, que a desgraça humana é
devida ao pecado e que Jesus
Cristo veio para expiar este
pecado e redimir a humanidade
de sua maldição, afirmam que
Deus é pessoal e triúno, que
Cristo é tanto divino como
humano, e assim por diante.
Nós não devemos minimizar a
extensão na qual a Igreja
Ortodoxa Oriental, a Católica
Romana e vários tipos de
tradições protestantes
compartilham a mesma herança
e confissão bíblica.
Não obstante, estamos bem
cientes das profundas divisões
dentro da igreja cristã. Estas
divisões refletem diferenças de
cosmovisão bem como
diferenças de teologia no
sentido estrito da palavra.
Gostaria de brevemente
identificar as diferenças básicas
entre a cosmovisão
reformacional e outras
cosmovisões cristãs.
Um modo de ver esta diferença
é usar a definição básica de fé
cristã dada por Herman
Bavinck: "Deus o Pai reconciliou
o mundo criado por Ele porém
caído, através da morte de Seu
Filho, e re-nova-o em um Reino
de Deus pelo Seu Espírito". A
cosmovisão reformacional toma
todos os termos chaves nesta
confissão trinitariana
ecumênica num sentido
universal e todo abrangente. Os
termos "reconciliado", "criado",
"caído", "mundo", "renova" e
"reino de Deus" são tidos por
cósmicos no escopo. Em
principio, nada à parte do
próprio Deus fica fora da
extensão destas realidades
fundamentais da religião
bíblica.
Todas as outras cosmovisões
cristãs, ao contrário, restringem
o escopo de cada um destes
termos de um ou outro modo.
Compreende-se que cada um se
aplica somente a uma área
delimitada do universo de
nossa experiência, usualmente
chamado de a esfera "religiosa"
ou "sagrada". Tudo que esteja
fora desta área delimitada é
chamado de a esfera
"mundana", ou "secular", ou
"natural" ou "profana". Todas
estas teorias das "duas esferas",
como são chamadas, são talvez
melhor "variantes" de uma
cosmovisão basicamente
dualística, em oposição à
perspectiva integral da
cosmovisão reformacional, que
não aceita uma distinção entre
as esferas sagrada e secular no
cosmo.
Esta é uma maneira de explicar
a distinção da cosmovisão
reformacional. Outra maneira é
dizer que suas características
distintivas são organizadas ao
redor da visão central de que "a
graça restaura a natureza" - isto
é, a redenção em Jesus Cristo
significa a restauração de uma
criação originalmente boa.
(Naturalmente quero dizer
"realidade criada" nestes
contextos). Em outras palavras,
redenção é re-criação. Se
olharmos para isto mais
atentamente, podemos ver que
esta afirmação básica real-
mente envolve três dimensões
fundamentais: a criação
originalmente boa, a perversão
da criação através do pecado e a
restauração da criação em
Cristo. Isto mostra quão central
a doutrina da criação se torna
em tal visão, visto que o
propósito completo da salvação
é, então, o de salvar uma criação corrompida pelo pecado.
Nas cosmovisões não-
reformacionais, contudo, a
graça inclui algo além da
natureza, com o resultado que a
salvação é algo basicamente
"não-criacional", super-
criacional, ou até mesmo anti-
criacional. Em tais perspectivas,
seja o que for que Cristo traga
além da criação pertence à
esfera sagrada, enquanto que a
criação original constitui a
esfera secular.
Autor: Albert M. Wolters (trecho da Obra "What is a worldview?")
Tradução: Filipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Site Monergismo (http://www.monergismo.com/textos/cosmovisao/cosmovisao_wolters.htm)
A Bíblia Sagrada, principal fundamento da teologia cristã, é de vital importância para os filhos de Deus. Tal assertiva, desde o século primeiro, foi tão firmemente estabelecida que, hoje, dificilmente algum cristão minimamente maduro ousaria contestá-la. Ademais, sabemos que esta importância atribuída à Bíblia reside quase exclusivamente em sua mensagem. A despeito das imensuráveis contribuições da revelação bíblica no campo da história, da arqueologia, da antropologia, das ciências da religião e de outros ramos do saber, o principal mérito da Escritura encontra-se em seu discurso (Rm 15.4).
Quando se fixa esta verdade acerca dos propósitos da revelação escriturística, se estabele, por consequência, o fato de que uma correta interpretação da Bíblia é tão importante quanto sua mensagem. Afinal, se a principal riqueza da Bíblia consiste na revelação do Deus verdadeiro, a correta interpretação do discurso bíblico proporciona o correto entendimento referente a Deus e, em última análise, nos direciona a um íntegro relacionamento com ele.
Com essas considerações adentraremos no tema da hermenêutica, a ciência e a arte da interpretação. E, na hermenêutica, defenderemos um modelo de interpretação que parece ter sido relegado ao ostracismo: a interpretação teológica das Escrituras.
Pressupostos para a interpretação teológica das Escrituras
O liberalismo teológico e a posição neo-ortodoxa acerca da natureza da Bíblia causaram um profundo impacto no campo da hermenêutica, e esse impacto ressoou na prática interpretativa dos exegetas fundamentalistas. Para contornar os estragos causados pelas opiniões dos grupos supracitados sobre como se deveria interpretar as Escrituras, os teólogos ortodoxos aderiram inflexivelmente - e exclusivamente - à categorias histórico-gramaticais de interpretação.
De fato, as contribuições dos métodos histórico-gramaticais são reconhecida e absolutamente necessários, e não poderiam ser ressaltadas o suficiente. Até mesmo teólogos produtos do pós-modernismo são capazes de reconhecer a validade de tais métodos [1].
Todavia, a exclusiva utilização de categorias histórico-gramaticais na interpretação da Escritura reduz dela um aspecto que não deveria ser ignorado: sua unidade fundamental. O fato de que as laudas bíblicas foram compostas, em última análise, por uma única Pessoa, constituindo-se, portanto, em uma obra essencialmente singular, faz com que o labor hermenêutico referente a essa mesma obra deva contemplar técnicas que respeitem sua natureza. Louis Berkhof diz que a "Escritura contém muita coisa que não encontra explicações na História e nem nos autores secundários, mas tão-somente em Deus como o Auctor primarius [2]".
Dessa forma, o fato de a Bíblia existir como uma unidade, composta por um só Autor, nos constrange a considerar determinadas qualidades em sua interpretação, qualidades que não podem ser explicadas por nenhuma outra abordagem na tarefa interpretativa. Como nos diz Berkhof: "As considerações puramente psicológicas e históricas não explicarão os seguintes fatos: (1) que a Bíblia é a Palavra de Deus; (2) que ela constitui um todo orgânico, do qual cada livro individual é uma parte integral; (3) que o Antigo e o Novo Testamento estão relacionados um com o outro como tipo e antítipo, profecia e cumprimento, embrião e desenvolvimento perfeito; e (4) que não só as declarações da Bíblia, mas também o que pode ser deduzido a partir dela pela lógica, constitui a Palavra de Deus." [3].
Portanto, a unidade fundamental da Escritura representa um vigoroso argumento para a utilização de categorias teológicas em sua interpretação. No entanto, em que consiste essas categorias?
Os elementos da interpretação teológica
Alguns elementos perfazem, em termos conceituais, o conjunto de ferramentas utilizadas na interpretação teológica da Bíblia. Dois deles, talvez os mais importantes, são a analogia das Escrituras e a analogia da Fé.
A analogia das Escrituras consiste em uma ferramenta hermenêutica por meio da qual consideramos os textos a serem interpretados à luz do conjunto canônico anterior a eles visando analisá-los sob perspectivas teológicas. W. C. Kaiser Jr. e Moisés Silva, citando as considerações de Bright, autor do The Authority of the Old Testament, dizem: "Foi John Bright quem observou que a maioria das passagens bíblicas possui dentro delas algum aspecto teológico expressado de maneira que transforma a passagem em uma parte do tecido da Bíblia como um todo", e, ilustrando quais seriam as expressões deste 'aspecto teológico', mencionam as indicações de uma teologia anterior dentro do texto, como "o uso de certos termos que já adquiriram um significado especial dentro das Escrituras" (e.g., servo, semente, Israel, etc), além do "o uso de citações de escritores que precederam o texto examinado" [4]. Outras expressões do citado aspecto teológico são trazidas por Kaiser e Silva.
Portanto, a utilização do conceito de analogia das Escrituras nos permite, em coerência com o pressuposto da unidade fundamental da Bíblia, considerar cada texto a ser interpretado em relação intrínseca com o conteúdo escriturístico anterior a ele.
Contudo, embora o uso da analogia das Escrituras constitua-se como uma grande ferramenta para a interpretação teológica da Bíblia, ele - somente - não esgota as premissas por trás da analogia da fé, que considera não somente o montante canônico anterior ao texto, mas a totalidade do cânon.
Com efeito, a analogia da fé representa, assim, a maior ferramenta teológica da tarefa hermenêutica.
O conceito de analogia da fé, analisando-o em suas origens, vem da sentença de Romanos 12.6: "Tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da [nossa] fé.".
A despeito dos diferentes pontos de vista comumente estabelecidos na interpretação deste versículo, a expressão de sentido por nós defendida é a de que Paulo, apesar de ignorar as técnicas hermenêuticas disponíveis no século XXI, estava simplesmente se referindo ao princípio de "comparar as Escrituras com as Escrituras".
Dessa maneira, a própria Bíblia nos fornece o princípio pelo qual se justifica a necessidade de uma abordagem teológica em sua interpretação: se toda a Bíblia é a Palavra de Deus, e não apenas alguns livros ou passagens, é justo que, ao nos lançarmos na exegese de determinada perícope, a consideremos à luz da totalidade da revelação bíblica, e não somente do conteúdo escriturístico anterior a ela. É necessário considerarmos, na exegese de cada passagem, o cânon definitivo das Escrituras.
Convencidos da importância de uma interpretação teológica das Escrituras, devemos, neste ponto, nos perguntar quais as consequências do uso da analogia da fé para nossa teologia.
Consequências da intepretação teológica
Diante do princípio da analogia da fé, pelo qual supomos uma única Mente governante como autora sobre as Escrituras, alguns resultados devem ser considerados. Um destes resultados é o fato de que a Escritura possui, em muitas de suas partes, um sentido místico. Berkhof nos explica que "certas partes da Escritura têm um sentido místico que, nesse caso, não constitui um segundo sentido, mas o sentido real da Palavra de Deus." [5]. Obviamente, portanto, existe aqui uma dicotomia entre a consideração de um sentido místico como único sentido para determinadas passagens bíblicas, e a medieval interpretação quádrupla, que enxergava quatro sentidos simultâneos em toda a Escritura.
A natureza mística da Escritura se caracteriza, principalmente, pelo efeito de que os fatos ou acontecimentos históricos podem servir ora como símbolos e ora como tipos de uma verdade espiritual. Um exemplo desse caráter simbólico da Escritura pode ser visto na luta de Jacó com o anjo em Gênesis 32.24-32, cujo significado, essencialmente simbólico, reside no fato de que, ao buscar sucesso mediante astúcia e esforço pessoal na "luta" com Deus, Jacó ficou incapacitado, aprendendo posteriormente que a resistência a Deus era inútil, e que, para obter o favor de Javé, clamar por sua graça seria o melhor caminho [6].
Outra consequência do uso da analogia da fé na interpretação da Escritura seria a conclusão de que Israel não é, como etnia, uma nação especialmente endereçada pela graça de Deus, já que "judeu é quem o é interiormente" (Rm 2.29). Antes, a nação de Israel é um símbolo, símbolo de um povo único - a Igreja - que, eleito por Deus, em todas as eras desfruta de sua graça salvadora.
Dessa forma, o caráter místico da Escritura é revelado mediante a existência de tipos e símbolos em toda a narrativa bíblica e, sendo nestes casos a interpretação mística vetora do único sentido de determinadas passagens, conclui-se, com propriedade, que a utilização da analogia da fé é vital para se alcançar o verdadeiro significado de determinados textos.
Por fim, resta-nos abordar, de forma concisa e propositalmente reduzida, algumas elaborações práticas que servem como diretrizes para uma interpretação teológica da Palavra de Deus.
Pautas para a interpretação teológica da Bíblia
Em primeiro lugar, devemos estabelecer que a exegese vem antes de qualquer sistema de teologia. Isso não significa que uma abordagem teológica do texto somente deverá ser feita caso não seja possível encontrar sentido sem ela, como preconiza E. Lund [7]. Ao contrário, o uso de diferentes categorias na interpretação dos textos deve ser subsequente; cada método ampliando e estendendo a compreensão dos textos cujas mensagens estão sendo extraídas.
Consecutivamente, os assentamentos da fé [8] devem consistir em âncoras para a interpretação teológica. Qualquer abordagem teológica das Escrituras deve estar sujeita à clareza e à extensão de determinadas passagens que encerram as doutrinas pilares do cristianismo. Além disso, como consequência direta dessa pauta de interpretação em particular, podemos postular que somente aquilo que é ensinado de forma clara, inequívoca e ausente de ambiguidades pode constranger a consciência do cristão. Em outras palavras, nenhuma doutrina que constranja a consciência do crente a algo deve ser estabelecida com base em conclusões particulares. Interpretações humanas elevadas ao nível de "Escritura" devem ser veementemente evitadas.
Em terceiro, devemos estar atentos para o que está implícito na Escritura. Nem todas as verdades que constam na Bíblia Sagarada são expressas de maneira clara em enunciados formais. Um exemplo desse fato pode ser encontrado na própria doutrina da Trindade que, embora não esteja explicitada da forma como a conhecemos em nenhum texto bíblico, pode ser deduzida da Escritura a partir da lógica. Dessa forma, temos que as conclusões doutrinárias lógica e responsavelmente estabelecidas a partir de textos bíblicos, se verdadeiramente deduzidas, fazem parte do pensamento de Deus e de sua revelação, tanto quanto as declarações do próprio texto.
Por fim, mais do que a mera consulta, mas a congruência de passagens paralelas (as que tratam do mesmo assunto) deve ser empreendida para que se possa entender corretamente o pensamento de Deus acerca de determinado assunto. Somente encerrando em declarações formais tudo o que a Bíblia diz sobre qualquer assunto é que se torna possível estabelecer qualquer doutrina ou pensamento divino.
Concluimos, assim, que a utilização de categorias teológicas na tarefa interpretativa é absolutamente necessária para o labor hermenêutico. Este, por ser tão importante em todas as questões da vida cristã, não deve ser empobrecido pelo uso exclusivo de métodos histórico-gramaticais. Se a Bíblia é um livro divino, deve também ser interpretada teologicamente.
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Notas
1. Croatto, J. S., por exemplo, qualificou os benefícios das técnicas histórico-gramaticais como "indiscutíveis". CROATTO, J. S., Hermenêutica Bíblica: para uma teoria da leitura como produção de significado. São Paulo: Paulinas, 1996, pg 10.
2. BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 1932, pg 101.
3. Idem
4. KAISER, W. C. Jr.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, pg 189
5. BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 1932, pg 106.
6. Idem, pg 108.
7. LUND, E.; NELSON, P. C. Hermenêutica: princípios de interpretação das Sagradas Escrituras. São Paulo: Editora Vida, 2006, pgs 28, 91.
8. Os "assentamentos da fé" são, na hermenêutica, passagens bastante claras e suficientemente extensas, que tratam tão didaticamente de determinados assuntos que devem ser utililizadas como base para o entendimento dos mesmos assuntos em passagens cujos significados estão menos evidentes. Servem também de fundamento sólido para estabelecer as demais doutrinas bíblicas.