Escatologia é uma palavra de origem grega que significa "estudo das últimas coisas". E é um assunto que, particularmente nos últimos dois séculos, têm angariado crescente interesse entre os cristãos em virtude do surgimento do dispensacionalismo - um sistema hermenêutico e escatológico bastante peculiar [1]. Via de regra, este interesse escatológico no seio cristão se expressa quase que exclusivamente com a leitura do futuro. Outrossim, o futuro é frequentemente esboçado em termos bastante sombrios: as coisas vão piorar, a apostasia será aumentada, a igreja será perseguida e o evangelho não prosperará.
Contudo, outros sistemas escatológicos têm igualmente nutrido um exarcebado interesse pelo futuro, ao ponto de, em consciência ou não, cultivarem um apocalipsismo futurista biblicamente injustificável e criando cenários apocalípticos hollywoodianos, repletos de construções do imaginário popular. Em outras palavras, a escatologia, graças a estes enfoques comumente recebidos, tem se conformado em uma doutrina de especulações e tramas futuristas infindáveis, repleta de cenários e instituições anacrônicas. Mas será que o futuro descrito por estes sistemas escatológicos está em harmonia com o que a Bíblia afirma sobre o futuro? E será que a Escritura realmente esculpe um futuro de contornos sombrios?
Para responder estas perguntas, vou recrutar aqui o capítulo 24 do evangelho de Mateus, uma passagem muito empregada para provar os pontos de vista futuristas-pessimistas na escatologia mas que, entretanto, quando devidamente interpretada e contrastada com outras na Escritura, nos mostra que todos os eventos sombrios geralmente posicionados no futuro nas leituras escatológicas estão, com efeito, no passado.
Vamos analisar o referido texto versículo a versículo ou a grupos de versículos:
"E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada" (Mat 24:1-2). Estes dois primeiros versos como continuação dos eventos narrados no capítulo 23, dão o tom da passagem. Jesus saía do templo de Herodes com seus discípulos após pronunciar um severo julgamento contra Israel mediante uma série de "ais" dirigidos aos fariseus e mestres da lei, acusando-os de serem cegos e endurecidos para a vontade de Deus e de serem, em última instância, inimigos de Deus. Então o Senhor olha com seus discípulos para o templo, o MAIOR SÍMBOLO RELIGIOSO e ÉTNICO dos judeus daqueles tempos, o centro da VIDA e da IDENTIDADE de cada judeu da época, e diz que aquele templo será destruído. Repare, no entanto: o que Jesus disse que ia ser destruído não era apenas uma construção gloriosa, mas o próprio arquétipo da presença de Javé entre eles.
"E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?" (Mat 24:3). Já fora do templo e olhando para ele do monte das oliveiras, Jesus e os discípulos continuam conversando sobre a notícia estarrecedora que Jesus havia dito. Diante disso, os discípulos perguntam quando estas coisas iriam acontecer, e qual o sinal da vinda de Jesus e do final do mundo. Neste ponto, vale adiantar que o templo de Herodes foi destruído pelos romanos em 70 d.C. Isto é um fato histórico conhecido e registrado. É ponto pacífico. Mas é um ponto importante: Jesus disse que o templo seria destruído; seus discípulos perguntam "quando?"; e o capítulo 24 consiste na resposta de Jesus. Considerando que o templo foi destruído em 70 d.C., já temos aqui uma inequívoca presença de um marco cronológico que aponta para um cumprimento consolidado de Mateus 24. Mas vamos prosseguir.
"Acautelai-vos, que ninguém vos engane; Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. ... E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. ... Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos" (Mat 24:4-5,11,23-24). O início da resposta de Jesus às indagações de seus discípulos começa nos versos 4 e 5, mas estende para o 11 e para os versos 23 e 24. E um dos sinais apontados por Jesus como resposta às perguntas dos discípulos é o de que, quando aqueles coisas fossem acontecer, muitos falsos Cristos e falsos profetas surgiriam e enganariam a muitos. Geralmente lemos essas coisas sob uma ótica futurista e, esperando um cumprimento por vir destas palavras, aguardamos ou observamos falsos Cristos de nosso tempo. Porém, se falsos Cristos já existem em nosso tempo (e já há algum tempo), como poderíamos diferenciá-los do falso Cristo futuro supondo que lêssemos Mateus 24 de modo futurista? Contudo, observe isto: falsos Cristos começaram a surgir já no primeiro século! Atos 5.36,37 diz: "Porque antes destes dias levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens; o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos e reduzidos a nada. Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos"; segundo Atos 8.9,10, "… estava ali um certo homem, chamado Simão, que anteriormente exercera naquela cidade a arte mágica, e tinha iludido o povo de Samaria, dizendo que era uma grande personagem; Ao qual todos atendiam, desde o menor até ao maior, dizendo: Este é a grande virtude de Deus"; e Atos 20.29,30 assevera: "Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si". Agora contraste as atitudes dessas pessoas com a de João Batista, que disse: "Eu não sou o Cristo" (João 1:20), e "… Este era aquele de quem eu dizia: 'O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu'" (João 1:15), apesar da grande quantidade de discípulos e curiosos que o seguiam, prontos a reverenciá-lo como Messias. Que diferença!
Portanto, se muitos falsos Cristos começaram a aparecer no primeiro século, e eles, segundo Jesus, seriam um dos sinais de que todas aquelas coisas estavam para acontecer (v. 3), então deveríamos suspeitar que Mateus 24 já se cumpriu e essas coisas já aconteceram. Mas Jesus disse mais coisas e antecipou mais sinais. Vamos a eles.
"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino… " (Mat 24:6-7a). Estas palavras também são daquelas que empregamos na leitura futurista e pessimista, afinal, estamos vivendo guerras e rumores de guerras, e nação está se levantando contra nação. Contudo, nenhuma guerra ou rumor de guerra atual traz o peso desta predição se a inserirmos com um cumprimento passado, no primeiro século. Isto porque nós vivemos em guerra e rumores de guerras há muitos anos, na verdade, há milhares de anos. Porém, guerras e rumores de guerras seriam absolutamente assutadoras e sigulares no primeiro século, pois foi uma época de especial pacificidade. De fato, os historiadores mostram que no primeiro século, a "pax romana" proporcionou um período singular de bonança. O império romano, à medida que conquistava outros povos, permitia que eles continuassem exercendo sua religião, desde que reverenciassem a César em primeiro lugar. Uma vez que essas religiões já eram politeístas em sua maioria, para eles isso não era problema. Além disso, a qualidade das estradas construídas pelo império proporcionava viagens relativamente seguras e a transmissão de mensagens mais ágil que se poderia esperar desde os tempos mais antigos. Por fim, havia também o idioma comum internacional, o grego, que viabilizava a comunicação entre todos os povos promovendo a prosperidade comercial. Tudo isso, subordinado ao fato de que havia um só centro de poder (logo, guerras e revoltas eram acontecimentos do passado), possibilitou uma era de paz e bonança sem igual.
Ora, foi justamente nesta época em que Jesus disse serem guerras e rumores de guerras um dos sinais de sua volta e do fim dos tempos, que a pax romana imperava e dentro da qual a eclosão de guerras e revoltas seria uma quebra de paradigmas considerando o contexto histórico. Ademais, se a predição de Jesus não se referia a um evento próximo, mas ao futuro distante, então, novamente, não poderíamos ter sinal algum a respeito daquelas coisas, afinal, vivenciamos guerras e rumores de guerras há dois mil anos, sem contar a era antes de Cristo. Isto significa que Cristo está para voltar? Sua volta é iminente? Se for, é iminente há dois mil anos, o que contraria o próprio conceito de iminência. Portanto, as guerras e rumores de guerras às quais Jesus se referiu estavam há um futuro próximo da época da predição, e considerando o contexto da pax romana, isso faz todo o sentido.
Mas o que aconteceu, então, no século I, que caracterizou a eclosão de guerras e rumores de guerras? Kenneth L. Gentry Jr. nos responde:
Na década de 60 d.C., a Guerra Judaica irrompeu no cenário tranquilo da história. Roma marchou com vitória através de Israel, e destruiu por último Jerusalém e seu santo templo. Apesar de a revolta judaica ter se iniciado em 66 d.C., a Guerra de fato teve início na primavera de 67 — quando Nero formalmente comissionou Vespasiano e lhe outorgou quatro legiões para sufocar a revolta. Nessa Guerra, a Síria, a Arábia, o Egito e outras nações se alinharam contra Israel.
Não só Roma mobilizou sua ponderosa máquina de guerra para dar fim à revolta na Judeia (além de empregar várias nações subservientes nessa carnificina), no próprio Império Romano irrompeu uma guerra civil no mesmo período. Em 68 d.C. Nero cometeu suicídio enquanto Roma sucumbia às agitações sociais e aos conflitos militares. Revoltas ocorriam na Britânia, Germânia e Gália. Roma temia que os partos (do Oriente) se mobilizassem por causa da desordem do império nesse momento. Roma se desmancha enquanto “nação se levanta contra nação”. Essas “guerras e rumores de guerras” são verdadeiros sinais para a geração do século I [2].
Vemos, portanto, em consonância ao que tenho dito até agora, que mais este sinal, que consiste no discurso de Jesus em Mt 24, pertence a futuro próximo em relação ao momento do discurso, mas ao passado em relação a este tempo atual, ano de 2015 d.C. Em adição, logo adiante veremos que a mencionada destruição do templo, cume dos acontecimentos descritos em todo o capítulo, se constitue no estabelecimento do famoso evento da "Grande Tribulação".
"… e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares" (Mat 24:7b). Não são poucos os registros históricos de fomes, pestes e terremotos no primeiro século. O próprio livro de Atos testemunha isso (At 11.28), embora nenhum testemunho seja tão vívido quanto o de Flávio Josefo, um judeu historiador da época. Ele relata:
Não se viam mais mesas postas; cada qual tirava de debaixo do carvão o que comer, sem se dar ao trabalho de o deixar cozer. Jamais se poderia ver miséria tão deplorável. Somente aqueles que tinham o poder nas mãos não a experimentavam. Todos os demais lamentavam inutilmente sua desgraça e como a fome não se disfarça, as mulheres arrancavam o pão da mão de seus maridos, as crianças, das mãos de seus pais, e o que supera toda a credulidade, as mães, das mãos de seus filhos. Mas os que assim faziam não podiam, nem se escondendo, evitar que se lhes viesse a arrebatar o que já tinham tirado dos outros. Quando a porta de uma casa se fechava, a suspeita de que aqueles que lá estavam tinham alguma coisa para comer, os fazia arrombá-las, para entrar e para lhes tirar o pedaço da boca. Espancavam os velhos que não os queriam entregar, agarravam pela garganta as mulheres que escondiam o que tinham nas mãos e sem ter nem mesmo compaixão das crianças, que ainda mamavam, atiravam-nas ao chão depois de terem sido arrancadas do peito das suas mães. Os que corriam para tirar o pão dos outros, iravam-se com os que corriam mais do que eles, como se os tivessem injuriado gravemente e não havia tormentos que não se inventassem para encontrar um meio de viver. Penduravam os homens pelas partes mais sensíveis, fincavam-lhes na carne pedaços de pau pontiagudos e os faziam sofrer outros indizíveis tormentos, para fazê-los declarar onde tinham escondido um pão ou um punhado de farinha. Esses carrascos achavam que, em tal conjuntura, podia-se, sem crueldade, praticar tão horríveis ações e eles ajuntaram, por esse meio, o necessário para viver seis dias. Tiravam dos pobres as ervas que de noite eles iam colher fora da cidade, com perigo de vida; nem escutavam os rogos que lhes faziam, em nome de Deus, para lhes deixar uma pequena porção e julgavam fazer-lhes grande favor, não os matando depois de os ter roubado. [3]
Isto me parece uma escassez digna da "grande tribulação"! Volto nisso em algumas linhas. Mas e quanto aos terremotos mencionados? Não seriam esses tremores também um sinal do "fim dos tempos"? Veja o que escreveu Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), um intelectual romano do século I:
Quantas vezes cidades na Ásia, quantas vezes na Acaia, foram postas abaixo por um único terremoto! Quantas cidades na Síria, quantas na Macedônia, foram tragadas! Quantas vezes este tipo de devastação deixou Chipre em ruínas! Quantas vezes Pafos sofreu colapso! Não raro chegam-nos notícias da destruição completa de cidades inteiras. [4].
Sim, no primeiro século a atividade sísmica foi intensa e certamente corroborou o discurso de Jesus em Mateus 24.
"Mas todas estas coisas são o princípio de dores. Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome. Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão" (Mat 24:8-10). Prosseguindo em sua exposição, o Senhor alerta que haveriam perseguição, denúncia e apostasia severas. E diz mais: "Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; E quem estiver sobre o telhado não desça a tirar alguma coisa de sua casa; E quem estiver no campo não volte atrás a buscar as suas vestes" (Mat 24:16-18). Contudo, observe como este trecho, outrossim lido sob o ângulo futurista, encontra cumprimento exatamente no primeiro século, segundo At 4.27; 16.20; 17.7; 18.12; 21.11; 24.1-9; e 25.1,2. Todas estas referências em Atos dos Apóstolos mostram a intensa perseguição que sobreviria aos discípulos de Jesus, exatamente conforme o Senhor anunciara. Porém, o verso de At 8.1 é realmente ilustrativo: "... E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria ...". Alguma semelhança para com os versos 16 e 18 (transcritos logo acima) de Mateus 24? Certamente uma leitura contextual da Palavra de Deus favorece uma interpretação passada de Mateus 24 e da grande tribulação. "Mas e quanto ao fim dos tempos?", você pode indagar, ele ainda não ocorreu e, assim, Mateus 24 tem de ser interpretado de modo futurista. Em alguns momentos chegaremos neste ponto. Por ora, vamos prosseguindo.
"Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver" (Mt 24.21). Este verso costuma ser o vértice das interpretações futuristas na escatologia. Ele fala da "Grande Tribulação". Aqueles que preferem uma perspectiva futurista-pessimista da escatologia bíblica olham para este verso perplexos, imaginando que, uma vez que não experimentaram ainda o pior cenário moral, espiritual e político de suas vidas, então este cenário ainda está por vir. Mas há necessidade de levantarmos algumas questões importantes aqui. Embora possa verdade que para certas pessoas ou grupos de pessoas ainda há um futuro pior a ser aguardado, isso CERTAMENTE não é verdadeiro a partir de um prisma mais amplo que englobe toda a humanidade e todo o tempo. Em primeiro lugar, pensemos no episódio do dilúvio bíblico: de toda a humanidade, em toda a terra, apenas UMA família sobreviveu ao caos e à destruição das águas, terremotos e tsunamis que assolaram a humanidade em poucos dias. TODOS os seres humanos, à exceção de uma pequena família, pereceram debaixo de uma experiência ATERRORIZANTE. Todos! Não seria este episódio uma tribulação infinitamente pior do que a descrita em Mateus 24? Observe atentamente as descrições da grande tribulação em Mateus 24 e da calamidade do dilúvio. Você verá que o dilúvio foi, de fato, incomparavelmente pior do que a tribulação de Mateus 24. Mas por que, então, Jesus disse que a tribulação que haveria de vir seria a pior desde o princípio do mundo? Ora, é óbvio que o Senhor estava empregando uma figura de linguagem, a hipérbole, para destacar a força do que estava dizendo. Mas esta declaração hiperbólica não deve ser interpretada literalmente. E em segundo lugar, veja o que Deus diz em Êxodo 11.5,6: "E todo o primogênito na terra do Egito morrerá, desde o primogênito de Faraó, que haveria de assentar-se sobre o seu trono, até ao primogênito da serva que está detrás da mó, e todo o primogênito dos animais. E haverá grande clamor em toda a terra do Egito, como nunca houve semelhante e nunca haverá" (Exo 11:5-6).
Temos, então, estas duas referências bíblicas, de momentos distintos na história, afirmando ser, concomitantemente, uma calamidade ímpar na cronologia da humanidade. Isso sem contar o dilúvio! Mas se a Bíblia não se contradiz, então fica claro que estas declarações são ferramentas retóricas, figuras de linguagem. Deste modo, a grande tribulação de Mateus 24 não precisa ser, e não é, um acontecimento futuro. Na verdade, ela era um acontecimento futuro em relação ao momento do discurso no capítulo 24, mas foi um acontecimento passado em relação a nós, hoje, em 2015 d.C., visto que ela ocorreu já no primeiro século: a perseguição da igreja, a apostasia intensa, as guerras e rumores de guerras, as agitações políticas, as fomes, os terremotos, tudo isso acontecendo em uníssono, já caracterizaria, por si só, uma grande tribulação. Mas todas essas coisas como um prefácio à Guerra Judaica, consolidada por nada menos que a destruição do templo (exatamente como Jesus dissera), adquirem um novo status de calamidade, principalmente quando vemos o "abominável da desolação" (v.15) profanando o templo [5]. Isto foi, verdadeiramente, a Grande Tribulação [6]!
Mas até aqui tenho falado sobre a resposta de Jesus concernente à destruição do templo, que caracterizou a grande tribulação. No entanto, os discípulos haviam perguntado também a respeito da volta de Jesus e do fim dos tempos. Como podem estes dois últimos acontecimentos (a volta de Cristo e o fim dos tempos) se enquadrar em uma leitura preterista de Mateus 24? Vejamos.
"Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem" (Mat 24:27). Este verso tem sido interpretado como se referindo ao retorno escatológico de Jesus, aquele na consumação dos tempos que será acompanhando da ressurreição dos santos. No entanto, observe o que diz o texto veterotestamentário de Isaías 19.1: "... O SENHOR vem cavalgando numa nuvem ligeira e entra no Egito. Os ídolos do Egito estremecerão diante dele, e o coração dos egípcios se derreterá". Esta imagem profética fornecida por Isaías diz Deus castigará o Egito, e que ele fará isso vindo em uma nuvem. Isso quer dizer LITERALMENTE que os egípcios enxergariam, com seus olhos físicos, o Deus Triúno vindo sobre uma nuvem para aplicar seu juízo sobre eles? É claro que não! Na verdade, a imagem de Deus sobre uma nuvem indo contra uma nação expressa, em um gênero de linguagem apocalíptica, a ira e o juízo divino sobre este povo. Observe, no caso de Isaías 19, como a manifestação de Deus sobre a nuvem, vindo em juízo, se concretiza em perturbações políticas (v.2) e ambientais (v.5) para a nação alvo do castigo divino. Ninguém está vendo Deus com seus olhos, cavalgando em uma nuvem, mas eles fatalmente "enxergariam" este Deus vindo sobre uma nuvem de juízo, e enxergariam isso através dos sofrimentos por que haveriam de passar. Da mesmíssima forma, Jesus emprega a linguagem apocalíptica do Antigo Testamento usando a imagem de relâmpagos (um dos fenômenos naturais mais poderosos e destruidores), para falar sobre sua "vinda". E a vinda de Jesus em juízo com o poder destruidor do relâmpago se concretiza como? Na destruição do templo! Relembre o capítulo 23 de Mateus e os primeiros versículos da passagem em estudo. (Ora, volta de Jesus = relâmpago; relâmpago = destruição; templo => destruído; assim, volta de Jesus em Mt 24 = destruição do templo). A destruição do templo, pela instrumentalidade do império romano [7], é a "vinda de Jesus" em juízo sobre Israel. E isso fica perfeitamente claro tanto à luz do capítulo anterior, no qual Jesus afirma que o comportamento deles era semelhante ao dos seus antepassados que matavam os profetas enviados por Deus (Mt 23.32-34), e que eles mesmos seriam punidos por isso (Mt 23.36), quanto à luz do início do próprio capítulo 24, que claramente ASSOCIA e UNE os eventos da destruição do templo e da vinda de Jesus (Mt 24.1-3). Portanto, a vinda de Jesus referida em Mateus 24 não é a vinda física de Jesus, aquela que inaugurará a nova criação e porá termo definitivo ao pecado, mas a vinda dele em ira e julgamento contra Israel. E a prova desta vinda foi a destruição do templo pelos romanos em 70 d.C.
"Mas este foi também o fim do mundo?", alguém pode perguntar. Mateus 24.14 afirma que "... este evangelho do reino será pregado pelo mundo inteiro, para testemunho a todas as nações, e então virá o fim". Como o fim do mundo pode ter ocorrido no século I? Simples. Na Escritura, muito raramente a palavra "mundo" se refere ao mundo inteiro. Em Romanos 1.8 Paulo expressa sua alegria pela fé dos romanos ser reconhecida no mundo inteiro. Isto significa que, no século I, os habitantes das Américas também ouviram falar na fé dos romanos? Será que os australianos também estavam conscientes de que os cristãos romanos estavam progredindo no evangelho? Não. Novamente, esta é uma figura de linguagem. Todo o mundo CONHECIDO pelos interlocutores da carta é que estava ouvindo falar da fé dos romanos. De semelhante modo, o evangelho sendo pregado em "todo o mundo" conforme Mateus 24.14 não se refere a todo o planeta terra, mas a todo o mundo conhecido pelos interlocutores, e que demarcava-se pelos limites políticos do império romano. A extensão do império era o "mundo". Assim, quando o evangelho estivesse alcançando o "mundo inteiro", todos estes acontecimentos iriam se confluir configurando o "fim". Não coincidentemente o livro de Atos, ao mostrar que o evangelho havia extrapolado os limites geográficos da Palestina, diz que as boas novas estariam chegando aos "confins da terra" (At 1.8).
Finalmente, e quanto ao rapto ou arrebatamento descrito no verso 31? : "E ele enviará seus anjos com um alto som de trombeta, os quais reunirão seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade do céu" (Mat 24:31). Este verso também fala sobre a evangelização "mundial" que ocorrerá perto do "fim". A palavra "anjo", do grego "anguelos", significa mensageiro, e se refere à proclamação do evangelho empreendida pelas cristãos, conforme a grande comissão. Não é a Palavra de Deus que reúne os eleitos, conforme a Estrutura nos têm mostrado? De fato, outras passagens bíblicas foram mal traduzidas e deveriam conter a palavra "mensageiro", como se referindo a humanos, em detrimento do termo "anjo" (veja Mt 11.10; Mc 1.10 e Lc 7.24). Destarte, o verso 31 não faz referência a um arrebatamento secreto (que, por sinal, não será secreto), mas à evangelização "mundial" - jamais desconsiderando o significado de "mundo" conforme o contexto.
Assim, eu espero ter sido convincente a respeito da coerência de uma abordagem preterista de Mateus 24 e da grande dificuldade a qual uma interpretação futurista do mesmo trecho está sujeita. Temos visto que a grande tribulação já ocorreu na vida igreja, simultaneamente aos outros eventos descritos em Mateus 24. E se esta exposição ainda não foi o suficiente para a defesa de uma abordagem preterista da passagem, o verso 34 da mesma dissipa qualquer dúvida: "Em verdade vos digo que esta geração não passará sem que todas essas coisas aconteçam" (Mat 24:34). Outros sistemas escatológicos se esforçam muito para interpretar o verso 34 a luz de uma visão futurista de Mateus 24, contudo, nada poderia ser mais coerente do que aceitar exatamente o que ele diz, e ele diz que todas essas coisas (grande tribulação, "volta" de Jesus, evangelização "mundial" e "fim do mundo") ocorreriam ANTES que a geração que o ouvia passasse. Visto que, na Bíblia, uma geração sempre é associada a um período de 40 anos (Sl 95.10), todas as coisas descritas em Mateus 24 necessariamente deveriam eclodir até meados de 70 d.C., ou, arredondando um pouco, podemos delimitar o século I.
Mas tudo isso significa que Cristo não voltará para julgar as nações cabalmente, extinguir o pecado e glorificar seus eleitos? Claro que o Senhor voltará! O retorno de Jesus é esperado por todos os crentes verdadeiros. Mas sabemos que a grande tribulação já aconteceu. O evangelho, assim, prosperará, e muito, antes da volta escatológica de nosso Senhor. O mundo será mais e mais conformado ao Reino de Cristo à medida em que os eleitos de todos os povos, tribos e nações tiverem seus corações transformados pela graça de Deus. Isto não ocorrerá em pouco tempo, mas nossa esperança é que a semente de mostarda do Reino cresça lentamente até atingir proporções universais. Sim, adotar a interpretação correta de Mateus 24 equivale a adotar uma perspectiva preterista desta perícope ao mesmo tempo em que se afirma uma perspectiva otimista, e não pessimista, sobre o futuro. O futuro não será sombrio, mas entretecido no bem, na justiça e nos valores de Deus. O futuro será glorioso!
Notas
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1. Grosso modo, o dispensacionalismo entende o desenrolar da história da redenção como que fracionado em diversos ciclos de descontinuidade nos quais o homem é testado por Deus, e cada falha apresentada pelo homem marca o final de uma dispensação e o início de outra. Absolutamente nada na Escritura aponta, nem sequer remotamente, para uma leitura dispensacionalista da Bíblia, de modo que o dispensacionalismo é um sistema falho e deveras equivocado desde as suas premissas. Em outro momento eu empreenderei algum tempo no meu blog para provar esta afirmação.
2. GENTRY, Kenneth L. Jr. Pós-milenarismo para leigos. Brasília: Editora Monergismo, 2014.
3. JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. 8.ed. Rio de Janeiro, CPAD, 2004, 2 Parte, Livro Quinto, Capítulo 27.
4. Os terremotos e os fatos históricos. Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/bibmb_sinal3.html>. Acesso em 12 mar. 2015.
5. Em 70 d.C., antes de o exército romano destruir o templo, entrou no Lugar Santo com as insígneas de César (que era considerado uma divindade) e acenderam incenso ao imperador (uma ato pagão de adoração dentro do templo dos judeus): isto não é nada menos do que um anticristo (alguém que se coloca no lugar de Cristo) ocupando o lugar de Deus.
6. Veja mais este testemunho de Josefo sobre o terror que ocorreu naqueles dias: "Os males que afligiam Jerusalém aumentavam cada vez mais; o furor dos revoltosos aumentava também, pois a fome era tal que os roubos não impediam que eles também começassem a se sentir envolvidos na mesma miséria geral, que já tinha destruído grande parte do povo e que reduzia ao último extremo os que ainda viviam. Os cadáveres que enchiam a cidade e a contaminavam com seu mau cheiro, o que não se podia contemplar sem horror, retardavam mesmo os ataques, pois a quantidade não era menor que a dos que poderiam ter tombado numa grande batalha, dentro dos muros. Havia mortos por toda a parte; pelas estradas, pelas ruas, não se podia passar sem que pisasse nalgum cadáver. Mas o endurecimento de seu coração era tal que esse espetáculo tão horrendo não os impressionava, não lhes causava a compaixão, e não os fazia considerar que aumentariam bem depressa o número dos que eles calcavam aos pés com tanta desumanidade. Depois de ter numa guerra interna manchado suas mãos no sangue de seus próprios concidadãos, pensavam agora somente em lutar contra os romanos, numa guerra externa e parecia que eles censuravam a Deus que adiava o castigo, pois não havia mais esperança de vencer; era o desespero que lhes inspirava tanta coragem e ousadia" (JOSEFO, Flávio. Op. Cit., 2 Parte, Livro Sexto, Capítulo 1).
7. Quantas vezes Deus não usou nações pagãs para julgar e punir seu povo?! Aliás, diversas vezes Deus recrutou a imagem de astros e perturbações astronômicas para se referir a guerras e a queda de nações poderosas - Ez 32.7 - , da mesma maneira que o v.29 relata.