Congruências entre teologia e filosofia

17:14

[Trecho de uma das aulas que ministro em meu curso Teologia & Filosofia]

Alguns indícios de que a teologia e a filosofia convergem entre si são cristalinos para aqueles que já tiveram algum contrato com qualquer uma dessas disciplinas. Tanto uma quanto outra dispendem grande esforço de abstração; ambas concentram sua energia no nível teorético do método; ambas, aliás, empregam mecanismos em comum em seus métodos; ambas buscam, como ventilou Aristóteles, as “causas últimas”; e ambas buscam a verdade. Esses são alguns dos vértices imediatos de congruência entre a teologia e a filosofia.

Entretanto, a verdadeira congruência entre ambas as disciplinas solidifica-se em um nível muito mais profundo. A tradição filosófica grega, desde Sócrates, movimenta esforços para encontrar a verdade. A dialética socrática, por exemplo, articulava-se no sentido de extrair a verdade. Perguntas como “O que é a virtude?” e “O que é o bem?”, entreviam o esforço dos filósofos para aquiescer à verdade e à moral absoluta. Mas há algo a ser discernido no meio deste esforço aparentemente honesto: a afirmação de autonomia. Os filósofos da tradição grega buscavam essas respostas à despeito do testemunho interno (Revelação Geral) que tinham acerca de Deus, de sua Lei, de seu senhorio e soberana majestade. O texto de Romanos, no primeiro capítulo, expõe o status moral por trás deste esforço em descobrir a verdade de forma autônoma:

"Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. … E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;" (Rom 1:18-23,28).

E ainda:

"Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os; No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho." (Rom 2:12-16).

Estes textos bíblicos são muito objetivos em mostrar os vetores morais da epistemologia. Eles mostram que, embora a verdade de Deus seja clara, o homem natural, movido pela rebeldia do pecado, sufoca essa verdade e outras ligadas a ela, e, fazendo isso, os homens detém a verdade em mentira, em injustiça. E mostra ainda que os homens não têm desculpas diante de Deus, pois a revelação do Senhor é de tal modo nítida que somente não a enxerga como tal quem não quer. E eis a disposição do homem caído: ele não quer enxergar a verdade. Ele tem acesso a ela e, inclusive, um impulso interno que para ela aponta, mas ele escolhe sufocar este testemunho para que não glorifique a Deus.

A relação dessa base para a epistemologia cristã com a tradição filosófica grega torna claro o esforço filosófico dos gregos para chegar à verdade e à virtude de forma autônoma, ou seja, a parte do Deus verdadeiro que dá nome a essas coisas. Se Deus é a realidade última e se ele é quem pode determinar o que é a virtude, qualquer empreendimento de buscar essas coisas sem o dono e inventor delas é um exercício pecaminoso.

Ora, é essa conclusão que nos permite indicar a verdadeira convergência entre teologia e filosofia. Para o povo de Deus, que tem a sua revelação como princípio de conhecimento, a Palavra de Deus é a fonte de toda a sabedoria. De fato, a Palavra de Deus é a própria sabedoria: "Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento." (Prov 2:6).

Ademais, uma vez que o Cristo é a perfeita expressão de Deus e Sua plena revelação, a sabedoria na teologia encontra a sua dimensão metafísica no próprio ser de Deus, em Jesus Cristo (1Co 1.24). Isso significa que, do ponto de vista da tradição filosófica grega (que não pressupõe a revelação de Deus como verdade anterior), há alguns locais comuns entre a teologia e a filosofia, pontos já listados no início deste tópico. Porém, a partir da perspectiva do cristianismo (que tem a revelação de Deus e Jesus Cristo como pressupostos inegociáveis), teologia e filosofia são a mesma e única coisa! A mesma e única tarefa. A mesma e única expressão do saber humano. Isso porque, se a filosofia é a amizade para com a sabedoria e orienta-se pela busca da verdade, então somente o cristianismo pode ser considerado a verdadeira filosofia pois só o cristianismo cumpre esses requisitos.

Desse modo, mesmo desconsiderando a fé cristã existem pontos de ligação entre as disciplinas em análise. Contudo, considerando a fé cristã (e, para o cristão, a opção de desconsiderá-la é inexistente), a teologia e a filosofia são sinônimos. Se, no esforço teológico, a Escritura é empregada como principal fonte e dela são extraídas as doutrinas da teologia, no esforço filosófico a mesma Estrutura é empregada como principal fonte para fornecer a matéria-prima das doutrinas filosóficas. Em outras palavras, para o filósofo cristão, não existe especulação vazia, desordenada e, sobretudo, autônoma. Antes, para o filósofo cristão, existe Cristo, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.3), e existe a palavra escrita de Deus, que dá testemunho de Cristo (Jo 5.39).

Portanto, para o filósofo cristão, a Bíblia é o material de coleta para a construção filosófica, de tal maneira que, para ele, teologia e filosofia equivalem: em última análise, ambas são sistemas de pensamento abrangente. Para o cristão, só pode existir um sistema de pensamento, e todos os momentos de verdade encontrados em outros sistemas são, assim, apropriações do sistema cristão.

Em uma de minhas aulas, eu disse certa vez:

Embora haja o que podemos chamar de "tradição filosófica grega", se partirmos dos pressupostos bíblicos, não existe filosofia sem Cristo, que é o início e o fim dela, pois ele próprio é a sabedoria. Foi isso o que quis dizer com a ideia de que, para a teologia, a filosofia e a teologia se constituem na mesma disciplina e na mesma tarefa. [...] é claro que os filósofos gregos disseram muitas verdades e propuseram muitos ensinos úteis! Mas isso só porque essas verdades e ensinos refletiram, pela graça de Deus, as verdades cristãs. Então há neles o que podemos chamar de "momentos de verdade", mas, como diria o filósofo cristão Van Til, são verdades, mas verdades roubadas do cristianismo.


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