Pode Deus ser soberano e, ao mesmo tempo, exigir obediência de suas criaturas?

13:05


"Se Deus pré destinasse as ações humanas não seriam necessárias exortações, e a Bíblia está repleta delas!".

Essa é uma afirmação que ouço frequentemente de quem não gosta da doutrina dos decretos segundo o pensamento reformado, de quem não a entende ou de quem simplesmente se incomoda com a existência de um Deus que interage com sua criação dirigindo-a segundo o seu propósito ao invés de deixá-la movimentar-se ao impulso da contingência.

Muitos dos que afirmam frases como essa também não gostam de pensar em um Deus deste tipo pois este modus operandi faria dele um Deus "controlador", transgressor do arbítrio humano, e isso é inconcebível para muitos. Um Deus que rege sua criação DETERMINANDO o curso de cada uma das partes dela e, inclusive, as vontades de suas criaturas inteligentes, pode assemelhar-se a um "deus violador" (me desculpem a força do termo, mas estou amenizando o peso da analogia que já ouvi) e o resultado de tal ação imanente pode igualar-se ao que os filósofos chamam de fatalismo.

A doutrina dos decretos de Deus afirma, em poucas palavras, que Deus decretou todas as coisas, inclusive o mal, desde a eternidade; não somente os acontecimentos finais que se conformem à Sua vontade última, mas cada meio e processo pelos quais o Senhor atua em sua criação, conduzindo-a segundo seu propósito soberano. Os decretos são imutáveis pois erguem-se a partir de um Deus imutável, e compõem, em última análise, um só decreto eterno que engloba todas as coisas. Deus diz em Isaías: "... Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará" (Is 14.24) e Paulo afirma que Deus "faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Textos bíblicos como estes, entre tantos outros por toda a Escritura, apontam e elucidam a doutrina pela qual afirmamos a absoluta soberania de Deus e seu absoluto controle sobre sua criação.

Diante disso, confesso minha dificuldade em entender o repúdio dos referidos inquiridores pelo ensino de que a soberania de Deus atinge completamente a todas as coisas. Não pode haver outra forma plausível por meio da qual Deus se relacione com sua criação senão através de uma direção positiva, deliberada, poderosa, teleológica (que visa a propósitos pré-definidos) e soberanamente controladora; sim, controladora. Porém, tentarei elencar algumas objeções trazidas à doutrina bíblica de que Deus decreta não somente o curso da história como opera nas vontades de suas criaturas racionais, persuadindo-as segundo o beneplácito de sua soberana vontade.

Uma das objeções, como antecipamos, é a de que uma influência absolutamente controladora como esta que defendemos resultaria em um "fatalismo teísta". Mas isso é totalmente falso e facilmente refutado. Na doutrina filosófica do fatalismo, o que determina o curso da história é o acaso ou uma certa "inteligência" cega e impessoal. Na doutrina bíblica, Deus, um Ser pessoal, poderoso, amoroso e inteligente é quem determina os rumos da história de acordo com seus propósitos (Sl 33.9; Jó 23.13,14). No fatalismo, somente os fins são considerados. Na doutrina bíblica, Deus não somente decreta os fins, mas os meios pelos quais os Seus fins são levados à cabo (Ef 1.11) - isso será muito importante logo adiante. Dessa forma, a doutrina dos decretos em nada se assemelha a uma interpretação fatalista sobre a influência de Deus na história. Afirmar o contrário é blasfêmia.

Outra objeção comum que se faz à doutrina reformada dos decretos é que o substrato de suas proposições é incoerente com o livre-arbítrio do homem e faz de Deus o autor do pecado. Com efeito, essa objeção também pode ser refutada. Em primeiro lugar, a Bíblia não afirma que o homem possui livre-arbítrio. Pelo contrário, a Sagrada Escritura mostra claramente o homem como escravo de suas paixões pecaminosas (Ef 2.1-3; Rm 7.14-21). Em segundo, se procurássemos compreender a extensão plena dos decretos divinos em fusão à livre-agência dos homens (qualidade intelectual de o homem tomar decisões, sempre dentro das capacidades e limitações de sua natureza), arrogaríamos nada além de frustração para nós mesmos. Nosso intelecto é finito e imperfeito, e sofre com os efeitos noéticos do pecado. Portanto, não podemos enquadrar a ação divina concebendo-a ou descrevendo-a segundo nossa limitada percepção, mas devemos nos submeter ao que o Senhor nos revela em sua Palavra, e Ele nos mostra que, ao mesmo tempo em que opera nas vontades de suas criaturas racionais (Êx 7.3; Is 6.9,10; At 2.23; 4.28; Rm 9.18), a elas é atribuída a responsabilidade por seus atos, precisamente pelo fato de serem racionais! Lucas, em Atos 2.23 diz que Jesus morreu pelo desígnio eterno de Deus embora a culpa pelo assassinato de Jesus tenha sido atribuída aos judeus (At 3.15), e Tiago 1.13 diz que Deus não tenta ninguém. Em suma, a doutrina dos decretos divinos não interfere no suposto livre-arbítrio humano simplesmente porque este livre-arbítrio não existe; e tal doutrina não torna Deus o autor do pecado porque o mal é operado por agentes morais, racionais e que têm diante de si um amplo testemunho da existência de Deus pelo qual eles são indesculpáveis (Rm 1.20). Se não conseguimos entender de que maneira Deus pode ter decretado todas as coisas e, ao mesmo tempo, não poder ser culpado pelo pecado, devemos calar-nos diante da Escritura e não sucumbir ao desejo de reduzir seu ensinamento às categorias de nosso entendimento.

Há ainda outra objeção à doutrina dos decretos conforme a Bíblia a expõe, e é precisamente aquela que abre a discussão deste artigo: "Se Deus decretasse de antemão todas as ações dos homens, não seriam necessárias as incontáveis passagens bíblicas que nos exortam a tomar esta ou aquela medida, esta ou aquela decisão ou escolher entre este ou aquele caminho". Ora, mais uma vez a própria Escritura responde a esta objeção. Quanto às exortações divinas gerais, dirigidas a todos os homens (eleitos e não-eleitos), Deus aponta sua vontade simplesmente porque lhe é servido (I) reivindicar seus direitos reais e soberanos sobre o pecador, (II) revelar seus atributos e propósitos de uma forma mais específica, translúcida, clara e persuasiva, (III) chamar pecadores ao arrependimento e à fé e (IV) acentuar sua justiça e a condenação dos que, tendo ouvido a pregação da Palavra, rejeitarem o chamado à salvação, ficando ainda mais expostos à ira escatológica de Nosso Senhor.

Contudo, a Palavra de Deus desempenha um papel especial no coração dos regenerados. Ela é instrumento de seu Santo Espírito na santificação, consolo, encorajamento e direcionamento do povo da aliança. Paulo, aos Tessalonicenses, afirma que a Palavra de Deus atua eficazmente nos que creem (1Ts 2.13). Pedro mostra enfaticamente a instrumentalidade da Palavra na transformação do caráter dos crentes (2Pe 1.4). Hebreus nos prova que a Palavra é a única luz objetiva mediante a qual uma pessoa, pela atuação poderosa do Espírito, discerne a si mesma e os fatos de sua existência. Finalmente, Efésios 6.17 diz que a Palavra de Deus é o instrumento pelo qual o Espírito atua em nós. Assim, vemos que não há incongruência alguma entre a realidade dos decretos soberanos e exaustivos de Deus e a existência de constantes apelos e exortações em Sua Palavra. Conforme sublinhamos, Deus decreta não somente os fins, mas os meios pelos quais seus fins são cumpridos. Destarte, podemos afirmar com certeza: Deus decreta todas as coisas e, simultaneamente, nos convoca a obedecê-lo, sendo a própria convocação do Senhor, como Palavra de Sua boca, um instrumento pelo qual Ele opera em nós o querer e o efetuar, segundo sua boa vontade (Fp 2.13). As constantes exortações do Senhor ao seu povo não se antagonizam ao fato de que Ele decretou todas as coisas. São, na verdade, a ferramenta por meio da qual Deus cumpre o seu decreto eterno.

A doutrina dos decretos de Deus, conforme a Bíblia nô-la apresenta, é tremendamente gloriosa e ultrapassa a capacidade humana de perscrutá-la ou sintetizá-la para que se adeque às suas categorias. A postura legitimamente cristã diante desta doutrina deve ser a de afirmar o que diz a Bíblia, ainda que a compreensão acerca dela se mostre limitada e insatisfeita. Como o apóstolo Paulo, digamos apenas: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33).

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