Ordo salutis ("ordem de salvação") é o nome latino que se dá àquela organização lógica e mais ou menos cronológica das diversas ações divinas, agenciadas pela Terceira Pessoa, ligadas à economia da salvação para o indivíduo. E essa representação esquematizada posiciona-se como um ponto de cisão entre as diversas tradições legítimas do cristianismo [1]: católicos a concebem de uma maneira, luteranos de outra, arminianos de outra. A ordo salutis reformada, entretanto, apresenta-se como a que mais precisamente faz jus ao ensino bíblico acerca da salvação, considerando esta doutrina pelo prisma do tota scriptura, valendo-se de uma lógica pressuposicionalista e empregando de forma adequada os assentos da depravação total do ser humano e da perfeita liberdade e soberania de Deus.
A ordo salutis reformada
Em seu esqueleto mais conciso, a ordem de salvação dos reformados é organizada como se segue:
(I) eleição;
(II) regeneração;
(III) chamado;
(IV) conversão;
(V) santificação;
(VI) glorificação.
Portanto, a concatenação lógica destes mistérios do Espírito deve ser, para que se materialize segundo a Escritura, exatamente como foi expressa. Ela deve postular essas operações na ordem em que a Bíblia nô-las apresenta e a qual os reformados honram com sua teologia.
Argumentação bíblica em favor da ordo reformada
Embora a eleição não seja uma aplicação dos méritos de Cristo ao pecador individual - conforme normalmente propõe a definição de ordo salutis - , é prudente considerarmos esta doutrina no approach em questão pelo simples fato de que, em última instância, tudo o que ocorre com o pecador na ordem de redimí-lo é decorrência de uma vontade soberana de Deus. Assim, em primeiro lugar, a eleição é o ponto de partida para tudo pois ela é nada menos do que a dimensão soteriológica da doutrina dos decretos de Deus.
A Escritura afirma:
"[...] anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; [...] O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade." (Isa 46:10).
Tudo o que acontece é resultado direto de um decreto eterno de Deus. Deus decretou todas as coisas (todas!), desde a eternidade. A salvação, desse modo, está incluída nos decretos de Deus.
Em segundo lugar, Deus implanta nos seus escolhidos o princípio da nova vida, batizando-os no Santo Espírito. Desde que os outros "momentos" da salvação de um pecador pressupõem o seu estado de vida (uma pessoa não pode ter fé nem santificar-se se está morta em pecados - Ef 2.1,2), e desde que o homem morto em seus pecados não pode fazer absolutamente nada nem por si, nem por outros, é lógico que, antes sequer que ele possa dar-se conta de sua salvação, ele precisa estar "salvo", ele precisa estar REGENERADO.
Diz o apóstolo João:
"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (João 1:12-13).
Este verso, fazendo eco ao ensino geral das Escrituras, mostra que os filhos de Deus são os que crêem Nele, e diz que estes mesmos que crêem nasceram da vontade única de Deus! A lição é clara: se uma pessoa crê em Deus é porque ela já foi nascida de Deus, já foi regenerada. Do contrário, como diz Paulo, "a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser." (Rom 8:7).
Em terceiro, os que Deus regenerou são chamados para a vida com Deus e só podem obedecer ao chamado porque foram regenerados. E este chamado divino, que não pode ser resistido visto que parte de um decreto eterno (eis o motivo pelo qual a eleição deve ser lembrada na análise da ordo salutis), dá-se por instrumentalidade da palavra de Deus:
"Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada." (1Pe 1:23-25).
A palavra de Deus, tornada eficaz pela poderosa ação do Espírito, opera como meio instrumental de conversão. E, novamente, há uma lógica aqui. Se a conversão pode ser resumida como arrependimento e fé, se arrependimento e fé só podem ser articulados em função de um conteúdo objetivo de informações, e se este conteúdo consta exclusivamente na palavra de Deus, então é evidente que apenas pela palavra de Deus uma pessoa regenerada pode ser chamada à conversão.
Em quarto, portanto, o pecador que já recebeu a semente da vida incorruptível e que foi chamado pela "palavra que permanece para sempre", é convertido mediante ação do mesmo Espírito. Neste ponto, há uma observação a ser fixada: pode haver um hiato de tempo entre a regeneração e a conversão. Louis Berkhof acentua:
"[Regeneração] é uma mudança que ocorre na vida subconsciente. É uma secreta e inescrutável obra de Deus que o homem nunca percebe diretamente. A mudança pode ter lugar sem que o homem esteja cônscio dela momentaneamente, se bem que não é o que se dá quando a regeneração e a conversão coincidem" [2].
Dessa forma, a conversão caracteriza-se precisamente pela necessidade de consciência da parte do pecador. Ele precisa saber a quem está sendo convertido:
"E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (João 17:3).
Em quinto lugar, os que foram convertidos são iniciados, agora, em sua santificação. Conquanto um não-regenerado não possa obedecer a Deus, o que qualifica um pecador convertido é precisamente aquela sua vontade de servir a Deus, amá-lo e obedecê-lo.
Diz Paulo aos romanos:
"Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. … Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. … E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados." (Rom 8:5,14,17).
Outrossim, com o mesmo poder onipotente com que Deus constrange seus eleitos à conversão, eles são santificados de forma irresistível. Se Deus decretou a salvação dos que escolheu, e se a glorificação deles depende também de seu engajamento na santificação, é mister que Deus os garantirá nesta etapa da ordo. Os salvos, como atesta a Escritura, podem cair em graves pecados e por algum tempo continuar neles; incorrer assim no desagrado de Deus, entristecer o seu Santo Espírito e de algum modo vir a ser privados das suas graças e confortos; e ter os seus corações endurecidos e as suas consciências feridas; prejudicando e escandalizado os outros e atraindo sobre si juízos temporais [3]. Contudo, Deus os restaurará à obediência no caminho santo.
Por fim, em sexto e último lugar, os mesmos que foram eleitos na eternidade serão glorificados no final. Não há opção quanto a isso e não há evento contingente que se interponha como barreira à ação e aos decretos de Deus.
A Bíblia diz:
"Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo. … Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou." (Rom 8:22-23,29-30).
A glorificação dos santos é certa primeiramente porque ela é um componente sine qua non do decreto salvífico de Deus: o Senhor não apenas predestinou "os que conheceu de antemão", mas os predestinou para serem conformes a imagem de Jesus Cristo. A existência de um final pressupõe o sucesso e a concreção dos meios. Ademais, aos que Deus predestinou, ele também chamou e, por fim, glorificou. Ou seja, os mesmos que foram chamados serão glorificados. Os mesmos! E, mais do que isso, sua glorificação é tão certa que a Escritura a posiciona como um evento passado, ao lado do chamado e da justificação. Para Deus, tudo está tão certo que essas obras são consideradas fatos consumados.
Estes, concluindo, são os diversos elos da corrente de eventos soteriológicos. E a coerência na disposição dessas operações, tanto mais se aproxima da ordo salutis reformada mais reflete a lógica da Escritura.
Notas
1. Esse ponto não fraciona a igreja universal de tal maneira que sua identidade cristã seja anulada ou que sua unidade seja perdida. A igreja, na ordem de manter-se como tal, deve concentrar seu senso de comunhão na doutrina mais central do cristianismo, resumida com perfeição no Credo Apostólico.
2. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática: São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
3. CFW XVII.III.
Há algum tempo, para a glória de Deus, o pensamento reformado, que é essencialmente evangélico, tem florescido no cristianismo brasileiro. As doutrinas da graça estão sendo expostas e popularizadas por diversas mídias e o conteúdo da doutrina bíblica tem sido propagado, promovendo, já, algumas mudanças sutis no panorama do cristianismo tupiniquim. Mais uma vez: glória a Deus por isso!
Entretanto, o reino de Deus é como uma semente de mostarda; cresce vagarosa e paulatinamente, muitas vezes à larga de nossa percepção. Desse modo, antes que nos alegremos na afirmação de um cristianismo bíblico e teocêntrico, notaremos ainda inúmeras incoerências e dissonâncias doutrinais, muitas vezes perpetuadas por irmãos piedosos e sinceros (mas que podem estar sinceramente enganados). Um destes desvios doutrinários e talvez o mais bem propagado ao longo dos séculos é o do livre-arbítrio, de modo que, a despeito de tudo o que se tem dito sobre este tema, nunca é demais reforçar a consciência dos santos com a luz do ensino bíblico.
A doutrina do livre-arbítrio dispensa apresentações. Ela afirma mais ou menos aquilo em que todo homem nasce crendo: que é livre! Ademais, além de a crença humanista no livre-arbítrio ser um consenso entre os homens, ela tem, há séculos, encontrado terreno fértil no discurso cristão. Ironicamente, os próprios cristãos, que julgam ter na Palavra de Deus a sua regra de fé e conhecimento, há muito têm acolhido esta doutrina, a despeito de tudo o que lêem na Escritura sobre o homem, sua escravidão ao pecado e sua existência não-autônoma diante de um Deus todo-poderoso e imanente. E o fato de o livre-arbítrio ser ensinado quase irrestritamente por várias tradições cristãs faz com que seja recebido pelo geral como um ponto pacífico.
Entretanto, apesar de o livre-arbítrio ser um ensino quase consensual em muitas tradições cristãs, tal ensino não corresponde ao que Deus nos revela em sua Palavra.
Em primeiro lugar a Bíblia apresenta um retrato bastante claro e deveras indigesto do ser humano como um ente ESCRAVO de suas paixões. Não são necessárias elocubrações muito elaboradas para a conclusão de que um escravo simplesmente não é livre. Moisés diz: "E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gen 6:5). A poesia hebraica indaga: "Quem poderá dizer: 'Purifiquei o meu coração, limpo estou de meu pecado?'" (Prov 20:9). Mais adiante, Paulo concorda com as Escrituras escrevendo aos romanos: "[… ] Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos". (Rom 3:10-18). Por fim, o próprio Deus encarnado afirma: "O que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias". (Mat 15:18-19).
A Bíblia descortina de forma inequívoca e exaustiva a condição humana de catividade ao pecado. No entanto, a vontade cativa do homem não deve ser inferida apenas em virtude de sua condição depravada, mas tendo em vista sua existência em contraste a de um Ser transcendente, onipotente, onipresente e imanente, o que nos leva a um segundo ponto.
Repare como o ensino do livre-arbítrio não pode se adaptar à realidades claramente fixadas na Escritura, como a da soberania de Deus, por exemplo. Se o homem é plenamente livre, então Deus não é soberano sobre ele. Alguém que está (ou é) plenamente livre não pode estar, ao mesmo tempo, sujeito à influência ou persuasão de outrem. Assim, se o homem é plenamente livre, não está sujeito a Deus. Em contrapartida, se o homem não é plenamente livre, então NÃO podemos dizer que é REALMENTE livre. E se não é realmente livre, segue-se que não possui livre-arbítrio. Em adição, se Deus não for soberano sobre aquele homem, então Deus não é REALMENTE soberano. E se Deus não é realmente soberano, não pode ser chamado de Deus. Neste ponto, alguns podem argumentar que o homem é livre e, ao mesmo tempo, Deus é soberano, porém, Deus, voluntariamente, não exerce sua soberania sobre o homem e o deixa livre para exercer suas escolhas. Mas há vários problemas com esta teoria, e o que eu gostaria de trazer neste artigo é que a implicação direta desta afirmação é que, se as coisas fossem assim, a história e o curso do mundo dependeriam, em última análise, do homem, e não de Deus. Se Deus não intervém na volição humana, então é o próprio ser humano que dá o tom para o desenrolar de sua história. Isso não lhe soa como teísmo aberto? Em contrapartida, temos na Escritura uma evidência gritante de que o Soberano Deus atua na vontade de suas criaturas racionais. Bem, conclue-se que o livre-arbítrio humano e a perfeita soberania de Deus devem ser ensinos mutuamente excludentes. E a Bíblia mostra tão escancaradamente a soberania de Deus que temo que elencar versículos para provar este ponto seria apenas fútil.
Finalmente, a doutrina do livre-arbítrio é extraditada pela própria experiência cristã. Não que a experiência seja um critério válido para a afirmação de verdades, contudo, ao passo em que o evangelho não é apenas discernido cognitivamente, mas experimentado e vivido, a práxis, interpretada pela objetividade da Revelação (Bíblia), a comprova e estabelece. Você já teve a horrível sensação de querer fazer o bem e agradar a Deus mas, de alguma maneira, acabar fazendo o mal e o desagradando? Paulo, o apóstolo, já está vivenciou este dilema (Rm 7.15-20). Mas se ele fosse verdadeiramente livre em sua vontade, teria traído sua própria consciência? Não, é claro. E sem falar que o apóstolo, quando confessou sua inabilidade natural em fazer o bem, desfrutava já da habitação do Espírito (muitas vezes apontada pelos sinergistas como uma ação que restaura no homem a liberdade de seu arbítrio)! De semelhante modo, cada vez que nos vemos ainda obedecendo ao pecado em detrimento dos preceitos divinos, cônscios de que são corretos, maravilhosos e vetores de paz e deleite, flagramo-nos contradizendo o ensino do livre-arbítrio. E cada vez que nos flagramos em oração, em súplicas a Deus, em exercícios de adoração, em serviço e em confissões de arrependimento, não apenas confirmamos nossa incapacidade de prosseguir a carreira cristã por esforço próprio como confirmamos intimamente a soberania de Deus em nossas vidas expressa pela poderosa ação de seu Espírito, que opera em nós o querer e o realizar, segundo sua vontade (Fp 2.13).
Para concluir, vemos que embora o livre-arbítrio seja uma doutrina popular e amplamente aceita, mesmo no cristianismo, é mui carente do fundamento autorizado da Sagrada Escritura. O fato de um indivíduo se ver capaz de decidir entre almoçar omelete ou frango assado não deveria levá-lo, instantaneamente, a crer que é um ente livre. Ele pode ser livre para escolher seu almoço, mas seria livre para decidir não pecar? Ele pode ser livre de outros semelhantes, mas seria livre de Deus? Se a resposta for negativa, concluímos que este indivíduo não é totalmente livre, e se não é totalmente livre, não é livre de maneira alguma! Destarte, o livre-arbítrio não existe. Esta doutrina não vem da Bíblia, mas da filosofia pagã. É um mito muito bem disseminado, mas continua um mito. O que duendes, fadas e o livre-arbítrio têm em comum? Eles simplesmente não existem.
Pode parecer para alguns de nossos leitores que a exposição que demos de João 3:16 no capítulo sobre “Dificuldades e Objeções” é forçada e não natural, na medida em que nossa definição do termo “mundo” parece estar fora de harmonia com o significado e escopo desta palavra em outras passagens, onde, fornecer o mundo de crentes (os eleitos de Deus) como uma definição de “mundo” parece não fazer sentido. Muitos têm nos dito: “Certamente, ‘mundo’ significa mundo, isto é, você, eu, e cada pessoa”. Em resposta dizemos: Nós sabemos por experiência quão difícil é pôr de lado as “tradições de homens” e chegar a uma passagem que temos ouvido explanada de um certo modo muitas vezes, e nós mesmos estudá-la cuidadosamente sem preconceito. Todavia, isto é essencial se desejarmos aprender a mente de Deus.
Muitas pessoas supõem que elas já conhecem o simples significado de João 3:16 e, portanto, concluem que nenhum estudo diligente é requerido delas para descobrir o ensino preciso deste verso. É desnecessário dizer, que tal atitude impede a entrada de qualquer luz adicional que de outra forma eles poderiam obter sobre a passagem. Além disso, se alguém pegar uma Concordância e ler cuidadosamente as várias passagens nas quais o termo “mundo” (como uma tradução de “kosmos”) ocorre, ela rapidamente perceberá que para se averiguar o preciso significado da palavra “mundo” em qualquer passagem, não será nem um pouco fácil como é popularmente suposto. A palavra “kosmos”, e seu equivalente em português “mundo”, não é usada com um significado uniforme no Novo Testamento. Extremamente longe disso. Ela é usada em um número de formas absolutamente diferentes. Abaixo nos referiremos a algumas poucas passagens onde este termo ocorre, sugerindo uma tentativa de definição em cada caso:
"Kosmos" é usado para definir o Universo como um todo: Atos 17:24 – “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra”.
"Kosmos" é usado para definir a terra: João 13:1; Efésios 1:4, etc., etc.- “Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. “Passar deste mundo” significa, deixar esta terra. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo”, Esta expressão significa, antes da terra ser fundada – compare Jó 38:4, etc.
"Kosmos" é usado para definir o sistema mundial: João 12:31, etc. “Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo” – compare Mateus 4:8 e 1 João 5:19.
"Kosmos" é usado para definir toda a raça humana: Romanos 3:19, etc. – “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”.
"Kosmos" é usado para definir a humanidade menos os crentes: João 15:18, Romanos 3:6. “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim”. Os crentes não “odeiam” a Cristo, de forma que “o mundo” aqui deve significar o mundo de descrentes em contraste com os crentes que amam a Cristo. “De maneira nenhuma! Doutro modo, como julgará Deus o mundo?”. Aqui é outra passagem onde “o mundo” não pode significar “você, eu, e cada pessoa”, porque os crentes não serão “julgados” por Deus, ver João 5:24. De forma que aqui, também, deve ser o mundo de descrentes que está em vista.
"Kosmos" é usado para definir os Gentios em contraste com os Judeus: Romanos 11:12, etc. “E, se a sua (Israel) queda é a riqueza do mundo, e a sua (Israel) diminuição, a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude (de Israel)!”. Note como a primeira cláusula em negrito é definida pela última cláusula colocada em negrito. Aqui, novamente, “o mundo” não pode significar toda a humanidade porque ele exclui Israel!
"Kosmos" é usado para definir somente os crentes: João 1:29; 3:16,17; 6:33; 12:47; 1 Coríntios 4:9; 2 Coríntios 5:19.
Nós deixaremos nossos leitores se voltarem para estas passagens, pedido-lhes notar, cuidadosamente, exatamente o que é dito e relacionado com “o mundo” em cada lugar.
Assim, pode ser visto que "Kosmos" tem pelo menos sete significados diferentes claramente definidos no Novo Testamento. Pode ser perguntado: Deus tem usado então uma palavra assim para confundir e embaraçar aqueles que leem as Escrituras? Nós respondemos: Não! Nem tem Ele escrito Sua Palavra para pessoas preguiçosas que são tão negligentes, ou tão ocupadas com as coisas deste mundo, ou, como Marta, tão ocupadas em “servir”, que não têm tempo e nem coração para “examinar” e “estudar” as Escrituras Sagradas! Poderia ser ainda perguntado: Mas como é que um examinador das Escrituras sabe qual dos significados acima o termo “mundo” tem em alguma determinada passagem? A resposta é: Isto pode ser averiguado por um estudo cuidadoso do contexto, diligentemente notando qual é a relação de “o mundo” em cada passagem, e em total oração consultando outras passagens paralelas àquela que está sendo estudada. O principal assunto de João 3:16 é Cristo como o Dom de Deus. A primeira cláusula nos diz que Deus foi movido a “dar” Seu Filho unigênito, e isto por Seu grande “amor”; a segunda cláusula nos informa para quem Deus “deu” Seu Filho, e é para “todo aquele (ou, melhor, ‘cada um’) que crê”; enquanto a última cláusula faz conhecido porque Deus “deu” Seu Filho (Seu propósito), e isto é para que todo aquele que crê “não pereça mas tenha a vida eterna”. Que “o mundo” em João 3:16 refere-se ao mundo de crentes (os eleitos de Deus), em distinção com “o mundo dos ímpios” (2 Pedro 2:5), é estabelecido, inequivocadamente estabelecido, por uma comparação com outras passagens que falam do “amor” de Deus. ”Mas Deus prova o seu amor para CONOSCO” – os santos, Romanos 5:8. ”Porque o Senhor corrige o que ama” – todo filho, Hebreus 12:6. “Nós o amamos porque ele NOS amou primeiro” – os crentes, 1 João 4:19. Do ímpio Deus tem “piedade” (ver Mateus 18:33). Para os ingratos e maus Ele é “bom” (ver Lucas 6:35). Os vasos de ira Deus suporta “com muita paciência” (ver Romanos 9:22). Mas “os Seus”, Deus “ama”!
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Nota do tradutor: O presente artigo é um dos apêndices (o terceiro) do excelente livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink. Este livro foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”. Contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação” e nenhum dos quatro apêndices, os quais podem ambos ser lidos aqui no site Monergismo.com.
Autor: Arthur W. Pink
Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Monergismo
Muitas pessoas supõem que elas já conhecem o simples significado de João 3:16 e, portanto, concluem que nenhum estudo diligente é requerido delas para descobrir o ensino preciso deste verso. É desnecessário dizer, que tal atitude impede a entrada de qualquer luz adicional que de outra forma eles poderiam obter sobre a passagem. Além disso, se alguém pegar uma Concordância e ler cuidadosamente as várias passagens nas quais o termo “mundo” (como uma tradução de “kosmos”) ocorre, ela rapidamente perceberá que para se averiguar o preciso significado da palavra “mundo” em qualquer passagem, não será nem um pouco fácil como é popularmente suposto. A palavra “kosmos”, e seu equivalente em português “mundo”, não é usada com um significado uniforme no Novo Testamento. Extremamente longe disso. Ela é usada em um número de formas absolutamente diferentes. Abaixo nos referiremos a algumas poucas passagens onde este termo ocorre, sugerindo uma tentativa de definição em cada caso:
"Kosmos" é usado para definir o Universo como um todo: Atos 17:24 – “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra”.
"Kosmos" é usado para definir a terra: João 13:1; Efésios 1:4, etc., etc.- “Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. “Passar deste mundo” significa, deixar esta terra. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo”, Esta expressão significa, antes da terra ser fundada – compare Jó 38:4, etc.
"Kosmos" é usado para definir o sistema mundial: João 12:31, etc. “Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo” – compare Mateus 4:8 e 1 João 5:19.
"Kosmos" é usado para definir toda a raça humana: Romanos 3:19, etc. – “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”.
"Kosmos" é usado para definir a humanidade menos os crentes: João 15:18, Romanos 3:6. “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim”. Os crentes não “odeiam” a Cristo, de forma que “o mundo” aqui deve significar o mundo de descrentes em contraste com os crentes que amam a Cristo. “De maneira nenhuma! Doutro modo, como julgará Deus o mundo?”. Aqui é outra passagem onde “o mundo” não pode significar “você, eu, e cada pessoa”, porque os crentes não serão “julgados” por Deus, ver João 5:24. De forma que aqui, também, deve ser o mundo de descrentes que está em vista.
"Kosmos" é usado para definir os Gentios em contraste com os Judeus: Romanos 11:12, etc. “E, se a sua (Israel) queda é a riqueza do mundo, e a sua (Israel) diminuição, a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude (de Israel)!”. Note como a primeira cláusula em negrito é definida pela última cláusula colocada em negrito. Aqui, novamente, “o mundo” não pode significar toda a humanidade porque ele exclui Israel!
"Kosmos" é usado para definir somente os crentes: João 1:29; 3:16,17; 6:33; 12:47; 1 Coríntios 4:9; 2 Coríntios 5:19.
Nós deixaremos nossos leitores se voltarem para estas passagens, pedido-lhes notar, cuidadosamente, exatamente o que é dito e relacionado com “o mundo” em cada lugar.
Assim, pode ser visto que "Kosmos" tem pelo menos sete significados diferentes claramente definidos no Novo Testamento. Pode ser perguntado: Deus tem usado então uma palavra assim para confundir e embaraçar aqueles que leem as Escrituras? Nós respondemos: Não! Nem tem Ele escrito Sua Palavra para pessoas preguiçosas que são tão negligentes, ou tão ocupadas com as coisas deste mundo, ou, como Marta, tão ocupadas em “servir”, que não têm tempo e nem coração para “examinar” e “estudar” as Escrituras Sagradas! Poderia ser ainda perguntado: Mas como é que um examinador das Escrituras sabe qual dos significados acima o termo “mundo” tem em alguma determinada passagem? A resposta é: Isto pode ser averiguado por um estudo cuidadoso do contexto, diligentemente notando qual é a relação de “o mundo” em cada passagem, e em total oração consultando outras passagens paralelas àquela que está sendo estudada. O principal assunto de João 3:16 é Cristo como o Dom de Deus. A primeira cláusula nos diz que Deus foi movido a “dar” Seu Filho unigênito, e isto por Seu grande “amor”; a segunda cláusula nos informa para quem Deus “deu” Seu Filho, e é para “todo aquele (ou, melhor, ‘cada um’) que crê”; enquanto a última cláusula faz conhecido porque Deus “deu” Seu Filho (Seu propósito), e isto é para que todo aquele que crê “não pereça mas tenha a vida eterna”. Que “o mundo” em João 3:16 refere-se ao mundo de crentes (os eleitos de Deus), em distinção com “o mundo dos ímpios” (2 Pedro 2:5), é estabelecido, inequivocadamente estabelecido, por uma comparação com outras passagens que falam do “amor” de Deus. ”Mas Deus prova o seu amor para CONOSCO” – os santos, Romanos 5:8. ”Porque o Senhor corrige o que ama” – todo filho, Hebreus 12:6. “Nós o amamos porque ele NOS amou primeiro” – os crentes, 1 João 4:19. Do ímpio Deus tem “piedade” (ver Mateus 18:33). Para os ingratos e maus Ele é “bom” (ver Lucas 6:35). Os vasos de ira Deus suporta “com muita paciência” (ver Romanos 9:22). Mas “os Seus”, Deus “ama”!
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Nota do tradutor: O presente artigo é um dos apêndices (o terceiro) do excelente livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink. Este livro foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”. Contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação” e nenhum dos quatro apêndices, os quais podem ambos ser lidos aqui no site Monergismo.com.
Autor: Arthur W. Pink
Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Monergismo
"Se Deus pré destinasse as ações humanas não seriam necessárias exortações, e a Bíblia está repleta delas!".
Essa é uma afirmação que ouço frequentemente de quem não gosta da doutrina dos decretos segundo o pensamento reformado, de quem não a entende ou de quem simplesmente se incomoda com a existência de um Deus que interage com sua criação dirigindo-a segundo o seu propósito ao invés de deixá-la movimentar-se ao impulso da contingência.
Muitos dos que afirmam frases como essa também não gostam de pensar em um Deus deste tipo pois este modus operandi faria dele um Deus "controlador", transgressor do arbítrio humano, e isso é inconcebível para muitos. Um Deus que rege sua criação DETERMINANDO o curso de cada uma das partes dela e, inclusive, as vontades de suas criaturas inteligentes, pode assemelhar-se a um "deus violador" (me desculpem a força do termo, mas estou amenizando o peso da analogia que já ouvi) e o resultado de tal ação imanente pode igualar-se ao que os filósofos chamam de fatalismo.
A doutrina dos decretos de Deus afirma, em poucas palavras, que Deus decretou todas as coisas, inclusive o mal, desde a eternidade; não somente os acontecimentos finais que se conformem à Sua vontade última, mas cada meio e processo pelos quais o Senhor atua em sua criação, conduzindo-a segundo seu propósito soberano. Os decretos são imutáveis pois erguem-se a partir de um Deus imutável, e compõem, em última análise, um só decreto eterno que engloba todas as coisas. Deus diz em Isaías: "... Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará" (Is 14.24) e Paulo afirma que Deus "faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Textos bíblicos como estes, entre tantos outros por toda a Escritura, apontam e elucidam a doutrina pela qual afirmamos a absoluta soberania de Deus e seu absoluto controle sobre sua criação.
Diante disso, confesso minha dificuldade em entender o repúdio dos referidos inquiridores pelo ensino de que a soberania de Deus atinge completamente a todas as coisas. Não pode haver outra forma plausível por meio da qual Deus se relacione com sua criação senão através de uma direção positiva, deliberada, poderosa, teleológica (que visa a propósitos pré-definidos) e soberanamente controladora; sim, controladora. Porém, tentarei elencar algumas objeções trazidas à doutrina bíblica de que Deus decreta não somente o curso da história como opera nas vontades de suas criaturas racionais, persuadindo-as segundo o beneplácito de sua soberana vontade.
Uma das objeções, como antecipamos, é a de que uma influência absolutamente controladora como esta que defendemos resultaria em um "fatalismo teísta". Mas isso é totalmente falso e facilmente refutado. Na doutrina filosófica do fatalismo, o que determina o curso da história é o acaso ou uma certa "inteligência" cega e impessoal. Na doutrina bíblica, Deus, um Ser pessoal, poderoso, amoroso e inteligente é quem determina os rumos da história de acordo com seus propósitos (Sl 33.9; Jó 23.13,14). No fatalismo, somente os fins são considerados. Na doutrina bíblica, Deus não somente decreta os fins, mas os meios pelos quais os Seus fins são levados à cabo (Ef 1.11) - isso será muito importante logo adiante. Dessa forma, a doutrina dos decretos em nada se assemelha a uma interpretação fatalista sobre a influência de Deus na história. Afirmar o contrário é blasfêmia.
Outra objeção comum que se faz à doutrina reformada dos decretos é que o substrato de suas proposições é incoerente com o livre-arbítrio do homem e faz de Deus o autor do pecado. Com efeito, essa objeção também pode ser refutada. Em primeiro lugar, a Bíblia não afirma que o homem possui livre-arbítrio. Pelo contrário, a Sagrada Escritura mostra claramente o homem como escravo de suas paixões pecaminosas (Ef 2.1-3; Rm 7.14-21). Em segundo, se procurássemos compreender a extensão plena dos decretos divinos em fusão à livre-agência dos homens (qualidade intelectual de o homem tomar decisões, sempre dentro das capacidades e limitações de sua natureza), arrogaríamos nada além de frustração para nós mesmos. Nosso intelecto é finito e imperfeito, e sofre com os efeitos noéticos do pecado. Portanto, não podemos enquadrar a ação divina concebendo-a ou descrevendo-a segundo nossa limitada percepção, mas devemos nos submeter ao que o Senhor nos revela em sua Palavra, e Ele nos mostra que, ao mesmo tempo em que opera nas vontades de suas criaturas racionais (Êx 7.3; Is 6.9,10; At 2.23; 4.28; Rm 9.18), a elas é atribuída a responsabilidade por seus atos, precisamente pelo fato de serem racionais! Lucas, em Atos 2.23 diz que Jesus morreu pelo desígnio eterno de Deus embora a culpa pelo assassinato de Jesus tenha sido atribuída aos judeus (At 3.15), e Tiago 1.13 diz que Deus não tenta ninguém. Em suma, a doutrina dos decretos divinos não interfere no suposto livre-arbítrio humano simplesmente porque este livre-arbítrio não existe; e tal doutrina não torna Deus o autor do pecado porque o mal é operado por agentes morais, racionais e que têm diante de si um amplo testemunho da existência de Deus pelo qual eles são indesculpáveis (Rm 1.20). Se não conseguimos entender de que maneira Deus pode ter decretado todas as coisas e, ao mesmo tempo, não poder ser culpado pelo pecado, devemos calar-nos diante da Escritura e não sucumbir ao desejo de reduzir seu ensinamento às categorias de nosso entendimento.
Há ainda outra objeção à doutrina dos decretos conforme a Bíblia a expõe, e é precisamente aquela que abre a discussão deste artigo: "Se Deus decretasse de antemão todas as ações dos homens, não seriam necessárias as incontáveis passagens bíblicas que nos exortam a tomar esta ou aquela medida, esta ou aquela decisão ou escolher entre este ou aquele caminho". Ora, mais uma vez a própria Escritura responde a esta objeção. Quanto às exortações divinas gerais, dirigidas a todos os homens (eleitos e não-eleitos), Deus aponta sua vontade simplesmente porque lhe é servido (I) reivindicar seus direitos reais e soberanos sobre o pecador, (II) revelar seus atributos e propósitos de uma forma mais específica, translúcida, clara e persuasiva, (III) chamar pecadores ao arrependimento e à fé e (IV) acentuar sua justiça e a condenação dos que, tendo ouvido a pregação da Palavra, rejeitarem o chamado à salvação, ficando ainda mais expostos à ira escatológica de Nosso Senhor.
Contudo, a Palavra de Deus desempenha um papel especial no coração dos regenerados. Ela é instrumento de seu Santo Espírito na santificação, consolo, encorajamento e direcionamento do povo da aliança. Paulo, aos Tessalonicenses, afirma que a Palavra de Deus atua eficazmente nos que creem (1Ts 2.13). Pedro mostra enfaticamente a instrumentalidade da Palavra na transformação do caráter dos crentes (2Pe 1.4). Hebreus nos prova que a Palavra é a única luz objetiva mediante a qual uma pessoa, pela atuação poderosa do Espírito, discerne a si mesma e os fatos de sua existência. Finalmente, Efésios 6.17 diz que a Palavra de Deus é o instrumento pelo qual o Espírito atua em nós. Assim, vemos que não há incongruência alguma entre a realidade dos decretos soberanos e exaustivos de Deus e a existência de constantes apelos e exortações em Sua Palavra. Conforme sublinhamos, Deus decreta não somente os fins, mas os meios pelos quais seus fins são cumpridos. Destarte, podemos afirmar com certeza: Deus decreta todas as coisas e, simultaneamente, nos convoca a obedecê-lo, sendo a própria convocação do Senhor, como Palavra de Sua boca, um instrumento pelo qual Ele opera em nós o querer e o efetuar, segundo sua boa vontade (Fp 2.13). As constantes exortações do Senhor ao seu povo não se antagonizam ao fato de que Ele decretou todas as coisas. São, na verdade, a ferramenta por meio da qual Deus cumpre o seu decreto eterno.
A doutrina dos decretos de Deus, conforme a Bíblia nô-la apresenta, é tremendamente gloriosa e ultrapassa a capacidade humana de perscrutá-la ou sintetizá-la para que se adeque às suas categorias. A postura legitimamente cristã diante desta doutrina deve ser a de afirmar o que diz a Bíblia, ainda que a compreensão acerca dela se mostre limitada e insatisfeita. Como o apóstolo Paulo, digamos apenas: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33).
A perícope de Mateus 12.1-8 é uma entre tantas do Novo Testamento que apontam para duas verdades incontestes sobre Deus e sobre o relacionamento com o Senhor: a verdade de que uma espiritualidade autêntica é qualificada pelo amor a Deus (que se estende ao amor à Sua lei e à verdade) e ao próximo, e a de que o cumprimento exterior de regras religiosas pode aparentar piedade aos olhos do homem, mas o mero cumprimento dessas regras, sem o motriz de uma natureza regenerada, afasta a pessoa de Deus e a coloca em estado de condenação (Cl 3.16).
Na referida passagem os fariseus, grupo judaico que compunha a "nata" religiosa na Palestina do primeiro século (que já era religiosa o bastante), vendo os discípulos de Jesus colherem espigas no sábado a fim de matarem sua fome, os acusaram de transgredir o quarto mandamento (o da guarda desse dia da semana). Jesus, em defesa de seus discípulos, argumentou sobre dois fatos históricos que traziam, em si, poderosas lições.
Primeiramente, Jesus lembrou os fariseus de que Davi, em certa ocasião, comeu, juntamente com seus companheiros, os pães da proposição, que deveriam ser comidos exclusivamente pelos sacerdotes do templo, segundo a lei. Este fato está registado em 1Sm 21.1-6.
Depois, Jesus lembrou seus interlocutores ávidos por sangue de que, a despeito do quarto mandamento mosaico, os sacerdotes que trabalhavam no sábado em seus ofícios não deveriam ser considerados infratores.
A lição que subjaz a essa argumentação de Jesus com os fariseus não é outra senão a de que Ele, o Cristo, como autor da lei e conteúdo metafísico dela, é o único que tem autoridade, poder e direito de estipular o significado de seus mandamentos, bem como de estabelecer suas corretas aplicações. Afinal, Deus é o autor da lei, não o homem. Deus a fez (ou melhor, a codificou) e outorgou-a à criatura, e não a criatura que gerou uma lei e a apresentou ao Criador. A declaração de Jesus no verso 8 resume tudo: "Porque o Filho do Homem é Senhor do sábado".
Desse modo, os fariseus da perícope em questão cometeram 2 erros graves:
1. Determinaram, com suas próprias regras e protocolos legais, o que era certo e o que era errado (v. 2) e, com isso, criaram uma religião à parte da religião verdadeira. É óbvio que, ao fazerem isso, os fariseus condenaram a si mesmos, pois rejeitaram a providência promovida por Deus para o contato e amizade consigo.
2. Expuseram o fato de que sua religiosidade era exterior, efêmera, superficial, legalista e falsa, pois Jesus aplicou a eles o que Deus tinha dito ao seu povo em Os 6.6, uma vez que aparentavam piedade mediante o cumprimento exterior de - alguns - mandamentos da Lei, mas não haviam sido regenerados de modo que o cumprimento dessas ordenanças fosse um eco, uma consequência de seu amor a Deus e ao próximo. Para todos os efeitos, os fariseus amavam mais a si mesmos do que a Deus, ao estipularem a própria religião (com mandamentos forjados) e ao rejeitarem ao Senhor.
Bottom line, Jesus, ao dizer que é Senhor do sábado (v. 8), mostra-se como verdadeiro Deus, o mesmo Deus que outorgou a Lei da qual o sábado é apenas uma parte; e prova que, como verdadeiro Deus, Ele é quem tem o poder e o direito de estipular o significado de seus mandamentos e estabelecer suas corretas aplicações (em contraste aos fariseus, que modificavam a Lei de Deus criando novos mandametos e aplicações diferentes para mandamentos existentes).
Portanto, Mateus 12.1-8, de fato, é translúcida ao evidenciar importantes verdades escriturísticas. Já escrevi sobre o tema em artigo anterior, assim, não há nenhuma novidade nesta lição. Porém, somos chamados a refletir constantemente nas velhas verdades do evangelho, razão pela qual insisto nos pontos cardeais de que (I) o homem, para cumprir a Lei de Deus - ainda que de modo imperfeito e incompleto - precisa ser regenerado. A ordo salutis reformada é, por essa causa, enfática na assertiva de que a regeneração antecede qualquer movimento do Espírito na obra subjetiva da salvação. E (II) a verdadeira espiritualidade, caracterizada e, mais ainda, produzida pela operação regenerativa do Espírito Santo, não se estaca no cumprimento de regras. Antes, se estende no amor a Deus e ao próximo.
Amemos, pois, a Deus, ao próximo, e cuidemos para que nenhuma regra seja criada ou reinterpretada por nós com função reconciliadora. Sobretudo, lembremo-nos de que o cumprimento exterior de regras ou ordenanças não opera a salvação; a piedade externa mantém-se dessa forma: externa. Por fim, mantenhamos em perspectiva a realidade do amor relativo ao evangelho. Sua relevância é eterna.
Na referida passagem os fariseus, grupo judaico que compunha a "nata" religiosa na Palestina do primeiro século (que já era religiosa o bastante), vendo os discípulos de Jesus colherem espigas no sábado a fim de matarem sua fome, os acusaram de transgredir o quarto mandamento (o da guarda desse dia da semana). Jesus, em defesa de seus discípulos, argumentou sobre dois fatos históricos que traziam, em si, poderosas lições.
Primeiramente, Jesus lembrou os fariseus de que Davi, em certa ocasião, comeu, juntamente com seus companheiros, os pães da proposição, que deveriam ser comidos exclusivamente pelos sacerdotes do templo, segundo a lei. Este fato está registado em 1Sm 21.1-6.
Depois, Jesus lembrou seus interlocutores ávidos por sangue de que, a despeito do quarto mandamento mosaico, os sacerdotes que trabalhavam no sábado em seus ofícios não deveriam ser considerados infratores.
A lição que subjaz a essa argumentação de Jesus com os fariseus não é outra senão a de que Ele, o Cristo, como autor da lei e conteúdo metafísico dela, é o único que tem autoridade, poder e direito de estipular o significado de seus mandamentos, bem como de estabelecer suas corretas aplicações. Afinal, Deus é o autor da lei, não o homem. Deus a fez (ou melhor, a codificou) e outorgou-a à criatura, e não a criatura que gerou uma lei e a apresentou ao Criador. A declaração de Jesus no verso 8 resume tudo: "Porque o Filho do Homem é Senhor do sábado".
Desse modo, os fariseus da perícope em questão cometeram 2 erros graves:
1. Determinaram, com suas próprias regras e protocolos legais, o que era certo e o que era errado (v. 2) e, com isso, criaram uma religião à parte da religião verdadeira. É óbvio que, ao fazerem isso, os fariseus condenaram a si mesmos, pois rejeitaram a providência promovida por Deus para o contato e amizade consigo.
2. Expuseram o fato de que sua religiosidade era exterior, efêmera, superficial, legalista e falsa, pois Jesus aplicou a eles o que Deus tinha dito ao seu povo em Os 6.6, uma vez que aparentavam piedade mediante o cumprimento exterior de - alguns - mandamentos da Lei, mas não haviam sido regenerados de modo que o cumprimento dessas ordenanças fosse um eco, uma consequência de seu amor a Deus e ao próximo. Para todos os efeitos, os fariseus amavam mais a si mesmos do que a Deus, ao estipularem a própria religião (com mandamentos forjados) e ao rejeitarem ao Senhor.
Bottom line, Jesus, ao dizer que é Senhor do sábado (v. 8), mostra-se como verdadeiro Deus, o mesmo Deus que outorgou a Lei da qual o sábado é apenas uma parte; e prova que, como verdadeiro Deus, Ele é quem tem o poder e o direito de estipular o significado de seus mandamentos e estabelecer suas corretas aplicações (em contraste aos fariseus, que modificavam a Lei de Deus criando novos mandametos e aplicações diferentes para mandamentos existentes).
Portanto, Mateus 12.1-8, de fato, é translúcida ao evidenciar importantes verdades escriturísticas. Já escrevi sobre o tema em artigo anterior, assim, não há nenhuma novidade nesta lição. Porém, somos chamados a refletir constantemente nas velhas verdades do evangelho, razão pela qual insisto nos pontos cardeais de que (I) o homem, para cumprir a Lei de Deus - ainda que de modo imperfeito e incompleto - precisa ser regenerado. A ordo salutis reformada é, por essa causa, enfática na assertiva de que a regeneração antecede qualquer movimento do Espírito na obra subjetiva da salvação. E (II) a verdadeira espiritualidade, caracterizada e, mais ainda, produzida pela operação regenerativa do Espírito Santo, não se estaca no cumprimento de regras. Antes, se estende no amor a Deus e ao próximo.
Amemos, pois, a Deus, ao próximo, e cuidemos para que nenhuma regra seja criada ou reinterpretada por nós com função reconciliadora. Sobretudo, lembremo-nos de que o cumprimento exterior de regras ou ordenanças não opera a salvação; a piedade externa mantém-se dessa forma: externa. Por fim, mantenhamos em perspectiva a realidade do amor relativo ao evangelho. Sua relevância é eterna.
Algumas pessoas pensam que a ação de Deus sobre o homem visa unicamente a sua salvação. Eles entendem que se o Espírito Santo, como Agente que aplica os méritos de Cristo ao pecador, opera em alguém, essa operação equivale sempre a um apelo no sentido de constranger o pecador ao evangelho de Cristo. Obviamente, essas mesmas pessoas compreendem a salvação como uma oferta direcionada ao homem, mas que pode ser rejeitada pela vontade do mesmo.
Renunciando qualquer pretensão de um comentário exaustivo, vejamos o texto de João 16.8-11 que acredito endereçar esse tema, ainda que mui discretamente. O texto diz:
"Quando ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.". (RAStr).
Neste texto, Jesus diz aos seus discípulos que ele precisa voltar à sua glória celeste, à destra do Pai, para enviar o Espírito Santo ao mundo; e isso de uma forma sem precendente. Antes do pentecostes de Atos 2, a atuação do Espírito sobre as pessoas se limitava a operações pontuais que visavam a determinados fins, de modo que, nos termos veterotestamentários, não era possível sequer mencionar uma habitação do Espírito nas pessoas. Além disso, com algumas exceções segundo o desígnio de Deus, o Espírito, ao atuar soteriologicamente nas pessoas, restringia seu trabalho à comunidade de Israel. Dessa forma, o pentecostes de Atos 2, como cumprimento da profecia de Joel 2.28, se caracterizou como um evento divisor de águas na economia da redenção: a partir daquele ponto (At 2), o Espírito não apenas capacitaria o homem para determinada tarefa e se retiraria depois ("...derramarei o meu Espírito..."), mas também seria outorgado às pessoas de todas as nações ("...sobre toda a carne..."). Trata-se, portanto, de um derramamento inédito na história da humanidade, e qualificado por um modus operandi igualmente inovador.
E o que isso tem a ver com o texto de João 16.8-11?
Primeiramente, as palavras de Jesus sobre a "vinda do Espírito" se referem justamente ao derramamento de Atos 2, ocasião em que o Espírito de Deus - o mesmo que pairava sobre a face das águas nos primórdios da criação (Gn 1.2), e o mesmo que enchia ocasionalmente os líderes de Israel para capacitá-los e direcioná-los (2Cr 24.20) - , se relacionaria com a humanidade de uma outra forma, qualitativa e quantitativamente superior em comparação à atuações antigas.
Em segundo, o Espírito Santo viria convencer as pessoas de algumas coisas, e neste ponto, certas dificuldades começam a surgir. A primeira delas com relação ao significado da obra de convencimento; e a segunda, com o objeto e extensão dessa obra.
(I) No que consiste o "convencimento"?
A palavra grega traduzida por "...convencerá..." (elégcho) denota muito menos uma apresentação superficial do que uma coerção na esfera cognitiva do homem. Seu sentido é o de "trazer à luz, expôr mediante evidências condenatórias". Com efeito, a nota de tradução da NVI sobre este verso apresenta uma versão mais bem-sucedida: "[Quando ele vier] exporá ao mundo...". Assim, sabemos que o Espírito, em sua atuação pós-pentecostes, iria, entre outras inúmeras operações peculiares, expôr ao mundo seu pecado, a verdadeira justiça de Cristo e a realidade do juízo vindouro, convencendo as pessoas acerca dessas realidades.
A palavra grega traduzida por "...convencerá..." (elégcho) denota muito menos uma apresentação superficial do que uma coerção na esfera cognitiva do homem. Seu sentido é o de "trazer à luz, expôr mediante evidências condenatórias". Com efeito, a nota de tradução da NVI sobre este verso apresenta uma versão mais bem-sucedida: "[Quando ele vier] exporá ao mundo...". Assim, sabemos que o Espírito, em sua atuação pós-pentecostes, iria, entre outras inúmeras operações peculiares, expôr ao mundo seu pecado, a verdadeira justiça de Cristo e a realidade do juízo vindouro, convencendo as pessoas acerca dessas realidades.
(II) Qual o objeto da operação de convencimento do Espírito?
O texto de João 16.8 diz: "...o mundo...". E quem ou o quê é este "mundo"? Bem, no vocabulário joanino, "mundo" nunca significa "todas as pessoas da face da Terra". Disso dá-nos pleno testemunho os textos de Jo 1.29; 3.16; 6.33; etc. Portanto, o convencimento do Espírito não visa ao impacto de cada ser humano; vemos não se tratar de um tipo de convicção geral, como o fornecido pelo testemunho da Revelação Geral (Sl 8), pois esse testemunho atinge todas as pessoas. O convencimento de João 16.8, dada sua natureza específica e detalhada, e dado o resultado de tal exposição condenatória, não nos dá ensejo para atribuir universalidade sobre tal operação.
O texto de João 16.8 diz: "...o mundo...". E quem ou o quê é este "mundo"? Bem, no vocabulário joanino, "mundo" nunca significa "todas as pessoas da face da Terra". Disso dá-nos pleno testemunho os textos de Jo 1.29; 3.16; 6.33; etc. Portanto, o convencimento do Espírito não visa ao impacto de cada ser humano; vemos não se tratar de um tipo de convicção geral, como o fornecido pelo testemunho da Revelação Geral (Sl 8), pois esse testemunho atinge todas as pessoas. O convencimento de João 16.8, dada sua natureza específica e detalhada, e dado o resultado de tal exposição condenatória, não nos dá ensejo para atribuir universalidade sobre tal operação.
Outrossim, o termo não se refere somente aos eleitos, como alguns imaginam. Embora o Mestre, no verso anterior, tenha dito que enviaria o Consolador para seus discípulos, a linguagem no versículo 8 apresenta uma mudança de tonalidade que não nos permite cercear a operação de convencimento de forma estrita aos eleitos. Mesmo assim, é evidente que os eleitos em Cristo foram convencidos pelo Espírito acerca dessas coisas.
A resposta, desse modo, sobre o objeto ou extensão do convencimento do Espírito é que Ele convencerá necessariamente todos os eleitos (isso é lógico, pois todos os salvos verdadeiramente devem estar convictos do pecado, da justiça e do juízo), mas se estende também a algumas pessoas não-eleitas e no caso destas, por não serem eleitas, tal convencimento não redundará em conversão. O texto é propositalmente seletivo nesse sentido. Ele jamais fala em conversão, senão em "convencimento". Em resumo, o Espírito convence todos os eleitos e algumas pessoas não-eleitas, operação em virtude da qual os não-salvos sofrerão condenação ainda maior.
Enfim, é precisamente neste ponto que começamos a responder às confusões levantadas no início deste estudo, as de que Deus, em termos soteriológicos, somente opera favoravelmente às pessoas, indistintamente, "oferecendo" a todos o benefício expiatório da obra de Cristo.
Portanto, vimos que o Espírito convence algumas pessoas de modo preciso e enfático sobre o pecado, a justiça e o juízo, mas não as converte. Isso é plenamente explicável pela natureza da obra de conversão, segundo no-la apresenta a Escritura. A Bíblia nunca trata a conversão do pecador em termos meramente cognitivos. Em outras palavras, a conversão afeta todas as faculdades do homem: seu intelecto, sua afetividade e sua volição. A obra de convencimento, por sua vez, endereça somente as faculdades mentais do homem, de modo que ele ENTENDA o apelo do evangelho, mas não se disponha favoravelmente a ele, visto que sua vontade e afetividade não foram alvo da operação graciosa do Espírito de Deus.
Ademais, a Bíblia diz claramente que não só Deus é soberano tanto para salvar pecadores quanto para condená-los quanto assevera que, frequentemente, Deus opera nos corações dos pecadores para que NÃO se convetam! Sim; e quanto a isso, nada podemos fazer a não ser nos redenrmos à realidade e ao trovão da soberania Divina. Mesmo diante do contexto canônico total pelo qual inferimos tais atributos de Deus, o texto de 2Co 2.14-16 nos fala especial e explícito sobre o assunto:
"Mas graças a Deus, que sempre nos conduz vitoriosamente em Cristo e por nosso intermédio exala em todo lugar a fragrância do seu conhecimento [os que conhecem a Cristo e Nele andam, são, em si mesmos, testemunhos vivos do evangelho]; porque para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo [este testemunho, promovido positivamente pela proclamação da Palavra e "automaticamente" pela união mística com Cristo, é geral]. Para estes somos cheiro de morte; para aqueles, fragrância de vida [tal testemunho vivo e orgânico produzido por e através dos salvos afeta os regenerados com paz e alegria em virtude da confirmação do evangelho em suas vidas, porém, afeta negativamente os que se mantém rebeldes a Cristo uma vez que o testemunho do evangelho, para estes, só confirma sua rebeldia, estado de pobreza espiritual, disposição hostil ao Senhor, confirma sua miserável angústia e aponta para sua futura condenação]".
Assim, vemos que Deus não somente utiliza sua Palavra para salvar, mas a emprega também para condenar pecadores. Considerando o princípio hermenêutico do tota Scriptura, verificamos que o ministério de convencimento do Espírito, na mesma medida em que age nos eleitos pela instrumentalidade da Palavra, age nos réprobos através da mesma Palavra. Em suma, isso significa que alguns não-eleitos, ao receberem o influxo clarificante do Espírito pelo instrumento da Revelação Especial de Deus, tornam-se objetos de profunda ira Divina e, justamente por seu grau de iluminação ampliado pela operação do Espírito, recebem condenação maior. E isso resume, amplia e lança luz às palavras de Jesus em João 16.8-11: o Espírito do Senhor convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.". Convencerá...
Sabemos que muitos irmãos se escandalizam com ensinos como esse e se indignam com o fato de que Deus escolhe pessoas para salvar, assim como endurece os que quer endurecer, como fez com o faraó em Êx 9.2. Estamos também cientes de que uma visão antropocêntrica das verdades espirituais tende a negar a soberania de Deus em sua disposição salvadora. Nós, contudo, não nos inclinaremos ao erro de julgar ou discernir os propósitos de Deus e seus juízos (Rm 11.33), mas, humildemente, aceitaremos a porção da Escritura que diz: "Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer." (Rm 9.18).
Soli Deo Gloria!


