Clóvis de Barros, Mário Sérgio Cortela e Leandro Karnal são, hoje, as maiores representações, no nível popular, do que é ou deve ser um filósofo.
Eles estão na grande mídia e ministram cursos em universidades, além de pipocarem ad nauseam nas prateleiras de "filosofia" das livrarias. O mercado editorial os adora porque o grande público, completamente alheio à Filosofia e débil na articulação das mais rudimentares categorias de pensamento, os adora outrossim.
Mas eles não são filósofos. Nem de longe. O sorridente e patético trio de gurus da auto-ajuda não reconheceria um filósofo de verdade nem que este lhes socasse a testa com um grande anel ornado com a palavra filosofia em alto relevo.
Na verdade, eles exemplificam vividamente os predicados raso, estúpido, carente e, de especial modo, farsante.
Uma boa ilustração disso pode ser recrutada com o seguinte trecho de uma entrevista na qual Antônio Abujamra pergunta a Clóvis de Barros, por três vezes, o que é a vida. Clóvis, por duas vezes e vacilante como um estagiário, arrisca respostas diferentes, uma mais desesperada que a outra. Na terceira vez, mal disfarçando a própria incapacidade de responder a contento e emulando, quase involuntariamente, um sorriso de perplexidade, tem o seu silêncio interrompido pelo entrevistador, que encerra ali mesmo o programa.
https://youtu.be/ICjwBRDm2lA
Qualquer cristão responderia, imediata e intuitivamente, o que é a vida. Qualquer cristão! Mesmo os menos estudados. Mas Clóvis de Barros, um dos ícones da "filosofia" mainstream no Brasil, não soube responder, a despeito de seu vasto repertório de slogans genéricos e bregas, típicos dos discursos espiritualistas atuais.
Olavo de Carvalho, com a perspicácia aguda que retém um verdadeiro filósofo, sintetiza bem o caráter do trio. Ele disse em um de seus posts no Facebook:
"Nunca vi o Leandro Espiritual [Karnal], o Clóvis de Burros [de Barros] ou o Mário Sérgio Costeleta [Cortela] discutindo uma só questão filosófica. Só questões de etiqueta. Examinem e verão que é exatamente isso. Nada mais.
Notem bem. A trinca não ataca jamais questões de realidade, apenas profere juízos de valor, e ainda assim sem jamais problematizar os fundamentos racionais e existenciais dos valores escolhidos, mas tomando apenas como critério final e indiscutível, ao qual os três procuram se amoldar da maneira mais simpática e risonha possível, o gosto da platéia e as opiniões predominantes da mídia. Se isso é filosofia, uma galinha d'angola é um leão enfurecido.".
Pois bem. Clóvis de Barros, na referida entrevista, não soube responder o que é a vida. Se ele simplesmente respondesse um "não sei", não deixaria de ser ridículo, mas também mereceria alguma piedade. Talvez até alguma empatia profissional. Contudo, ao invés de reconhecer a própria ignorância, Clóvis buscou preencher o vazio com rascunhos trêmulos e rasos, que poderiam muito bem ter sido retirados de biscoitos da sorte servidos em restaurantes chineses.
Clóvis de Barros, Mário Sérgio Cortela e Leandro Karnal não são filósofos. Eles são, na melhor das hipóteses, palestrantes motivacionais reprodutores do que o mais cafona besteirol Nova Era poderia oferecer.
Flávio Bolsonaro e sua renúncia em apontar o óbvio: Baixa Cultura chama-se baixa porque ... é baixa!
00:05Deixando de lado uma análise pormenorizada sobre as tacanhas perguntas elaboradas pelas entrevistadoras, e deixando de lado as inúmeras brechas que poderiam ser aproveitadas pelo candidato para desmoralizá-las com respostas que as expusessem em sua abjeta visão de mundo, algo de suma importância ficou patente: a constrangedora [e certamente falsa] neutralidade de Flávio Bolsonaro ao responder sobre o tema da cultura. Explico.
Em dado momento, a entrevistadora direcionou o diálogo para o tópico da cultura e Flávio, expondo a necessidade de fomentar a Alta Cultura na cidade do Rio de Janeiro (necessidade indiscutível, diga-se, e não apenas no Rio), foi, em seguida, inquirido pela boçal Mariana Gross sobre a possibilidade de sua declaração acerca de uma Alta Cultura não subentender a existência de uma Baixa Cultura e, por extensão, de uma hierarquia de valores estéticos que poderia ofender os adeptos de uma cultura mais pobre.
Veja o trecho da entrevista:
Mariana: Candidato, só para gente entender. No seu governo, o senhor diz que existe alta cultura. Então, faz acreditar que exista média cultura...
Flávio: Isso são concertos...
Mariana: E baixa cultura.
Flávio: Não...
Mariana: Se tem alta, tem baixa, tem média. Então pergunto para o senhor: o que é média cultura?
Neste ponto, Flávio, nitidamente acuado, começa a se embrenhar em suas respostas em uma triste tentativa de evitar a conclusão da existência de uma cultura inferior:
Flávio: Não tem esse escalonamento, Mariana. A alta cultura a que eu tô me referindo...
Mariana: Não? Então baixa, baixa cultura?
Flávio: São eventos de música, de teatro, que a gente tem de trazer de volta para o nosso calendário permanente.
Mariana: Tá, essa é a alta. E a baixa cultura?
Flávio: Não é baixa cultura. É a cultura mais popular que se diferencia disso.
Mariana: A cultura popular é mais baixa, é isso?
Flávio: Olha só, Mariana, não é você querer fazer uma descriminação do evento de música, de orquestra sinfônica...
Mariana: Candidato, a cidade tão rica culturalmente, o senhor usar essa nomenclatura, usar alta cultura...
Flávio: Eu quero levar cultura para lá.
Mariana: Não é de forma elitizar?
Flávio: Elitizar? Pelo contrário. Eu quero mesclar. Eu quero que as pessoas mais carentes, os estudantes de escolas públicas conheçam essa cultura, essa alta cultura a que eles não tenham acesso. Só que tem dinheiro tem acesso. É disso que eu tô falando.
Pois bem...
Que bela oportunidade Flávio perdeu de defender a existência objetiva de uma hierarquia de valores na cultura!
Honestamente, não podemos afirmar com certeza se Flávio Bolsonaro tem uma visão relativista sobre a cultura ou se ele apenas não quis ser assertivo em sua perspectiva absolutista e sofrer as consequências de um ataque midiático. Tendo a acreditar na segunda opção em virtude dos posicionamentos absolutistas de seu pai e irmãos sobre valores em outras esferas, como a ética, por exemplo. E se assim for, é realmente lamentável que Flávio, um dos raros políticos de honra e valores conservadores existentes no Brasil, tenha se recusado, por questão de opinião pública (leia-se "opinião esquerdista"), a estampar o óbvio e, ao mesmo tempo, levar o ônus da irracionalidade à sua entrevistadora.
Em outras palavras, Flávio poderia ter defendido com firmeza a ideia de Alta Cultura - que NADA tem a ver com "grandes eventos", mas que tem TUDO a ver com uma estética elevada, que reflete padrões universais e eternos de beleza - expondo a baixeza e o caráter grotesco das expressões culturais mais populares, como o funk carioca ou o sertanejo universitário [2], por exemplo.
Flávio, ainda que não recrutasse explicitamente argumentos teístas, poderia, mediante outras categorias, advogar a existência de uma Alta Cultura contrastando-a às expressões estéticas da matiz progressista, construída, literalmente, com excrementos, urina, vômito, imoralidade e ilustrações repugnantes que simbolizam propriamente sua cosmovisão.
Flávio poderia simplesmente obrigar Mariana a responder qual dos dois autores, Mozart ou Valesca Popozuda, produz obras de maior qualidade e escancarar, dessa maneira, a debilidade da entrevistadora e de todos os que empregam a subversão como vetor de premissas filosóficas.
Que bela oportunidade Flávio perdeu de acentuar o contraste entre si mesmo e seus oponentes na candidatura fazendo ressaltar exatamente aqueles predicados que o separam da esquerda.
A renúncia de Flávio em estampar o óbvio nos apela à guarda e à apologia dos princípios elementares e absolutos para a experiência humana transcendente: "[…] pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor" (Sb 13.5).
Notas e referências
1. G1. Flávio Bolsonaro é entrevistado um RJTV, 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/noticia/2016/09/flavio-bolsonaro-e-entrevistado-no-rjtv.html>. Acesso em: 26 de set. 2016.
2. Estilos musicais que, além de exibirem uma técnica ridiculamente fraca, com suas letras banalizam o sexo e desvelam como modus vivendi ideal a mediocridade regada à cachaça.
Hoje estava conversando com uma garota cristã muito legal. Ela está terminando a sua faculdade de design de moda e resolveu me perguntar sobre a possibilidade de Deus estar realmente interessado na maneira como alguém se veste. "Há uma forma cristã de alguém se vestir?", creio ter sido o enunciado do problema levantado por ela. E como achei a indagação muito pertinente, aproveito a deixa para transformar minha resposta em um breve artigo.
Talvez esta garota não soubesse disso, mas a questão subjacente ao problema exposto tem a ver com a existência de absolutos. Seja lá qual for o jargão recrutado, o que importa é ter em mente o Deus bíblico e sua vontade revelada como justificativa para a afirmação de quaisquer padrões.
É muito fácil falarmos em uma ética cristã ou universal. Também não soa dissonante falarmos em uma epistemologia cristã ou uma metafísica cristã. Estes temas estão em voga no ambiente acadêmico cristão e, de certa maneira, alcançam todo o público mediante a literatura disponível. Todavia, quando falamos em uma ESTÉTICA cristã, não deixo de notar espanto e desconfiança no interlocutor. Uma estética cristã pressupõe valores estéticos universais, o que, por si só, já desperta animosidade nas mentes pluralistas e anti-intelectuais de nosso tempo. Porém, a situação se agrava ainda mais quando não apenas afirmamos os valores estéticos universais que subjazem à uma possível estética cristã, mas também a qualidade revelada de tais premissas.
Por que é tão difícil falarmos a respeito de uma estética cristã? Por que o terreno da estética é tão arenoso quando comparado aos outros temas da preocupação filosófica? Não temos problemas em admitir uma metafísica ou ética cristãs, como dissemos, mas por que, quando o assunto é orientado para a estética, adquire contornos tão delicados?
Embora eu possa arriscar algumas respostas [1], elas não são minha maior preocupação, que permanece sendo o problema entrevisto e enunciado previamente: pode existir, de fato, uma estética cristã? E a resposta é: sim, pode ... e existe!
Em primeiro lugar, não faz sentido supormos que todas as áreas da filosofia sejam objeto de interesse na mente de Deus, conforme sua revelação cristaliza, mas, ao delimitarmos a estética, nenhuma preocupação divina seja evidenciada, ainda que remotamente. Por que Deus não estaria preocupado com a estética?! A Escritura nos ensina, por meio do que chamamos de "mandato cultural", que Deus está interessado em TODAS as áreas da vida e pensamento humanos. É uma distorção medieval neoplatônica pensarmos que existe uma esfera de interesse divino - a esfera religiosa - e outra esfera com a qual Deus não interage ou não se interessa em interagir - a esfera de assuntos seculares ou não-religiosos. Tal dicotomia é falsa, herética e perniciosa, e Deus está profundamente interessado na TOTALIDADE da vida humana, que vive e existe sempre diante de Deus (coram Deo). Portanto, é mais do que razoável admitirmos que a estética, como um sítio do pensamento humano, é alvo do interesse divino. Logo, esta área da filosofia encontra terreno na mente e revelação divina, e, por consequência, a atividade filosófica cristã deve ecoar tal interesse.
Em segundo, a estética trata do que é belo. Pergunto: que outro parâmetro final pode existir para justificar a beleza, senão Deus? Se os ateístas tivessem razão e a realidade fosse resumida à matéria, então a noção de "belo" seria um absurdo filosófico. Aliás, não existiria filosofia. De que maneira uma cosmovisão materialista poderia dar suporte à noção de belo? Se tudo é material (materialismo), não há nada extra-material que imprima qualidades estéticas a um ou outro objeto de análise. As coisas não seriam bonitas ou feias, elas seriam apenas coisas, sem predicados estéticos. Contudo, a Bíblia diz que existe o material e o imaterial, e que a natureza bela de Deus e seus atributos (Sl 29.2; Is 9.6) não só justifica a beleza mas permite reconhecê-la nas obras de criação e redenção como extensões ou impressões desta perfeição divina. O Salmo 75.1 diz: "A TI, ó Deus, glorificamos, [...] as tuas maravilhas o declaram"; e o Salmo 139.14 diz: "[...] maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem".
Em terceiro lugar, como se não bastasse o fato de Deus ser belo em suas perfeições, tal beleza ser amplamente reconhecida na criação e viabilizar a reflexão estética, o próprio Deus, em sua Palavra, nos encoraja a refletir e falar sobre ela. Isto é muito sério, pois significa que o labor filosófico sobre a estética não apenas encontra terreno no pensamento cristão como NÃO DEVE ser relegado ao ostracismo nas discussões filosóficas. Em outras palavras, nós devemos pensar sobre o assunto, redimí-lo à luz das Escrituras levando cativo TODO o entendimento (inclusive a estética) à obediência de Cristo (2Co 10.5). Abraham Kuyper (1837-1920), em uma de suas palestras, disse uma frase que se tornou famosa:
“[...] não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é o Soberano sobre tudo, não clame: 'é Meu!'”
Portanto, a estética deve ocupar as preocupações filosóficas dos homens e, sobretudo, dos filhos de Deus.
Em quarto, e talvez este seja o ponto principal, todas as referências bíblicas ou considerações teológicas mostradas até aqui implicam, necessariamente, na afirmação de padrões absolutos de estética, sem os quais seria impossível aos salmistas declararem, inerrantemente, que as obras de Deus são belas e DIGNAS de serem contempladas. Algo que é digno de ser contemplado não pode ter sua qualidade estética fundamentada em parâmetros subjetivos pois, assim fosse, algumas pessoas seriam capazes de cumprir esta contemplação enquanto outras não. Mas o apelo estético da revelação geral (bem como seu apelo metafísico) é dirigido a todos os homens. Assim, todos os homens deveriam ser capazes de reconhecer a beleza na criação, ainda que não atribuam tal beleza ao Deus Criador, de modo que, podemos inferir, a beleza é um valor objetivo ou, ao menos, não é tão subjetivo quanto costumamos supor.
Deste modo, podemos concluir que há, sim, uma estética cristã. Assim como as outras esferas da discussão filosófica, ela é caracterizada por valores absolutos e objetivos [2]. Ademais, ela é tão absoluta que, conforme nos mostra a Palavra de Deus, é passível de ser estruturada e discutida.
O ponto aqui é: todas as áreas da vida e pensamento humanos existem diante da face e dos interesses de Deus. Não há uma esfera sequer sobre a qual Deus não reivindique autoridade. Sendo assim, todas as áreas da vida e do pensamento humanos ... todas! ... devem ser resgatadas das elocubrações fúteis e carnais, e devem ser submetidas e reorientadas ao senhorio de Cristo (Cl 2.8) segundo a revelação especial de nosso Senhor, que está plena e infalivelmente expressa na Escritura Sagrada. Em outras palavras, não apenas há uma estética a ser pensada, mas há, de fato, uma estética cristã revelada.
Notas
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1. Creio que um dos motivos pelos quais a afirmação de uma estética cristã seja tão indigesta na mentalidade comum resida na aversão a absolutos cultivada e disseminada sistematicamente pelo marxismo cultural. Outro motivo - este mais concentrado no próprio cenário cristão - pelo qual uma estética cristã seja tão impopular jaz na escassez de informações bíblicas diretas sobre o assunto. A Escritura fornece princípios de estética, mas não fórmulas prontas. Entretanto, creio que a maior razão seja o fato de que, por muito tempo, os valores estéticos têm tido qualquer fração de sua objetividade subtraída em função de uma exagerada parcela de subjetividade. As pessoas simplesmente imaginam que, quando se trata de "belo" e "feio", não existe objetividade alguma, mas somente opiniões subjetivas.
2. É claro que não ignoro a dificuldade latente em delinearmos todos os parâmetros para uma estética biblicamente orientada. A Escritura, como disse, não nos apresenta fórmulas prontas, padrões de cores, formas e sons cujas combinações resultem na construção do belo. Todavia, a Escritura nos fornece princípios que podem nos orientar neste sentido. Neste ponto, que excede minha expertise, prefiro confiar na graça de Deus atuando sobre os verdadeiros artistas para que produzam o belo e Deus seja glorificado.