Clóvis de Barros, Mário Sérgio Cortela e Leandro Karnal são, hoje, as maiores representações, no nível popular, do que é ou deve ser um filósofo.
Eles estão na grande mídia e ministram cursos em universidades, além de pipocarem ad nauseam nas prateleiras de "filosofia" das livrarias. O mercado editorial os adora porque o grande público, completamente alheio à Filosofia e débil na articulação das mais rudimentares categorias de pensamento, os adora outrossim.
Mas eles não são filósofos. Nem de longe. O sorridente e patético trio de gurus da auto-ajuda não reconheceria um filósofo de verdade nem que este lhes socasse a testa com um grande anel ornado com a palavra filosofia em alto relevo.
Na verdade, eles exemplificam vividamente os predicados raso, estúpido, carente e, de especial modo, farsante.
Uma boa ilustração disso pode ser recrutada com o seguinte trecho de uma entrevista na qual Antônio Abujamra pergunta a Clóvis de Barros, por três vezes, o que é a vida. Clóvis, por duas vezes e vacilante como um estagiário, arrisca respostas diferentes, uma mais desesperada que a outra. Na terceira vez, mal disfarçando a própria incapacidade de responder a contento e emulando, quase involuntariamente, um sorriso de perplexidade, tem o seu silêncio interrompido pelo entrevistador, que encerra ali mesmo o programa.
https://youtu.be/ICjwBRDm2lA
Qualquer cristão responderia, imediata e intuitivamente, o que é a vida. Qualquer cristão! Mesmo os menos estudados. Mas Clóvis de Barros, um dos ícones da "filosofia" mainstream no Brasil, não soube responder, a despeito de seu vasto repertório de slogans genéricos e bregas, típicos dos discursos espiritualistas atuais.
Olavo de Carvalho, com a perspicácia aguda que retém um verdadeiro filósofo, sintetiza bem o caráter do trio. Ele disse em um de seus posts no Facebook:
"Nunca vi o Leandro Espiritual [Karnal], o Clóvis de Burros [de Barros] ou o Mário Sérgio Costeleta [Cortela] discutindo uma só questão filosófica. Só questões de etiqueta. Examinem e verão que é exatamente isso. Nada mais.
Notem bem. A trinca não ataca jamais questões de realidade, apenas profere juízos de valor, e ainda assim sem jamais problematizar os fundamentos racionais e existenciais dos valores escolhidos, mas tomando apenas como critério final e indiscutível, ao qual os três procuram se amoldar da maneira mais simpática e risonha possível, o gosto da platéia e as opiniões predominantes da mídia. Se isso é filosofia, uma galinha d'angola é um leão enfurecido.".
Pois bem. Clóvis de Barros, na referida entrevista, não soube responder o que é a vida. Se ele simplesmente respondesse um "não sei", não deixaria de ser ridículo, mas também mereceria alguma piedade. Talvez até alguma empatia profissional. Contudo, ao invés de reconhecer a própria ignorância, Clóvis buscou preencher o vazio com rascunhos trêmulos e rasos, que poderiam muito bem ter sido retirados de biscoitos da sorte servidos em restaurantes chineses.
Clóvis de Barros, Mário Sérgio Cortela e Leandro Karnal não são filósofos. Eles são, na melhor das hipóteses, palestrantes motivacionais reprodutores do que o mais cafona besteirol Nova Era poderia oferecer.
Dias atrás sofri um ataque relativamente inóquo, até bem-intencionado, eu diria. Mais uma vez alguém me acusou de ser arrogante.
Não foi a primeira nem a segunda vez que recebo esse tipo de acusação e creio que ela pode gerar uma reflexão oportuna e produtiva. Para isso, teremos que recrutar um pouco de conhecimento histórico.
Vivemos na pós-modernidade. A pós-modernidade é um recorte bastante peculiar. É um período caracterizado por (I) uma forte ação antiintelectual, (II) elevação das emoções e sensações à estatura de fontes de conhecimento, (III) aversão à qualquer reivindicação de absolutos, (III) visão pluralista e relativista, (IV) busca por um discurso unificado em prol do "amor".
Nos tempos pós-modernos, portanto, alguém que se expressa com a convicção de uma verdade absoluta é visto, no mínimo, como um ponto fora da curva e, via de regra, como uma ameaça a ser sufocada - à força, se necessário.
Pois bem. Até aqui nada de novo. O que É realmente espantoso e provavelmente "breaking news" para muita gente é o fato de que a potestade pós-modernista infiltrou-se na igreja de modo que o pensamento de muitos, Muitos, MUITOS cristãos é moldado não pelas Escrituras, mas pelos pressupostos da pós-modernidade.
Uma quantidade alarmante de cristãos hodiernos deixou de fixar as bases de seu pensamento no princípio gerador da cosmovisão cristã e passou, quase inconscientemente, a adotar o repertório de asserções do pós-modernismo. Eles passaram a articular certo relativismo em seu discurso; passaram a valorizar muito mais as emoções do que regras conceituais imutáveis; passaram a comprar a sensação pacificadora do pluralismo a fim de estabelecer um "melhor diálogo" com as diferentes perspectivas; e, fatalmente, foram marionetados pelo espírito antiintelectual de nossa era.
Com efeito, umas das consequências mais notórias dessa anomalia religiosa-filosófica é o repúdio de muitos crentes à reivindicações seguras e convictas a respeito de qualquer assunto. Eles podem não saber disso, como de fato não sabem, mas, em face da erosão intelectual que sofreram, confundem assertividade com arrogância. E confundem as duas coisas com uma facilidade assustadora.
Ademais, una à assertividade uma disposição combativa e firme na apologética, disposição que todos os cristãos são chamados a cultivar, e voilà: cria-se um espantalho a ser chamado de "arrogante", "bronco", "mal-humorado" e etc. - não coincidentemente, todos os predicados que esquerdistas atribuem aos verdadeiros conservadores.
Agora, deixe-me dizer algo aqui. Eu não estou afirmando que sou isento do pecado da arrogância e não estou reivindicando imunidade. Talvez essa realmente seja uma deficiência sobre a qual o Espírito Santo há de trabalhar em mim. Mas o que eu ESTOU dizendo é que os motivos pelos quais sou chamado de arrogante não apontam para essa debilidade de caráter, antes, apontam para uma assertividade de tal modo contundente que as mentes frágeis e infantes desses crentes pós-modernos são constrangidas e machucadas.
O que ESTOU dizendo é que, nesses tempos em que vivemos, convicção de verdade unida a uma disposição combativa causam nos fracos cristãos um alerta em seus ridículos sensos de piedade.
O filósofo cristão Vincent Cheung capturou como poucos essa confusão na piedade cristã popular e antibíblica. Em uma de suas obras ele disse:
"Eu pareço arrogante a você? Essa é uma resposta tipicamente americana, mas não necessariamente cristã. Você ainda não entende, não é? Eu tenho confiança na palavra de Deus, e é porque eu dependo dela que nunca poderei ser derrotado. Porque a sabedoria de Deus é tão vastamente superior à sabedoria do homem, eu irei sempre vencer qualquer debate com uma facilidade quase desestimulante. É essa confiança que eu desejo transmitir a cada cristão".
Você vê? Assertividade e postura beligerante são confundidas, hoje, com arrogância. E, tristemente, assertividade e uma postura beligerante são disposições espirituais desejáveis para o crente, segundo a Bíblia. Isso mostra, então, que o cristão pós-moderno, amigo da antiintelectualidade, é inimigo da verdade e da Escritura. Enquanto ele imagina promover a paz e a harmonia com seus escrúpulos pós-modernos, nega as armas espirituais que Deus forneceu à sua igreja para o crescimento do Reino.
Que tempos!
Neste ponto, vale interiorizarmos a exortação de Paulo e nela nos agarrarmos com unhas e dentes:
"E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rom 12:2).
[Trecho de uma das aulas que ministro em meu curso Teologia & Filosofia]
Alguns indícios de que a teologia e a filosofia convergem entre si são cristalinos para aqueles que já tiveram algum contrato com qualquer uma dessas disciplinas. Tanto uma quanto outra dispendem grande esforço de abstração; ambas concentram sua energia no nível teorético do método; ambas, aliás, empregam mecanismos em comum em seus métodos; ambas buscam, como ventilou Aristóteles, as “causas últimas”; e ambas buscam a verdade. Esses são alguns dos vértices imediatos de congruência entre a teologia e a filosofia.
Entretanto, a verdadeira congruência entre ambas as disciplinas solidifica-se em um nível muito mais profundo. A tradição filosófica grega, desde Sócrates, movimenta esforços para encontrar a verdade. A dialética socrática, por exemplo, articulava-se no sentido de extrair a verdade. Perguntas como “O que é a virtude?” e “O que é o bem?”, entreviam o esforço dos filósofos para aquiescer à verdade e à moral absoluta. Mas há algo a ser discernido no meio deste esforço aparentemente honesto: a afirmação de autonomia. Os filósofos da tradição grega buscavam essas respostas à despeito do testemunho interno (Revelação Geral) que tinham acerca de Deus, de sua Lei, de seu senhorio e soberana majestade. O texto de Romanos, no primeiro capítulo, expõe o status moral por trás deste esforço em descobrir a verdade de forma autônoma:
"Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. … E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;" (Rom 1:18-23,28).
E ainda:
"Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os; No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho." (Rom 2:12-16).
Estes textos bíblicos são muito objetivos em mostrar os vetores morais da epistemologia. Eles mostram que, embora a verdade de Deus seja clara, o homem natural, movido pela rebeldia do pecado, sufoca essa verdade e outras ligadas a ela, e, fazendo isso, os homens detém a verdade em mentira, em injustiça. E mostra ainda que os homens não têm desculpas diante de Deus, pois a revelação do Senhor é de tal modo nítida que somente não a enxerga como tal quem não quer. E eis a disposição do homem caído: ele não quer enxergar a verdade. Ele tem acesso a ela e, inclusive, um impulso interno que para ela aponta, mas ele escolhe sufocar este testemunho para que não glorifique a Deus.
A relação dessa base para a epistemologia cristã com a tradição filosófica grega torna claro o esforço filosófico dos gregos para chegar à verdade e à virtude de forma autônoma, ou seja, a parte do Deus verdadeiro que dá nome a essas coisas. Se Deus é a realidade última e se ele é quem pode determinar o que é a virtude, qualquer empreendimento de buscar essas coisas sem o dono e inventor delas é um exercício pecaminoso.
Ora, é essa conclusão que nos permite indicar a verdadeira convergência entre teologia e filosofia. Para o povo de Deus, que tem a sua revelação como princípio de conhecimento, a Palavra de Deus é a fonte de toda a sabedoria. De fato, a Palavra de Deus é a própria sabedoria: "Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento." (Prov 2:6).
Ademais, uma vez que o Cristo é a perfeita expressão de Deus e Sua plena revelação, a sabedoria na teologia encontra a sua dimensão metafísica no próprio ser de Deus, em Jesus Cristo (1Co 1.24). Isso significa que, do ponto de vista da tradição filosófica grega (que não pressupõe a revelação de Deus como verdade anterior), há alguns locais comuns entre a teologia e a filosofia, pontos já listados no início deste tópico. Porém, a partir da perspectiva do cristianismo (que tem a revelação de Deus e Jesus Cristo como pressupostos inegociáveis), teologia e filosofia são a mesma e única coisa! A mesma e única tarefa. A mesma e única expressão do saber humano. Isso porque, se a filosofia é a amizade para com a sabedoria e orienta-se pela busca da verdade, então somente o cristianismo pode ser considerado a verdadeira filosofia pois só o cristianismo cumpre esses requisitos.
Desse modo, mesmo desconsiderando a fé cristã existem pontos de ligação entre as disciplinas em análise. Contudo, considerando a fé cristã (e, para o cristão, a opção de desconsiderá-la é inexistente), a teologia e a filosofia são sinônimos. Se, no esforço teológico, a Escritura é empregada como principal fonte e dela são extraídas as doutrinas da teologia, no esforço filosófico a mesma Estrutura é empregada como principal fonte para fornecer a matéria-prima das doutrinas filosóficas. Em outras palavras, para o filósofo cristão, não existe especulação vazia, desordenada e, sobretudo, autônoma. Antes, para o filósofo cristão, existe Cristo, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.3), e existe a palavra escrita de Deus, que dá testemunho de Cristo (Jo 5.39).
Portanto, para o filósofo cristão, a Bíblia é o material de coleta para a construção filosófica, de tal maneira que, para ele, teologia e filosofia equivalem: em última análise, ambas são sistemas de pensamento abrangente. Para o cristão, só pode existir um sistema de pensamento, e todos os momentos de verdade encontrados em outros sistemas são, assim, apropriações do sistema cristão.
Em uma de minhas aulas, eu disse certa vez:
Embora haja o que podemos chamar de "tradição filosófica grega", se partirmos dos pressupostos bíblicos, não existe filosofia sem Cristo, que é o início e o fim dela, pois ele próprio é a sabedoria. Foi isso o que quis dizer com a ideia de que, para a teologia, a filosofia e a teologia se constituem na mesma disciplina e na mesma tarefa. [...] é claro que os filósofos gregos disseram muitas verdades e propuseram muitos ensinos úteis! Mas isso só porque essas verdades e ensinos refletiram, pela graça de Deus, as verdades cristãs. Então há neles o que podemos chamar de "momentos de verdade", mas, como diria o filósofo cristão Van Til, são verdades, mas verdades roubadas do cristianismo.
Hoje estava conversando com uma garota cristã muito legal. Ela está terminando a sua faculdade de design de moda e resolveu me perguntar sobre a possibilidade de Deus estar realmente interessado na maneira como alguém se veste. "Há uma forma cristã de alguém se vestir?", creio ter sido o enunciado do problema levantado por ela. E como achei a indagação muito pertinente, aproveito a deixa para transformar minha resposta em um breve artigo.
Talvez esta garota não soubesse disso, mas a questão subjacente ao problema exposto tem a ver com a existência de absolutos. Seja lá qual for o jargão recrutado, o que importa é ter em mente o Deus bíblico e sua vontade revelada como justificativa para a afirmação de quaisquer padrões.
É muito fácil falarmos em uma ética cristã ou universal. Também não soa dissonante falarmos em uma epistemologia cristã ou uma metafísica cristã. Estes temas estão em voga no ambiente acadêmico cristão e, de certa maneira, alcançam todo o público mediante a literatura disponível. Todavia, quando falamos em uma ESTÉTICA cristã, não deixo de notar espanto e desconfiança no interlocutor. Uma estética cristã pressupõe valores estéticos universais, o que, por si só, já desperta animosidade nas mentes pluralistas e anti-intelectuais de nosso tempo. Porém, a situação se agrava ainda mais quando não apenas afirmamos os valores estéticos universais que subjazem à uma possível estética cristã, mas também a qualidade revelada de tais premissas.
Por que é tão difícil falarmos a respeito de uma estética cristã? Por que o terreno da estética é tão arenoso quando comparado aos outros temas da preocupação filosófica? Não temos problemas em admitir uma metafísica ou ética cristãs, como dissemos, mas por que, quando o assunto é orientado para a estética, adquire contornos tão delicados?
Embora eu possa arriscar algumas respostas [1], elas não são minha maior preocupação, que permanece sendo o problema entrevisto e enunciado previamente: pode existir, de fato, uma estética cristã? E a resposta é: sim, pode ... e existe!
Em primeiro lugar, não faz sentido supormos que todas as áreas da filosofia sejam objeto de interesse na mente de Deus, conforme sua revelação cristaliza, mas, ao delimitarmos a estética, nenhuma preocupação divina seja evidenciada, ainda que remotamente. Por que Deus não estaria preocupado com a estética?! A Escritura nos ensina, por meio do que chamamos de "mandato cultural", que Deus está interessado em TODAS as áreas da vida e pensamento humanos. É uma distorção medieval neoplatônica pensarmos que existe uma esfera de interesse divino - a esfera religiosa - e outra esfera com a qual Deus não interage ou não se interessa em interagir - a esfera de assuntos seculares ou não-religiosos. Tal dicotomia é falsa, herética e perniciosa, e Deus está profundamente interessado na TOTALIDADE da vida humana, que vive e existe sempre diante de Deus (coram Deo). Portanto, é mais do que razoável admitirmos que a estética, como um sítio do pensamento humano, é alvo do interesse divino. Logo, esta área da filosofia encontra terreno na mente e revelação divina, e, por consequência, a atividade filosófica cristã deve ecoar tal interesse.
Em segundo, a estética trata do que é belo. Pergunto: que outro parâmetro final pode existir para justificar a beleza, senão Deus? Se os ateístas tivessem razão e a realidade fosse resumida à matéria, então a noção de "belo" seria um absurdo filosófico. Aliás, não existiria filosofia. De que maneira uma cosmovisão materialista poderia dar suporte à noção de belo? Se tudo é material (materialismo), não há nada extra-material que imprima qualidades estéticas a um ou outro objeto de análise. As coisas não seriam bonitas ou feias, elas seriam apenas coisas, sem predicados estéticos. Contudo, a Bíblia diz que existe o material e o imaterial, e que a natureza bela de Deus e seus atributos (Sl 29.2; Is 9.6) não só justifica a beleza mas permite reconhecê-la nas obras de criação e redenção como extensões ou impressões desta perfeição divina. O Salmo 75.1 diz: "A TI, ó Deus, glorificamos, [...] as tuas maravilhas o declaram"; e o Salmo 139.14 diz: "[...] maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem".
Em terceiro lugar, como se não bastasse o fato de Deus ser belo em suas perfeições, tal beleza ser amplamente reconhecida na criação e viabilizar a reflexão estética, o próprio Deus, em sua Palavra, nos encoraja a refletir e falar sobre ela. Isto é muito sério, pois significa que o labor filosófico sobre a estética não apenas encontra terreno no pensamento cristão como NÃO DEVE ser relegado ao ostracismo nas discussões filosóficas. Em outras palavras, nós devemos pensar sobre o assunto, redimí-lo à luz das Escrituras levando cativo TODO o entendimento (inclusive a estética) à obediência de Cristo (2Co 10.5). Abraham Kuyper (1837-1920), em uma de suas palestras, disse uma frase que se tornou famosa:
“[...] não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é o Soberano sobre tudo, não clame: 'é Meu!'”
Portanto, a estética deve ocupar as preocupações filosóficas dos homens e, sobretudo, dos filhos de Deus.
Em quarto, e talvez este seja o ponto principal, todas as referências bíblicas ou considerações teológicas mostradas até aqui implicam, necessariamente, na afirmação de padrões absolutos de estética, sem os quais seria impossível aos salmistas declararem, inerrantemente, que as obras de Deus são belas e DIGNAS de serem contempladas. Algo que é digno de ser contemplado não pode ter sua qualidade estética fundamentada em parâmetros subjetivos pois, assim fosse, algumas pessoas seriam capazes de cumprir esta contemplação enquanto outras não. Mas o apelo estético da revelação geral (bem como seu apelo metafísico) é dirigido a todos os homens. Assim, todos os homens deveriam ser capazes de reconhecer a beleza na criação, ainda que não atribuam tal beleza ao Deus Criador, de modo que, podemos inferir, a beleza é um valor objetivo ou, ao menos, não é tão subjetivo quanto costumamos supor.
Deste modo, podemos concluir que há, sim, uma estética cristã. Assim como as outras esferas da discussão filosófica, ela é caracterizada por valores absolutos e objetivos [2]. Ademais, ela é tão absoluta que, conforme nos mostra a Palavra de Deus, é passível de ser estruturada e discutida.
O ponto aqui é: todas as áreas da vida e pensamento humanos existem diante da face e dos interesses de Deus. Não há uma esfera sequer sobre a qual Deus não reivindique autoridade. Sendo assim, todas as áreas da vida e do pensamento humanos ... todas! ... devem ser resgatadas das elocubrações fúteis e carnais, e devem ser submetidas e reorientadas ao senhorio de Cristo (Cl 2.8) segundo a revelação especial de nosso Senhor, que está plena e infalivelmente expressa na Escritura Sagrada. Em outras palavras, não apenas há uma estética a ser pensada, mas há, de fato, uma estética cristã revelada.
Notas
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1. Creio que um dos motivos pelos quais a afirmação de uma estética cristã seja tão indigesta na mentalidade comum resida na aversão a absolutos cultivada e disseminada sistematicamente pelo marxismo cultural. Outro motivo - este mais concentrado no próprio cenário cristão - pelo qual uma estética cristã seja tão impopular jaz na escassez de informações bíblicas diretas sobre o assunto. A Escritura fornece princípios de estética, mas não fórmulas prontas. Entretanto, creio que a maior razão seja o fato de que, por muito tempo, os valores estéticos têm tido qualquer fração de sua objetividade subtraída em função de uma exagerada parcela de subjetividade. As pessoas simplesmente imaginam que, quando se trata de "belo" e "feio", não existe objetividade alguma, mas somente opiniões subjetivas.
2. É claro que não ignoro a dificuldade latente em delinearmos todos os parâmetros para uma estética biblicamente orientada. A Escritura, como disse, não nos apresenta fórmulas prontas, padrões de cores, formas e sons cujas combinações resultem na construção do belo. Todavia, a Escritura nos fornece princípios que podem nos orientar neste sentido. Neste ponto, que excede minha expertise, prefiro confiar na graça de Deus atuando sobre os verdadeiros artistas para que produzam o belo e Deus seja glorificado.
Este livro é uma tentativa de
esclarecer o conteúdo de uma
cosmovisão bíblica e sua
importância para nossas vidas,
à medida que procuramos ser
obedientes às Escrituras. As
idéias que constituem esta
cosmovisão não se originaram
comigo. Elas vieram de uma
longa tradição de reflexão
Cristã sobre as Escrituras e
nossa perspectiva total do
mundo, uma tradição enraizada
nas próprias Escrituras. Ela
teve como alguns de seus
representantes mais
proeminentes os Pais da Igreja
Irineu e Agostinho, e os
Reformadores Tyndale e
Calvino.
Esta cosmovisão escriturística
mencionada é às vezes chamada
de "reformacional" após a
Reforma Protestante, que
descobriu novamente o ensino
bíblico concernente à
profundidade e escopo do pecado e da redenção. O desejo de
viver pelas Escrituras somente,
antes do que pelas Escrituras ao
lado da tradição, é uma marca
dos Reformadores. Nós
seguimos seu caminho nesta
ênfase bem como em querer
uma reforma progressiva, em
querer ser reformados pelas
Escrituras continuamente (ver
Atos 17:11; Romanos 12:2),
antes do que viver por tradições
não examinadas.
A reflexão reformacional na
cosmovisão tem ocupado
distintas formas à medida que
tem se movido no século vinte,
algo que pode ser visto
especialmente na obra de
líderes holandeses como
Abraham Kuyper, Herman
Bavinck, Herman Dooyeweerd e
D. H. T. Vollenhoven. Suas
contribuições a uma
compreensão mais profunda e
articulada da cosmovisão
bíblica vieram através da
teologia, filosofia e outras
disciplinas acadêmicas, e
especialmente através da ação
cultural e social que surgiram
de um profundo desejo de
serem obedientes às Escrituras
em todas as áreas da vida e do
serviço.
O termo cosmovisão [worldview ]
veio da língua Inglesa como
uma tradução da palavra alemã
Wel-tanschauung [percepção (de
mundo), ponto-de-vista,
concepção (de mundo),
cosmovisão]. Este termo tem a
vantagem de ser claramente
distinto de "filosofia" (ao menos
no uso alemão) e de ser menos
enfadonho do que a frase "visão
do mundo e da vida", que foi
preferida pelos neo-Calvinistas
alemães (provavelmente
seguindo um uso feito popular
pelo filósofo Alemão [Wilhem]
Dilthey). Um sinônimo aceitável
é "perspectiva de vida" ou
"visão confessional". Nós
podemos também falar mais
vagamente sobre o conjunto dos
"princípios" ou "ideais" de uma
pessoa. Um marxista chamá-lo-
ia de uma "ideologia"; a
classificação mais prevalecente
nas ciências sociais hoje
provavelmente é "sistema de
valores". Estes termos são
menos que aceitáveis porque os
pró-prios termos possuem
conotações de determinismo e
relativismo que revelam uma
cosmovisão ina-ceitável.
Para nossas finalidades,
cosmovisão será definida como
"a estrutura abrangente das
crenças básicas de alguém sobre
coisas". Façamos um exame
mais minucioso dos elementos
desta definição.
Primeiramente, "coisas" é um
termo deliberadamente vago
que se refere a qualquer coisa
sobre a qual seja possível ter
uma crença. Eu estou tomando-
o no sentido mais geral que se
possa imaginar, como
abrangendo o mundo, a vida
humana em geral, o significado
do sofrimento, o valor da educa-
ção, o social, a moralidade e a
importância da família. Neste
sentido pode-se dizer que até
Deus está incluído entre as
"coisas" sobre as quais temos
crenças básicas.
Segundo, uma cosmovisão é
uma matéria das crenças de
determinada pessoa. As crenças
são diferentes dos sentimentos
ou opiniões porque elas
possuem uma "reivindicação
cognitiva" - isto é, uma
reivindicação a algum tipo de
conhecimento. Eu posso dizer,
por exemplo, que eu "creio" que
a educação é o caminho para a
felicidade humana. Isto
significa que estou afirmando
algo sobre o estado das coisas, o
que o caso é. Estou querendo
defender aquilo em que creio
com argumentos. Os
sentimentos não colocam
reivindicação ao conhecimento,
nem podem ser argumentados.
Crenças não são opiniões,
tampouco hipóteses. Para ser
exato, nós às vezes usamos a
palavra crer com aquele tipo de
sentido enfraquecido ("Eu creio
que Johnny chegará esta noite
novamente tarde em casa"), mas
eu estou usando aqui a palavra
no sentido de "credo", uma
crença comprometida, algo que
estou disposto não somente a
argumentar, mas também a
defender ou promover com o
gasto de dinheiro ou a paciência
em meio ao sofrimento. Por
exemplo, pode ser minha crença
que a liberdade de expressão
seja um direito inalienável na
sociedade humana, ou que
ninguém possa impor a sua
religião a alguma outra pessoa.
Sustentar uma crença pode
exigir um sacrifício de minha
parte, ou a tolerância ao
desprezo ou abuso se ela é uma
crença dita não-popular ou não-
ortodoxa, que os presídios
devem castigar bem como
reabilitar, ou que a livre
iniciativa é o flagelo de nossa
sociedade. Todas estas crenças
são exemplos do que entra em
uma cosmovisão. Tem a ver
com as convicções de uma
pessoa.
Terceiro, é importante notar
que as cosmovisões têm a ver
com crenças básicas sobre
coisas. Elas têm a ver com
questões fundamentais com as
quais somos confrontados; elas
envolvem assuntos de princípio
geral. Eu posso dizer que eu
tenho uma crença segura de que
os Yankees venceram o World
Series de 1956, seguro a ponto
de estar disposto a fazer uma
grande aposta sobre isto, mas
este tipo de crença não é o tipo
que constitui uma cosmovisão. É
diferente no caso de assuntos
profundos morais: A violência
pode alguma vez ser justa? Há
normas constantes para a vida
humana? Existe um motivo para
o sofrimento? Nós sobrevivemos
à morte?
Finalmente, as crenças básicas
que uma determinada pessoa
sustenta sobre coisas tendem a
formar uma estrutura ou
padrão; elas se unem de um
certo modo. Eis a razão por que
os humanistas freqüentemente
falam de um "sistema de
valores". Todos nós
reconhecemos, em algum grau
pelo menos, que devemos ser
consistentes em nossas visões,
se quisermos tomá-las com
seriedade. Nós não adotamos
uma posição arbitrária de
crenças básicas que não
possuam coerência ou não
pareçam consistentes. Certas
crenças básicas se chocam com
outras. Por exemplo, a crença
no matrimônio como uma
ordenança de Deus não se
comporta com a idéia de
divórcio fácil. Uma convicção
que filmes e teatros são
essencialmente "divertimentos
mundanos" não é muito
consoante com o ideal de uma
reforma cristã das artes. Uma
crença otimista no progresso
histórico é difícil de se
harmonizar com a crença na
depravação do homem.
Isto não é dizer que cosmovisões
nunca ou sejam internamente
inconsistentes - muitas são (de
fato, uma inconsistência pode
ser uma das coisas mais
interessantes sobre uma
cosmovisão) - mas continua
sendo verdade que a
característica mais significativa
da cosmovisão é sua tendência
voltada para o padrão e
coerência; até suas
inconsistências tendem a cair
em padrões claramente
reconhecíveis. Além disso, a
maioria das pessoas não admite
uma inconsistência em sua
própria cosmovisão, mesmo
quando esta é muito óbvia a
muitos outros.
Tem sido assumido em nossa
discussão até aqui que todos
possuem uma cosmovisão de
algum tipo. É este o caso, na
realidade? Certamente é
verdade que a maioria das
pessoas não possui uma resposta se elas forem inquiridas de
qual é sua cosmovisão, e os
assuntos piorariam se eles
fossem inquiridos sobre a
estrutura de suas crenças
básicas sobre as coisas.
Contudo, suas crenças básicas
emergem suficientemente
depressa quando eles são
enfrentados com questões
práticas que se levantam,
assuntos políticos atuais ou
convicções que se confrontam
com as suas. Como eles reagem
ao serviço militar obrigatório,
por exemplo? Qual é sua
resposta ao evangelismo ou à
contracultura, ao pacifismo ou
comunismo? Que palavras de
condolências podem oferecer ao
lado da tumba? Quem eles
responsabilizam pela inflação?
Qual é a visão deles sobre
aborto, pena de morte,
disciplina na educação de
crianças, homossexualidade,
segregação racial, inseminação
artificial, censura de filmes,
sexo extra-conjugal e questões
desse tipo? Todos estes assuntos
despertam respostas que
fornecem indicações da
cosmovisão de uma pessoa pela
sugestão de certos padrões
("conservador" ou "progressivo",
sendo muito rudes e não
confiáveis os padrões que a
maioria das pessoas reconhece).
Em geral, conseqüentemente,
todos possuem uma cosmovisão;
embora inarticulada, ele ou ela
pode expressá-la. Ter uma
cosmovisão é simplesmente
parte de ser um ser humano
adulto.
Qual o papel da cosmovisão em
nossas vidas? A resposta a isto,
creio, é que nossa cosmovisão
funciona como um guia para
nossa vida. Uma cosmovisão,
até quando ela é meio
inconsciente e desarticulada,
funciona como um compasso ou
um mapa de estrada. Ela nos
orienta no mundo de forma
geral, dando-nos um senso do
que é alto e do que é baixo, do
que é certo e do que é errado na
confusão de eventos e
fenômenos que nos confrontam.
Nossa cosmovisão forma, em um
grau significativo, o modo pelo
qual avaliamos os eventos,
assuntos e estruturas de nossa
civilização e de nossa época.
Ela nos permite "colocar" ou
"situar" os vários fenômenos
que estão ao nosso alcance. De
fato, outros fatores têm uma
função neste processo de
orientação (interesse próprio
psicológico ou econômico, por
exemplo), mas estes outros
fatores não eliminam a função
orientadora da cosmovisão de
alguém; eles freqüentemente
influenciam através de nossa
perspectiva de vida.
Uma das características
exclusivas dos seres humanos é
que nós não podemos fazer
nada sem um tipo de orientação
ou condução que uma
cosmovisão dá. Nós
necessitamos ser guiados
porque somos
inescapavelmente criaturas com
responsabilidade, que por
natureza são incapazes de
sustentar opiniões puramente
arbitrárias ou fazer decisões
inteiramente sem princípios.
Nós necessitamos de algum
credo para viver por ele, algum
mapa pelo qual tracemos nosso
curso. A necessidade de uma
perspectiva condutora é básica
para a vida humana, talvez
mais básica do que alimento ou
sexo.
Não somente nossas visões e
argumentos são decididamente
afetados pela nossa cosmovisão,
mas também todas as decisões
específicas que somos levados a
fazer. Quando o relacionamento
matrimonial começa a ficar
áspero, o divórcio é uma opção?
Quando a cobrança de impostos
é injusta, você trapaceia em
seus formulários de impostos?
Os crimes devem ser punidos?". Você demitirá um empregado
tão logo isto se torne
economicamente vantajoso?
Você começará a se envolver em
políticas? Você desencorajará
seu filho ou filha de ser tornar
um artista? As decisões que você
faz nestes e muitos outros
assuntos são guiadas pela sua
cosmovisão. As disputas sobre
elas envolvem freqüentemente
um conflito de perspectivas de
vida básicas.
Novamente, temos de admitir
que pode haver inconsistência
aqui: não somente podemos
sustentar crenças conflitantes,
mas às vezes podemos falhar em
agir em harmonia com as
crenças que sustentamos. Este é
um fato de nossa experiência
diária que todos devemos
reconhecer. Mas, isto significa
que nossa cosmovisão
conseqüentemente não tem o
papel guiador que estamos
atribuindo a ela? Não
necessariamente. Um navio
pode ser desviado de seu curso
por uma tempestade e ainda
estar se dirigindo ao seu
destino. É o padrão em geral
que conta, o fato que o
timoneiro faz tudo que for
possível para permanecer no
curso. Se sua ação está fora de
sintonia com suas crenças, você
tende a mudar suas ações ou
suas crenças. Você não pode
manter sua integridade (ou sua
saúde mental) por muito tempo
se não fizer nenhum esforço
para resolver o conflito.
Esta visão da relação de nossa
cosmovisão com a nossa
conduta é disputada por muitos
pensadores. Os marxistas, por
exemplo, sustentam que o que
realmente guia nosso
comportamento não são nos-sas
crenças, mas os interesses de
classes. Muitos psicólogos olham
para as cosmovisões mais como
guiadas do que como guiando,
como racionalizações para
comportamentos que são
realmente controlados pelas
dinâmicas de nossa vida
emocional. Outros psicólogos
sustentam que nossas ações são
basicamente condicionadas
pelos estímulos físicos vindos de
nosso meio. Seria tolice
desconsi-derar a evidência que
esses pensadores apresentam
para reforçar seus pontos de
vista. Na realidade, é verdade
que o comportamento humano é
muito complexo e inclui tais
assuntos como interesses de
classes, o condicionamento e a
influência de desejos
reprimidos. A questão é o que
constitui o fator decisivo e
dominante que conta para o
padrão da ação humana. O
modo como respondemos esta
questão depende de nossa visão
da natureza essencial da
humanidade: isto é em si
mesmo um assunto de nossa
cosmovisão.
Do ponto de vista cristão,
devemos dizer que nossa crença
é um fator decisivo em nossas
vidas, embora as crenças que
professamos possam estar em
desacordo com as crenças que
estão atualmente operando em
nossas vidas.
É um mandamento do
evangelho que vivamos nossas
vidas em conformidade com as
crenças ensinadas nas
Escrituras. O fato de
freqüentemente falharmos em
viver este mandamento, não
invalida o fato de que podemos
e devemos viver de acordo com
nossas crenças.
Qual é, então, o relacionamento
da cosmovisão com as
Escrituras? A resposta cristã a
esta questão é: nossa
cosmovisão deve ser formada e
testada pelas Escrituras. Ela
pode legitimamente guiar nossas vidas somente se ela for
escriturística. Isto significa que,
no assunto da cosmovisão, há
um abismo significativo entre
aqueles que aceitam estas
Escrituras como sendo a Palavra
de Deus e aqueles que não
aceitam. Isto significa que os
cristãos devem constantemente
verificar suas crenças da
cosmovisão à luz das Escrituras,
porque se não o fizerem haverá
uma poderosa inclinação a receber muitas de nossas crenças,
até as básicas, de uma cultura
que tem sido secularizada em
ritmo acelerado por gerações.
Uma boa parte da finalidade
deste livro é oferecer ajuda no
processo de reformar nossa
cosmovisão, para conformá-la
mais estreitamente ao ensino
das Escrituras.
Como cristãos, confessamos que
as Escrituras têm a autoridade
de Deus, que é superior a tudo
mais - acima da opinião
pública, da educação, da criação
de crianças, da mídia, e em
resumo, acima de todas as
poderosas interferências em
nossa cultura pela qual a
cosmovisão está constantemente
sendo formada. Contudo, uma
vez que estas interferências em
nossa cultura deliberadamente
ignoram, e de fato usualmente
rejeitam por completo a
suprema autoridade das
Escrituras, há considerável
pressão sobre os cristãos para
restringirem seu
reconhecimento da autoridade
das Escrituras à área da Igreja,
da teologia e da moralidade
pessoal - uma área que tem se
tornado basicamente irrelevan-
te no rumo tomado pela cultura
e pela sociedade como um todo.
Esta pressão, contudo, é em si
mesma o fruto de uma
cosmovisão secular, e deve ser
resistida pelos cristãos com
todos os recursos de que
dispõem. Os recursos
fundamentais são as próprias
Escrituras.
As Escrituras representam
muitas coisas para o cristão,
mas a principal é a instrução.
Não há passagem nas
Escrituras que não possa nos
ensinar algo sobre Deus e Seu
relacionamento conosco. Nós
devemos nos aproximar das
Escrituras como estudantes,
particularmente quando
começamos a pensar
criticamente sobre nossa
própria cosmovisão.
"Porquanto, tudo que dantes foi
escrito, para nos-so ensino foi
escrito", diz Paulo sobre o Velho
Testamento (Romanos 15:4), e o
mesmo se aplica ao Novo
Testamento. Eis por que o
conceito de "sã doutrina" é tão
central no testemunho
apostólico - não doutrina no
sentido de teologia acadêmica,
mas como instrução prática nas
realidades de vida e morte de
nosso andar em compromisso
com Deus. É por meio deste tipo
de ensino que a constância e
encorajamento provenientes
das Escrituras nos capacitam,
como Paulo apontou na mesma
passagem, não para nos
desesperarmos, mas para
estabelecermos nossa esperança
em Cristo. Isto está envolvido
também no que Paulo chama a
"renovação de nossas
mentes" (Romanos 12:2). Nós
necessitamos deste renovo se
formos discernir qual é a
vontade de Deus em toda a sua
extensão para nossas vidas -
"sua boa, agradável e perfeita
vontade". Testar nossa
cosmovisão à luz das Escrituras
e revisá-la de acordo com ela é
parte do renovo da mente.
Esta ênfase no ensino
escriturístico é claramente um
aspecto fundamental da religião
cristã. Todas as variedades de
cristãos, apesar de todas suas
diferenças, concordam sobre
este ponto de uma for-ma ou de
outra. Contudo é necessário
enfatizá-la novamente com
referência à questão de nossa
cosmovisão, porque quase todos
os ramos da Igreja Cristã
também concordam que o
ensino das Escrituras é
basicamente um assunto de
teologia e moralidade pessoal,
um setor privado rotulado de
"sagrado" e "religioso", separado
dos amplos assuntos do ser
humano, rotulados de
"seculares". As Escrituras, de
acordo com esta visão, precisam
certamente formar nossa
teologia (incluindo nossas
"éticas teológicas"), mas são, na
melhor das hipóteses, somente
indiretamente e
tangencialmente relacionadas a
assuntos seculares tais como
política, arte e conhecimento: a
Bíblia nos ensina uma visão de
Igreja e uma visão de Deus, não
uma cosmovisão.
Este é um erro perigoso. Sem
dúvida, nós devemos ser
ensinados pelas Escrituras em
assuntos tais como batismo,
oração, eleição e igreja, mas as
Escrituras falam centralmente a
tudo em nossa vida e mundo,
incluindo tecnologia, economia
e ciência. O escopo do ensino
bíblico inclui assuntos ordinários "seculares" como labor,
grupos sociais e educação. A
menos que tais assuntos estejam
aproximados em termos de
uma cosmovisão baseada
honestamente em categorias
escriturísticas centrais como
criação, pecado e redenção,
nossa avaliação destas
dimensões supostamente não-
religiosas de nossas vidas será
provavelmente dominada por
uma das competitivas
cosmovisões do Ocidente
secularizado.
Conseqüentemente, é essencial
relacionar os conceitos básicos
de "teologia bíblica" à nossa
cosmovisão - ou melhor,
entender estes conceitos básicos
como constituindo uma
cosmovisão. Em certo sentido,
o apelo que está sendo feito
aqui para uma cosmovisão
bíblica é simplesmente um
apelo para o crente levar a sério
a Bíblia e seu ensino para a
totalidade de nossa civilização
agora mesmo, e não para
relegá-la a alguma área
opcional chamada "religião".
Tudo isto levanta a questão do
relacionamento do que eu tenho
chamado de "cosmovisão" com a
teologia e a filosofia. Este é um
assunto que causa certa
confusão, uma vez que na
conversação comum quaisquer
perspectivas abrangentes sobre
as coisas que apela à autoridade
da Bíblia são chamadas de
"teologia", e qualquer
perspectiva que apela à
autoridade da razão é chamada
de "filosofia". O problema com
este modo de falar é que ele
falha em fazer uma distinção
entre a perspectiva de vida que
todo ser humano tem pelo fato
de ser humano e as disciplinas
acadêmicas especializadas que
são ensinadas pelos professores
de teologia e filosofia. Além
disso, ela faz uma suposição
equivocada que a teologia não
pode ser pagã ou humanística e
que a filosofia não pode ser
bíblica. A diferença entre
cristão e não-cristão não pode
ser tão facilmente dividida
entre duas disciplinas
acadêmicas.
Teologia e filosofia são campos
especializados de investigação
que nem todos podem adentrar.
Elas requerem habilidades
especiais, um certo tipo de
inteligência e uma quantia
considerável de melhor:
"conhecimento" ou "instrução".
Eles são campos para
especialistas treinados. Isto não
é dizer que elas estão fechadas
ao leigo inteligente;
simplesmente significa que os
leigos têm uma desvantagem
melhor: "definida" em si, pelo
simples fato de estarem nas
ciências médicas, econômicas e
em campos não-acadêmicos
específicos como altas finanças
e diplomacia internacional. Em
todos estes campos há homens e
mulheres profissionais, que são
especializados na área. Teologia
e filosofia não são exceção.
Mas a cosmovisão é um assunto
totalmente diferente. Você não
necessita de títulos ou
habilidades especiais para ter
uma perspectiva na vida.
Sabedoria bíblica ou sã doutrina
não aumentam com o avanço do
treinamento teológico. Se
aumentasse, os profetas e
apóstolos, para não mencionar
o próprio Jesus, teriam sido
totalmente deficientes
comparados com os brilhantes e
jovens teólogos de hoje que
acabam de sair de uma
faculdade. Brilhantismo
acadêmico é algo totalmente
diferente de sabedoria e de
senso comum - e uma
cosmovisão é uma questão de
sabedoria e senso comum, seja
bíblico ou não.
Sem tentar definir precisamente
a natureza de "ciência" e
"teoria" (que neste contexto
podemos considerar sinônimos),
podemos dizer que filosofia e
teologia, como disciplinas
acadêmicas, são cientificas e
teóricas, enquanto que uma
cosmovisão não é. Uma
cosmovisão é uma questão da
experiência diária da
humanidade compartilhada, um
componente inescapável de todo
saber humano, ou melhor,
(desde que o conhecimento
cientifico é sempre dependente
do conhecimento intuitivo de
nossa experiência diária) pré-
científico, por natureza. Ela
pertence a uma ordem de
cognição mais básica do que a
da ciência ou teoria. Da mesma
forma que a estética pressupõe
algum senso inato de beleza, e a
teoria legal pressupõe uma
noção fundamental de justiça,
assim a teologia e filosofia
pressupõem uma perspectiva
pré-teórica sobre o mundo. Elas
dão uma elaboração cientifica
de uma cosmovisão.
No geral, então, podemos dizer
que cosmovisão, filosofia e
teologia são semelhantes no
sentido de serem abrangentes
em escopo, mas que elas são
diferentes no que uma
cosmovisão é pré-científica, ao
passo que a filosofia e teologia
são científicas. A distinção
entre filosofia e teologia pode
talvez se tornar mais clara se
introduzirmos dois conceitos
chaves: "estrutura" e "rumo". A
filosofia pode ser descrita como
aquela disciplina científica
abrangente (totalmente
orientada) que se foca na
estrutura das coisas - isto é, na
unidade e diversidade daquilo
que é dado nas coisas criadas.
Teologia (isto é, teologia
sistemática cristã), por outro
lado, pode ser considerada
aquela disciplina cientifica
abrangente (totalmente
orientada) que se foca no rumo
das coisas - isto é, no mal que
contagia o mundo e a cura que
pode salvá-lo. A filosofia cristã
olha para a criação à luz das
categorias básicas da Bíblia; a
teologia cristã olha para a
Bíblia à luz das categorias
básicas da criação. Uma
cosmovisão, ao contrário, é
igualmente relacionada tanto
com as questões estruturais
como direcionais. Ela não tem
contudo a diferenciação de foco
característica das disciplinas
científicas abrangentes (ou
amplas).
Há muito que se pode dizer
sobre estas distinções,
especialmente sobre a distinção
entre estrutura e direção, mas
que terá de esperar até um
ponto posterior em nossa
discussão. No momento estamos
somente tocando nele
resumidamente para esclarecer
o relacionamento entre os três
modos abrangentes de
entender o mundo.
Agora que temos uma idéia
geral do que uma cosmovisão é,
resta-nos falar o que é diferente
na cosmovisão reformacional.
Que características peculiares a
distinguem de outras
cosmovisões, tanto da pagã ou
humanista como daquelas
cristãs.
Devemos começar aceitando o
fato que há diferentes
cosmovisões cristãs, até dentro
da corrente principal da
ortodoxia cristã histórica. Há
um sentido, naturalmente, em
que todas as igrejas cristãs
ortodoxas (que iremos entender
neste contexto como sendo
aquelas igrejas cristãs que
aceitam os assim chamados
credos ecumênicos da igreja
primitiva) compartilham uma
boa quantidade do ensino
bíblico básico. Todas elas
aceitam a Bíblia como a Palavra
de Deus, crêem em um Criador
transcendental que fez todas as
coisas, que a desgraça humana é
devida ao pecado e que Jesus
Cristo veio para expiar este
pecado e redimir a humanidade
de sua maldição, afirmam que
Deus é pessoal e triúno, que
Cristo é tanto divino como
humano, e assim por diante.
Nós não devemos minimizar a
extensão na qual a Igreja
Ortodoxa Oriental, a Católica
Romana e vários tipos de
tradições protestantes
compartilham a mesma herança
e confissão bíblica.
Não obstante, estamos bem
cientes das profundas divisões
dentro da igreja cristã. Estas
divisões refletem diferenças de
cosmovisão bem como
diferenças de teologia no
sentido estrito da palavra.
Gostaria de brevemente
identificar as diferenças básicas
entre a cosmovisão
reformacional e outras
cosmovisões cristãs.
Um modo de ver esta diferença
é usar a definição básica de fé
cristã dada por Herman
Bavinck: "Deus o Pai reconciliou
o mundo criado por Ele porém
caído, através da morte de Seu
Filho, e re-nova-o em um Reino
de Deus pelo Seu Espírito". A
cosmovisão reformacional toma
todos os termos chaves nesta
confissão trinitariana
ecumênica num sentido
universal e todo abrangente. Os
termos "reconciliado", "criado",
"caído", "mundo", "renova" e
"reino de Deus" são tidos por
cósmicos no escopo. Em
principio, nada à parte do
próprio Deus fica fora da
extensão destas realidades
fundamentais da religião
bíblica.
Todas as outras cosmovisões
cristãs, ao contrário, restringem
o escopo de cada um destes
termos de um ou outro modo.
Compreende-se que cada um se
aplica somente a uma área
delimitada do universo de
nossa experiência, usualmente
chamado de a esfera "religiosa"
ou "sagrada". Tudo que esteja
fora desta área delimitada é
chamado de a esfera
"mundana", ou "secular", ou
"natural" ou "profana". Todas
estas teorias das "duas esferas",
como são chamadas, são talvez
melhor "variantes" de uma
cosmovisão basicamente
dualística, em oposição à
perspectiva integral da
cosmovisão reformacional, que
não aceita uma distinção entre
as esferas sagrada e secular no
cosmo.
Esta é uma maneira de explicar
a distinção da cosmovisão
reformacional. Outra maneira é
dizer que suas características
distintivas são organizadas ao
redor da visão central de que "a
graça restaura a natureza" - isto
é, a redenção em Jesus Cristo
significa a restauração de uma
criação originalmente boa.
(Naturalmente quero dizer
"realidade criada" nestes
contextos). Em outras palavras,
redenção é re-criação. Se
olharmos para isto mais
atentamente, podemos ver que
esta afirmação básica real-
mente envolve três dimensões
fundamentais: a criação
originalmente boa, a perversão
da criação através do pecado e a
restauração da criação em
Cristo. Isto mostra quão central
a doutrina da criação se torna
em tal visão, visto que o
propósito completo da salvação
é, então, o de salvar uma criação corrompida pelo pecado.
Nas cosmovisões não-
reformacionais, contudo, a
graça inclui algo além da
natureza, com o resultado que a
salvação é algo basicamente
"não-criacional", super-
criacional, ou até mesmo anti-
criacional. Em tais perspectivas,
seja o que for que Cristo traga
além da criação pertence à
esfera sagrada, enquanto que a
criação original constitui a
esfera secular.
Autor: Albert M. Wolters (trecho da Obra "What is a worldview?")
Tradução: Filipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Site Monergismo (http://www.monergismo.com/textos/cosmovisao/cosmovisao_wolters.htm)