Teofanias no Antigo Testamento

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Em contraste às mitológicas interações retratadas entre os deuses e os humanos nas religiões pagãs, o Deus das Sagradas Escrituras, ao longo do tempo, vividamente evidenciou estruturas de um relacionamento pessoal para com a humanidade. Diversas foram as maneiras pelas quais o Deus bíblico se revelou ao homem, no entanto, apesar da grandiosidade de suas revelações naturais e especiais, o Senhor, por vezes, revelou-se ao seu povo de forma ainda mais enfática.


Houve momentos em que Deus, a fim de transmitir mensagens especiais aos seus escolhidos, em momentos decisivos da história da redenção, optou por revelar-se ao homem rompendo modelos habituais de contato e auto-revelação, e estabeleceu uma comunicação muito mais próxima, divorciada das leis naturais e imbuída no sobrenatural. Essas distintas interações entre o Criador e sua critura ficaram conhecidas como teofanias.


A natureza das manifestações teofânicas


Popularmente se tem definido as teofanias simplesmente como aparições encarnadas ou visíveis de Deus, geralmente restritas ao Antigo Testamento [1]. Contudo, a natureza das manifestações teofânicas é bem mais abrangente, e não se restringe aos termos da definição popular. Em primeiro lugar, o Novo Testamento também relata teofanias (embora as teofanias neotestamentárias não sejam o foco desse artigo). Em segundo, subjaz ao significado da palavra "teofania" um fenômeno cuja qualidade parece compreender muito mais.


A palavra teofania vem do grego theopháneia, que, mediante a união de dois vocábulos, theos (Deus) e phaínein (aparecer), define-se como "manifestação de Deus". Essa definição trás, obviamente, um conceito desconfortavelmente vago; e infelizmente, ele é. Isso porque, por "manifestação de Deus", uma grande variedade de fenômenos pode incluir-se como ilustração. Até mesmo a outorga sobrenatural de sonhos proféticos à determinado personagem bíblico pode, nesse caso, ser chamada de teofania (e.g. Gn 20.3-7). Porém, estudiosos como R. N. Champlin têm demonstrado, mediante um criterioso estudo do Antigo Testamento, que as manifestações teofânicas, em sua forma mais completa, são geralmente acompanhadas de certos elementos característicos [2], de forma que tipos de manifestações como sonhos ou visões são, por assim dizer, revelações parciais ou incompletas.


De modo geral, há textos veterotestamentários que mostram manifestações teofânicas ligadas a fenômenos naturais, encontrados, por exemplo, em Êx 3.2-6 e 20.18. Em outros textos, como nos de Êx 23.20-23 e Is 63.9, manifestações teofânicas na forma do personagem anjo do Senhor são narradas. A maioria das referências, no entanto, trás em comum um ou alguns dos seguintes elementos:


Temporaneidade. As aparições de Deus serviam a um propósito específico e, tão logo esse propósito era alcançado, o Senhor se retirava;


Salvação e julgamento. As aparições de Deus eram frequentemente realizadas para fins de libertação de seu povo e, às vezes, para fins de julgamento;


Atribuição de santidade. Os locais nos quais Deus aparecia tornavam-se, temporariamente, locais santos;


Parcialidade das revelações. Os humanos não são capazes de contemplar Deus em sua totalidade, logo, os vislumbres de Deus e/ou sua glória sempre mostraram-se parciais.


Resposta temerosa. Uma vez que os humanos se davam conta de que presenciavam uma manifestação de Deus, sua resposta psicológica instantânea era o medo;


Mutação no ambiente. As manifestações divinas frequentemente promoviam um distúrbio no ambiente natural em que ocorriam;


Escatologia esboçada. As teofanias permitiram uma antevisão do papel de Deus no fim dos tempos;  


E, por fim, o elemento mais importante:


Palavras teofânicas. O único motivo para as aparições de Deus era a transmissão de uma mensagem; Deus só aparecia por ter a intenção de transmitir uma mensagem específia.


Assim, as teofanias, em sua forma mais completa, apresentam-se com uma grande riqueza cenográfica. Obviamente não são em todas as narrações de teofanias que esse elementos estão, ao mesmo tempo, presentes, mas, definitivamente, é possível identificar um padrão nos grandes eventos teofânicos. Portanto, como podemos ver, a natureza das manifestações teofânicas no Antigo Testamento não pode ser cerceada pelas definições populares de teofania, de forma que uma completa definição de "teofania veterotestamentária" deveria comportar a realidade audível da manifestação, sua temporaneidade e, principalmente, seu propósito.


Exemplos de acontecimentos teofânicos


Embora diversos textos narrem fantásticas ocorrências teofânicas, cabe-nos ilustrar esse fenômeno por meio de acontecimentos significativamente distintos, dentre os quais selecionamos a perícope de Gênesis 16.7-13, de Êxodo 19 e de 1 Reis 19.9-19. A primeira passagem mostra uma teofania na forma do anjo do Senhor, figura que discutiremos mais adiante. A segunda narra um grande distúrbio na natureza devido à presença de Deus e a terceira contraria toda a expectativa do profeta Elias acerca de como a presença do Senhor deveria se configurar.


O trecho de Gênesis 16.7-13 nos aponta uma típica manifestação teofânica: a figura do anjo do Senhor. Nesta passagem o anjo de Javé encontra Agar (escrava de Sarai) no deserto e, em uma demonstração de graça divina (v.11), a instrui a retornar à sua dona e humilhar-se (v.9), uma vez que, legalmente, a criança pertencia a Abraão. O texto, no versículo 13, identifica o anjo com o próprio Deus, embora outros indícios do caráter sobrenatural do ser que a abordou já tivessem sido demonstrados, como no momento em que ele a chama pelo nome sem a conhecer (v.8), e em seu discurso profético (vv.10-12). A indagação de Agar no versículo 13 pode sugerir temor, uma vez que sua frase pode ser interpretada em outros termos: "Será verdade que eu vi Deus e, depois dessa visão, ainda estou viva?".  


Por sua vez, a perícope de Êxodo 19 caracteriza-se como uma das mais vislumbrantes narrações bíblicas de teofania que dispomos. Nessa passagem, um cenário perturbador é descrito sendo claramente associado à magnitude da presença divina. A narrativa se inicia com intruções iniciais de Deus à Moisés que diziam respeito à consagração individual de cada pessoa, sem a qual seria impossível presenciar o momento que haveria de vir (vv. 10-15). Por fim, a tenebrosa manifestação de Deus é descrita em meio à trovões, raios, fumaça, núvem, fogo e som de trombeta (vv.16-19). A reação dos presentes foi, novamente, de terror (vv. 18-19). Aqui, claramente a teofania ocorre em meio a fenômenos naturais; há a indicação da santificação do local em que ocorre; a manifestação é audível e, obviamente, o pronunciamento de palavras teofânicas torna-se o cume da manifestação.


Finalmente, a passagem de 1Reis 19.9-19 mostra o profeta Elias em uma caverna no Sinai (talvez a mesma na qual Moisés se refugiou durante a aparição divina de Êx 33.22). Nessa circunstância, diferentes distúrbios naturais ocorrem como precursores da presença de Deus. Porém, Deus não estava nesses fenômenos (vv. 11,12) que, precisamente em Êxodo 19, caracterizaram a presença divina. Com efeito, Deus falou a Elias mediante um "sussurro", ou um "murmúrio de uma brisa suave" (vv. 12,13). Embora seja comum a interpretação de que tal suavidade representa o agir de Deus, os vv. 15-17 parecem contrariar essa ideia. Portanto, a suavidade do "murmúrio" pode simbolizar, na verdade, a intimidade do trato de Deus para com seus profetas. Tal intimidade, então, não precisa necessariamente trazer a ideia de suavidade. O fato de Elias ter coberto o rosto diante da presença divina (v. 13) pode, antes, indicar sua consciência temerosa ligada à magnitude da presença de Javé.


O anjo do Senhor


Nenhum estudo que mencione "teofanias" deveria ser empreendido sem considerar especificamente o enigmático personagem anjo do Senhor. Este ser, que na literatura hebraica é frequentemente confundido com o próprio Deus, tem sido um típico representante dos eventos teofânicos, de modo que uma correta definição de sua natureza pode ser de grande valia para o estudo das teofanias.


O anjo do Senhor é, por vezes, indiscriminadamente qualificado como uma pré-encarnação de Cristo; e as passagens em que este personagem aparece costumam ser citadas como textos-prova para a doutrina trinitária. No entanto, apesar da antiquíssima tradição cristã em interpretá-lo dessa forma, a abordagem que se seguirá mostrará que tal interpretação não deve necessariamente constituir-se em um dogma.


É verdade que muitos exegetas consideram o anjo do Senhor uma pré-encarnação da segunda pessoa. Alguns, inclusive, sequer enxergam outra opção para a identidade desse personagem, e a obra norte-americana The Dictionary of the Bible sintetiza a teologia por trás dessa linha de interpretação.


Em exposição sobre o verbete "Anjos", o Dictionary of the Bible diz: "Deve ser observado também, que, lado a lado com essas expressões ['anjo de Javé', 'Javé' e 'Deus'], nós vemos Deus sendo manifestado em forma de homem [...] já que nós sabemos que 'nenhum homem viu Deus' (o Pai) 'em qualquer tempo', e que 'o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou' (Jo 1.18), a inferência inevitável é que o 'anjo do Senhor' nessas passagens se refere a Ele, que é, desde o princípio, o 'Verbo' [3].


Evidentemente, portanto, essa maneira de concebermos a figura do anjo de Javé é antiga e conta com muitos defensores. Contudo, é fato que para um responsável estudo das teofanias no Antigo Testamento, o assentimento de que as laudas veterotestamentárias componham uma coleção de documentos cuja teologia foi, aos poucos, sendo erigida, é necessário.

Buckland nos diz propriamente que "não achamos uma Teologia no A.T.; achamos uma religião [...]. Somos nós próprios que fazemos a Teologia, quando damos a essas ideias e convicções religiosas uma forma sistemática ou metódica. Portanto, o método deve ser histórico" [4]; e Westermann corrobora com a assertiva: "Não existe diferença [no Antigo Testamento] entre história e religião; Deus é a realidade e a realidade é Deus" [5].


Logo, ao abordarmos exegeticamente os textos do Antigo Testamento, é preciso levar em consideração sua historicidade em cujo bojo repousa uma teologia primeva, a teologia dos povos orientais dos primeiros milênios antes de Cristo; além disso, faz-se necessário conhecer os costumes daqueles povos, costumes que se mostram maravilhosamente retratados em seus documentos.


No Antigo Oriente Próximo, qualquer mensageiro real era tratado como um substituto do rei. Podemos ver exemplos dessa prática nos textos de Jz 11.13; 2Sm 3.12,13; 1Rs 20.2-4. Estes textos bíblicos mostram, inclusive, que os mensageiros falavam em nome dos reis, e falavam na primeira pessoa. Sendo o ser angelical um mensageiro de Deus (anjo, no hebraico, significa "mensageiro"), nada seria mais natural que essas criaturas, ao executarem as tarefas por Deus designadas, falassem em nome de Deus e portassem sua autoridade. Em última análise, poderíamos também concluir que, sendo designados por Deus para o cumprimento de tarefas extraordinárias, os anjos fossem especialmente capacitados com poderes para executar tais tarefas.


Assim, podemos ver que, embora alguns estudiosos concluam que o anjo do Senhor seja uma manifestação pré-encarnada de Cristo, "outros acreditam que ele é estreitamente identificado com Deus por ser o representante de Deus" [6]. Isso justificaria o fato de, em várias ocasiões, ele ser identificado com Deus enquanto, de alguma forma, mostra-se distinto dele (Gn 18.1-21; Jz 5.23; Ml 3.1).


Portanto, a usual interpretação do anjo do Senhor como uma "cristofania" não se constitue em uma verdade irrefutável, embora possa, em certo sentido, continuar estabelecida como um tipo de manifestação teofânica.


Finalmente, resta-nos enfocar o elemento mais importante nas ocorrências teofânicas: a razão de tais manifestações.


A importância das teofanias   

      

A razão das ocorrências teofânicas, como pode-se deduzir, não estava ligada à satisfação da curiosidade humana com relação ao transcendental, nem à meras retratações visuais de manifestações divinas. O principal motivo que ensejou os eventos teofânicos foi a necessidade de Deus em chamar a atenção do homem para as mensagens que acompanhariam as manifestações. A ênfase das teofanias nunca foi seu aspecto visual, mas sua mensagem.


A "própria Bíblia nunca [se] dá ênfase à maneira da manifestação divina sob a forma de teofania" diz Champlin, e prossegue: "O que ali importa é o que Deus fez e disse. Normalmente, a teofania visa a dar uma mensagem ao passo que a forma visível meramente atrai e fixa a atenção. [...] Os aspectos físicos estão ali a fim de magnificar e autenticar a revelação, mas esta  última é que realmente importa" [7].


Portanto, a depeito do quanto nos empenhemos em estudar e sistematizar os eventos teofânicos, o que realmente importa neles é a mensagem que está sendo transmitida. Deus, em sua sabedoria e soberana determinação, optou por revelar-se contundentemente ao homem por meio de manifestações extraordinárias (e, às vezes, terríveis) a fim de que, justamente pelo impacto de tais manifestações, sua mensagem fosse entendida, guardada e registrada com um único fim: tornar o homem sábio para a salvação por meio da fé em Cristo Jesus (2Tm 3.15).




Notas


[1] Bible.org, OT Theophanies.

Disponível em: http://bible.org/illustration/ot-theophanies (acessado em julho de 2012).


[2] Embora Champlin, em sua obra Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 6o volume, dissertando acerca do verbete "teofania", a defina como "[...] alguma manifestação visível de Deus", desenvolve o conceito trazendo outros elementos para a discussão.


[3] SMITH, William (ed.). Dictionary of the Bible. New York: Fleming H. Revell Company, 1998, pg 46.


[4] BUCKLAND, A. R. Dicionário Universal, São Paulo: Vida, 2a edição, 2007, pg 39.


[5] WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Academia Cristã, edição de 2005, pg 20.


[6] BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2a edição, 2009, pg 1198


[7] CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Candeia, 4a edição, 1997, 6o volume, pgs 463, 464.



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