[Trecho de uma das aulas que ministro em meu curso Filosofia Cristã]
A Bíblia fornece uma exuberante abundância de evidências que apontam para a pluralidade dentro do ente divino e, posteriormente, em uma posição canônica avançada, faz transparecer a triunidade de Deus em toda a sua plenitude de glória e majestade.
Entretanto, a existência de Deus como Trindade é, além de um resultado de evidências bíblicas, uma necessidade teológica; além de uma consequência exegética, uma inevitabilidade lógica.
Não muitos teólogos no Brasil cedem a devida importância para o ensino bíblico acerca da Trindade. Eles ignoram, contudo, o alcance prático de uma correta apreensão do Senhor em sua natureza trinitária, bem como ignoram as implicações da existência triúna de Deus para a própria ontologia divina, para a práxis cristã nos relacionamentos e para um correto relacionamento com o próprio Deus.
Neste tópico, vamos abordar a Trindade em sua necessidade teológica.
Deus precisa ser triúno. Não há opção quanto a isso. De fato, a triunidade de Deus como inevitabilidade teológica posiciona automaticamente o cristianismo como única religião ou sistema de pensamento verdadeiro, visto que somente o cristianismo emerge a partir de um Deus-Trindade. Mas de que modo a natureza trinitária de Deus é uma necessidade teológica?
A noção bíblica mais elementar de Deus inclui suas propriedades de pessoalidade (qualidade pela qual Deus mostra-se não como uma força impessoal, mas como um ser com faculdades das quais a personalidade humana é análoga), de imutabilidade (qualidade que torna Deus absolutamente imutável, em toda a extensão da palavra) e de perfeição (esta, por sua vez, está implicada na imutabilidade pois um ser só pode ser imutável se for perfeito e não passível de piora ou melhora, seja em sua natureza, seja em suas ações). Destarte, a própria definição de Deus o pressupõe como um ser pessoal, imutável e perfeito. Entretanto, aqui jaz a chave para um approach mais profundo da doutrina da Trindade: por necessidade lógica, somente um Deus triúno pode ser pessoal, imutável e perfeito.
Note os seguintes dizeres de Jesus em uma de suas orações:
"E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. … Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo." (João 17:5,24).
Em primeiro lugar, Jesus menciona a glória que ele tinha com o Pai na eternidade (“antes que o mundo existisse”). Na eternidade, Deus relacionava-se consigo mesmo. Nunca houve um tempo em que Deus não estivesse em relacionamento. E, logo adiante, Jesus menciona o amor intratrinitário que sempre caracterizou o relacionamento eterno de Deus consigo mesmo: “...porque tu me amou antes da fundação do mundo”. Para que Deus seja um ser pessoal, como é, com todas as nuances que configuram a pessoalidade, é necessário que Deus, desde sempre, tenha se relacionado com um “semelhante”, ou seja, consigo mesmo, entre as hipóstases da triunidade. Não existe pessoalidade em um vácuo. Deus só pode ser considerado um ente pessoal porque, desde a eternidade, relaciona-se pessoalmente consigo mesmo[7].
Em segundo, caso Deus não existisse em uma realidade trinitária, seria acurado dizer que, em dado momento, até que criasse algum ser a quem pudesse amar e com quem relacionar-se, Deus não conheceria o mecanismo de um relacionamento e, mais ainda, não poderia ao certo conhecer o amor. Decerto alguém poderia argumentar que Deus saberia as nuances do amor por amar a si mesmo, sem a necessidade de uma triunidade em si. Contudo, isso não é verdadeiro, pois o amor só pode ser apreendido em toda a sua dimensão dentro de um relacionamento. O ponto, assim, é que, caso Deus não existisse em Trindade eternamente, só conheceria o mecanismo de amar ao criar algo que pudesse ser objeto de amor. Porém, o próprio aprendizado, no que se refere a Deus, anula a ideia de imutabilidade, pois aprendizado supõe mudança, de modo que um ser imutável não pode aprender coisas novas, nem desaprender o que já sabe. A imutabilidade está sempre ligada à onisciência.
Em terceiro, e como consequência da argumentação, Deus só pode ser prefeito se existir, eternamente, em Trindade, pois, caso contrário, sua impessoalidade e sua mutabilidade, consequências de uma existência unitária, o tornariam imperfeito. Em outras palavras, não fosse Deus uma Trindade eterna, teria adquirido conhecimento ao aprender a relacionar-se e, dessa forma, sua qualidade de perfeição seria comprometida pela mutabilidade.
Em suma, o fato de Deus ser eternamente subsistente em três pessoas divinas é uma necessidade para sua pessoalidade, pois é no relacionamento interpessoal que os caracteres da pessoalidade podem ser afirmados. Um Deus não-triúno não poderia ser um Deus pessoal. Da mesma maneira, somente uma Trindade eterna pode ser defendida como um Deus imutável pois qualquer conhecimento adquirido em relacionamento implica em mudança. Por fim, isso mostra que apenas um Deus triúno pode ser um Deus perfeito, uma vez que a mutabilidade implica em imperfeição.
A Bíblia fornece uma exuberante abundância de evidências que apontam para a pluralidade dentro do ente divino e, posteriormente, em uma posição canônica avançada, faz transparecer a triunidade de Deus em toda a sua plenitude de glória e majestade.
Entretanto, a existência de Deus como Trindade é, além de um resultado de evidências bíblicas, uma necessidade teológica; além de uma consequência exegética, uma inevitabilidade lógica.
Não muitos teólogos no Brasil cedem a devida importância para o ensino bíblico acerca da Trindade. Eles ignoram, contudo, o alcance prático de uma correta apreensão do Senhor em sua natureza trinitária, bem como ignoram as implicações da existência triúna de Deus para a própria ontologia divina, para a práxis cristã nos relacionamentos e para um correto relacionamento com o próprio Deus.
Neste tópico, vamos abordar a Trindade em sua necessidade teológica.
Deus precisa ser triúno. Não há opção quanto a isso. De fato, a triunidade de Deus como inevitabilidade teológica posiciona automaticamente o cristianismo como única religião ou sistema de pensamento verdadeiro, visto que somente o cristianismo emerge a partir de um Deus-Trindade. Mas de que modo a natureza trinitária de Deus é uma necessidade teológica?
A noção bíblica mais elementar de Deus inclui suas propriedades de pessoalidade (qualidade pela qual Deus mostra-se não como uma força impessoal, mas como um ser com faculdades das quais a personalidade humana é análoga), de imutabilidade (qualidade que torna Deus absolutamente imutável, em toda a extensão da palavra) e de perfeição (esta, por sua vez, está implicada na imutabilidade pois um ser só pode ser imutável se for perfeito e não passível de piora ou melhora, seja em sua natureza, seja em suas ações). Destarte, a própria definição de Deus o pressupõe como um ser pessoal, imutável e perfeito. Entretanto, aqui jaz a chave para um approach mais profundo da doutrina da Trindade: por necessidade lógica, somente um Deus triúno pode ser pessoal, imutável e perfeito.
Note os seguintes dizeres de Jesus em uma de suas orações:
"E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. … Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo." (João 17:5,24).
Em primeiro lugar, Jesus menciona a glória que ele tinha com o Pai na eternidade (“antes que o mundo existisse”). Na eternidade, Deus relacionava-se consigo mesmo. Nunca houve um tempo em que Deus não estivesse em relacionamento. E, logo adiante, Jesus menciona o amor intratrinitário que sempre caracterizou o relacionamento eterno de Deus consigo mesmo: “...porque tu me amou antes da fundação do mundo”. Para que Deus seja um ser pessoal, como é, com todas as nuances que configuram a pessoalidade, é necessário que Deus, desde sempre, tenha se relacionado com um “semelhante”, ou seja, consigo mesmo, entre as hipóstases da triunidade. Não existe pessoalidade em um vácuo. Deus só pode ser considerado um ente pessoal porque, desde a eternidade, relaciona-se pessoalmente consigo mesmo[7].
Em segundo, caso Deus não existisse em uma realidade trinitária, seria acurado dizer que, em dado momento, até que criasse algum ser a quem pudesse amar e com quem relacionar-se, Deus não conheceria o mecanismo de um relacionamento e, mais ainda, não poderia ao certo conhecer o amor. Decerto alguém poderia argumentar que Deus saberia as nuances do amor por amar a si mesmo, sem a necessidade de uma triunidade em si. Contudo, isso não é verdadeiro, pois o amor só pode ser apreendido em toda a sua dimensão dentro de um relacionamento. O ponto, assim, é que, caso Deus não existisse em Trindade eternamente, só conheceria o mecanismo de amar ao criar algo que pudesse ser objeto de amor. Porém, o próprio aprendizado, no que se refere a Deus, anula a ideia de imutabilidade, pois aprendizado supõe mudança, de modo que um ser imutável não pode aprender coisas novas, nem desaprender o que já sabe. A imutabilidade está sempre ligada à onisciência.
Em terceiro, e como consequência da argumentação, Deus só pode ser prefeito se existir, eternamente, em Trindade, pois, caso contrário, sua impessoalidade e sua mutabilidade, consequências de uma existência unitária, o tornariam imperfeito. Em outras palavras, não fosse Deus uma Trindade eterna, teria adquirido conhecimento ao aprender a relacionar-se e, dessa forma, sua qualidade de perfeição seria comprometida pela mutabilidade.
Em suma, o fato de Deus ser eternamente subsistente em três pessoas divinas é uma necessidade para sua pessoalidade, pois é no relacionamento interpessoal que os caracteres da pessoalidade podem ser afirmados. Um Deus não-triúno não poderia ser um Deus pessoal. Da mesma maneira, somente uma Trindade eterna pode ser defendida como um Deus imutável pois qualquer conhecimento adquirido em relacionamento implica em mudança. Por fim, isso mostra que apenas um Deus triúno pode ser um Deus perfeito, uma vez que a mutabilidade implica em imperfeição.