Dias atrás sofri um ataque relativamente inóquo, até bem-intencionado, eu diria. Mais uma vez alguém me acusou de ser arrogante.
Não foi a primeira nem a segunda vez que recebo esse tipo de acusação e creio que ela pode gerar uma reflexão oportuna e produtiva. Para isso, teremos que recrutar um pouco de conhecimento histórico.
Vivemos na pós-modernidade. A pós-modernidade é um recorte bastante peculiar. É um período caracterizado por (I) uma forte ação antiintelectual, (II) elevação das emoções e sensações à estatura de fontes de conhecimento, (III) aversão à qualquer reivindicação de absolutos, (III) visão pluralista e relativista, (IV) busca por um discurso unificado em prol do "amor".
Nos tempos pós-modernos, portanto, alguém que se expressa com a convicção de uma verdade absoluta é visto, no mínimo, como um ponto fora da curva e, via de regra, como uma ameaça a ser sufocada - à força, se necessário.
Pois bem. Até aqui nada de novo. O que É realmente espantoso e provavelmente "breaking news" para muita gente é o fato de que a potestade pós-modernista infiltrou-se na igreja de modo que o pensamento de muitos, Muitos, MUITOS cristãos é moldado não pelas Escrituras, mas pelos pressupostos da pós-modernidade.
Uma quantidade alarmante de cristãos hodiernos deixou de fixar as bases de seu pensamento no princípio gerador da cosmovisão cristã e passou, quase inconscientemente, a adotar o repertório de asserções do pós-modernismo. Eles passaram a articular certo relativismo em seu discurso; passaram a valorizar muito mais as emoções do que regras conceituais imutáveis; passaram a comprar a sensação pacificadora do pluralismo a fim de estabelecer um "melhor diálogo" com as diferentes perspectivas; e, fatalmente, foram marionetados pelo espírito antiintelectual de nossa era.
Com efeito, umas das consequências mais notórias dessa anomalia religiosa-filosófica é o repúdio de muitos crentes à reivindicações seguras e convictas a respeito de qualquer assunto. Eles podem não saber disso, como de fato não sabem, mas, em face da erosão intelectual que sofreram, confundem assertividade com arrogância. E confundem as duas coisas com uma facilidade assustadora.
Ademais, una à assertividade uma disposição combativa e firme na apologética, disposição que todos os cristãos são chamados a cultivar, e voilà: cria-se um espantalho a ser chamado de "arrogante", "bronco", "mal-humorado" e etc. - não coincidentemente, todos os predicados que esquerdistas atribuem aos verdadeiros conservadores.
Agora, deixe-me dizer algo aqui. Eu não estou afirmando que sou isento do pecado da arrogância e não estou reivindicando imunidade. Talvez essa realmente seja uma deficiência sobre a qual o Espírito Santo há de trabalhar em mim. Mas o que eu ESTOU dizendo é que os motivos pelos quais sou chamado de arrogante não apontam para essa debilidade de caráter, antes, apontam para uma assertividade de tal modo contundente que as mentes frágeis e infantes desses crentes pós-modernos são constrangidas e machucadas.
O que ESTOU dizendo é que, nesses tempos em que vivemos, convicção de verdade unida a uma disposição combativa causam nos fracos cristãos um alerta em seus ridículos sensos de piedade.
O filósofo cristão Vincent Cheung capturou como poucos essa confusão na piedade cristã popular e antibíblica. Em uma de suas obras ele disse:
"Eu pareço arrogante a você? Essa é uma resposta tipicamente americana, mas não necessariamente cristã. Você ainda não entende, não é? Eu tenho confiança na palavra de Deus, e é porque eu dependo dela que nunca poderei ser derrotado. Porque a sabedoria de Deus é tão vastamente superior à sabedoria do homem, eu irei sempre vencer qualquer debate com uma facilidade quase desestimulante. É essa confiança que eu desejo transmitir a cada cristão".
Você vê? Assertividade e postura beligerante são confundidas, hoje, com arrogância. E, tristemente, assertividade e uma postura beligerante são disposições espirituais desejáveis para o crente, segundo a Bíblia. Isso mostra, então, que o cristão pós-moderno, amigo da antiintelectualidade, é inimigo da verdade e da Escritura. Enquanto ele imagina promover a paz e a harmonia com seus escrúpulos pós-modernos, nega as armas espirituais que Deus forneceu à sua igreja para o crescimento do Reino.
Que tempos!
Neste ponto, vale interiorizarmos a exortação de Paulo e nela nos agarrarmos com unhas e dentes:
"E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rom 12:2).
Apologética, no cristianismo, é aquela disciplina da Teologia/Filosofia que estuda como deve ser o desenvolvimento de uma argumentação em favor da fé cristã. E a apologética evidencialista é o braço desta disciplina que busca evidências da existência de Deus na natureza e no homem na ordem de estruturar uma apologia contra o interlocutor descrente.
A mera existência da disciplina "apologética cristã" é questionável por razões que não cabem neste artigo, mas supondo que exista, de fato, uma apologética, gostaria de apontar duas razões pelas quais ela não deva ser pensada ou articulada nos moldes da evidencialista.
Em primeiro lugar, a apologética evidencialista é ou tende a ser uma apologética idólatra. O método evidencialista busca evidências e argumentos filosóficos, às vezes em diálogo com as ciências naturais (geografia, geologia, etc.), para provar ao público ateu a existência de um deus criador. E aqui reside o problema: o Deus da Escritura não é "um deus", mas sim o Deus de Israel, o Deus cujo nome é YHWH e cuja mais perfeita revelação se deu em Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós. Enquanto a apologética evidencialista procura uma justificativa filosófica para apresentar a necessidade de um deus, o Deus bíblico sempre se apresentou de forma específica e nunca genericamente como "um deus". Na verdade, a Escritura deixa claro que defender a existência de qualquer deus que não seja o verdadeiro e específico Deus, é idolatria (c.f. At 17). "Qualquer deus" não é O Deus, e buscar um motivo intelectual como princípio para justificar brechas em sistemas filosóficos não indica a exaltação do Deus triúno revelado pelas Sagradas Escrituras.
Em suma, não existe razão bíblica para crermos que a simples afirmação de um "deus genérico", um "deus qualquer", que não seja especificamente o Deus triúno revelado em Jesus Cristo, consiste na apresentação e defesa da ideia sobre o verdadeiro Deus. Quando defendemos a ideia de um deus qualquer, cujo pódium pode ser ocupado por qualquer entidade, com qualquer nome, apresentamos ao interlocutor um ídolo, e não o Deus bíblico.
Em segundo lugar, o método evidencialista pressupõe uma epistemologia que parece ignorar a doutrina da depravação total do homem. O ensino bíblico da depravação total mostra que o homem caído, o homem natural ou "carnal" (no linguajar paulino), está não apenas alheio ao Deus verdadeiro, mas O odeia em rebeldia. O homem natural tem todas as suas faculdades maculadas pelo pecado. Sua inteligência, moralidade e arbítrio subsistem em absoluta disfunção, em rebeldia ao Deus que o criou. Assim, a razão do homem caído não é religiosamente neutra, com capacidade para operar livremente abstendo-se de pressupostos ou em latente objetividade. Ao contrário, a razão do homem caído constroi cada um de seus pensamentos com pressupostos ateístas e rebeldes. O homem natural não aceita as coisas do Espírito (1Co 2.14).
Portanto, se o ser humano caído não possui neutralidade racional, as chamadas "evidências" da apologética evidencialista não lhe provarão absolutamente nada. O homem morto em seus pecados (Ef 2.1) não tem capacidade para analisar objetivamente qualquer argumento ou evidência, por mais persuasivos que sejam. Nas operações mentais do homem natural, todas as evidências do mundo serão distorcidas e manipuladas. O homem natural, mesmo tendo a evidência de Deus diante de sua face, substitui a verdade pela mentira (Rm 1.25).
Por essas razões eu não creio que a apologética evidencialista seja um método eficiente de apologética, nem que seja biblicamente respaldado. Os crentes que gostam do método evidencialista de apologética deveriam repensar sua utilização.
"Quanto ao conteúdo da pregação, o exemplo de Paulo em Atos 17 é muito informativo. Em termos filosóficos, ele remete aos tópicos da epistemologia, metafísica, religião, biologia, história e ética. Em termos teológicos, ele remete aos tópicos da revelação, teologia propriamente dita, criação, providência, antropologia, ética, cristologia, soteriologia e escatologia. Dependendo que estivermos empregando nessa descrição, seu relato pode remeter a um sumário básico de filosofia ou teologia sistemáticas [alguns aspectos não são desenvolvidos em detalhes, mas isso poderia ser esperado, tendo em vista as circunstâncias e restrições enfrentadas por Paulo].
Uma vez que a 'estratégia de Paulo é a de acentuar as antíteses entre ele e os filósofos' [Bahnsen, Always Ready; p. 272] e considerando que ele é muito abrangente em seu discurso, segue-se que uma abordagem bíblica para a apologética deve demonstrar a nossa oposição abrangente às crenças pagãs, e a nossa apresentação construtiva deve da mesma forma ser minuciosa, cobrindo todos os principais tópicos. Uma implicação disto é que aqueles que não têm uma compreensão básica daquilo que agora chamamos de teologia sistemática não estão aptos a fazer apologética ou evangelismo de uma forma que seja suficientemente bíblica.
Em conexão ao evangelismo, Jesus instruiu os seus discípulos, 'Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações...ensinando-os a obedecer A TUDO o que eu lhes ordenei' (Mt 28.19-20). Ensiná-los a cerca de tudo? A maioria dos cristãos de hoje dificilmente sabe qualquer coisa sobre as doutrinas bíblicas e como estão relacionadas entre si. Mas um conhecimento bíblico abrangente é o pré-requisito de um ministério de pregação abrangente, que é o que Jesus exige aqui. Uma vez que a apologética bíblica e o evangelismo requerem um entendimento amplo pelo menos dos pontos básicos da teologia, aqueles que não têm esse conhecimento não podem com procedência alegar estarem verdadeiramente fazendo apologia bíblica e evangelismo".
CHEUNG, Vincent. Confrontações pressuposicionais, p. 83.