A Soberania de Deus na Eleição e Reprovação

14:55


Algumas pessoas pensam que a ação de Deus sobre o homem visa unicamente a sua salvação. Eles entendem que se o Espírito Santo, como Agente que aplica os méritos de Cristo ao pecador, opera em alguém, essa operação equivale sempre a um apelo no sentido de constranger o pecador ao evangelho de Cristo. Obviamente, essas mesmas pessoas compreendem a salvação como uma oferta direcionada ao homem, mas que pode ser rejeitada pela vontade do mesmo.

Renunciando qualquer pretensão de um comentário exaustivo, vejamos o texto de João 16.8-11 que acredito endereçar esse tema, ainda que mui discretamente. O texto diz:

"Quando ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.". (RAStr).

Neste texto, Jesus diz aos seus discípulos que ele precisa voltar à sua glória celeste, à destra do Pai, para enviar o Espírito Santo ao mundo; e isso de uma forma sem precendente. Antes do pentecostes de Atos 2, a atuação do Espírito sobre as pessoas se limitava a operações pontuais que visavam a determinados fins, de modo que, nos termos veterotestamentários, não era possível sequer mencionar uma habitação do Espírito nas pessoas. Além disso, com algumas exceções segundo o desígnio de Deus, o Espírito, ao atuar soteriologicamente nas pessoas, restringia seu trabalho à comunidade de Israel. Dessa forma, o pentecostes de Atos 2, como cumprimento da profecia de Joel 2.28, se caracterizou como um evento divisor de águas na economia da redenção: a partir daquele ponto (At 2), o Espírito não apenas capacitaria o homem para determinada tarefa e se retiraria depois ("...derramarei o meu Espírito..."), mas também seria outorgado às pessoas de todas as nações ("...sobre toda a carne..."). Trata-se, portanto, de um derramamento inédito na história da humanidade, e qualificado por um modus operandi igualmente inovador.
E o que isso tem a ver com o texto de João 16.8-11?

Primeiramente, as palavras de Jesus sobre a "vinda do Espírito" se referem justamente ao derramamento de Atos 2, ocasião em que o Espírito de Deus - o mesmo que pairava sobre a face das águas nos primórdios da criação (Gn 1.2), e o mesmo que enchia ocasionalmente os líderes de Israel para capacitá-los e direcioná-los (2Cr 24.20) - , se relacionaria com a humanidade de uma outra forma, qualitativa e quantitativamente superior em comparação à atuações antigas.

Em segundo, o Espírito Santo viria convencer as pessoas de algumas coisas, e neste ponto, certas dificuldades começam a surgir. A primeira delas com relação ao significado da obra de convencimento; e a segunda, com o objeto e extensão dessa obra.

(I) No que consiste o "convencimento"?
A palavra grega traduzida por "...convencerá..." (elégcho) denota muito menos uma apresentação superficial do que uma coerção na esfera cognitiva do homem. Seu sentido é o de "trazer à luz, expôr mediante evidências condenatórias". Com efeito, a nota de tradução da NVI sobre este verso apresenta uma versão mais bem-sucedida: "[Quando ele vier] exporá ao mundo...". Assim, sabemos que o Espírito, em sua atuação pós-pentecostes, iria, entre outras inúmeras operações peculiares, expôr ao mundo seu pecado, a verdadeira justiça de Cristo e a realidade do juízo vindouro, convencendo as pessoas acerca dessas realidades.

(II) Qual o objeto da operação de convencimento do Espírito?
O texto de João 16.8 diz: "...o mundo...". E quem ou o quê é este "mundo"? Bem, no vocabulário joanino, "mundo" nunca significa "todas as pessoas da face da Terra". Disso dá-nos pleno testemunho os textos de Jo 1.29; 3.16; 6.33; etc. Portanto, o convencimento do Espírito não visa ao impacto de cada ser humano; vemos não se tratar de um tipo de convicção geral, como o fornecido pelo testemunho da Revelação Geral (Sl 8), pois esse testemunho atinge todas as pessoas. O convencimento de João 16.8, dada sua natureza específica e detalhada, e dado o resultado de tal exposição condenatória, não nos dá ensejo para atribuir universalidade sobre tal operação.

Outrossim, o termo não se refere somente aos eleitos, como alguns imaginam. Embora o Mestre, no verso anterior, tenha dito que enviaria o Consolador para seus discípulos, a linguagem no versículo 8 apresenta uma mudança de tonalidade que não nos permite cercear a operação de convencimento de forma estrita aos eleitos. Mesmo assim, é evidente que os eleitos em Cristo foram convencidos pelo Espírito acerca dessas coisas.

A resposta, desse modo, sobre o objeto ou extensão do convencimento do Espírito é que Ele convencerá necessariamente todos os eleitos (isso é lógico, pois todos os salvos verdadeiramente devem estar convictos do pecado, da justiça e do juízo), mas se estende também a algumas pessoas não-eleitas e no caso destas, por não serem eleitas, tal convencimento não redundará em conversão. O texto é propositalmente seletivo nesse sentido. Ele jamais fala em conversão, senão em "convencimento". Em resumo, o Espírito convence todos os eleitos e algumas pessoas não-eleitas, operação em virtude da qual os não-salvos sofrerão condenação ainda maior.

Enfim, é precisamente neste ponto que começamos a responder às confusões levantadas no início deste estudo, as de que Deus, em termos soteriológicos, somente opera favoravelmente às pessoas, indistintamente, "oferecendo" a todos o benefício expiatório da obra de Cristo. 

Portanto, vimos que o Espírito convence algumas pessoas de modo preciso e enfático sobre o pecado, a justiça e o juízo, mas não as converte. Isso é plenamente explicável pela natureza da obra de conversão, segundo no-la apresenta a Escritura. A Bíblia nunca trata a conversão do pecador em termos meramente cognitivos. Em outras palavras, a conversão afeta todas as faculdades do homem: seu intelecto, sua afetividade e sua volição. A obra de convencimento, por sua vez, endereça somente as faculdades mentais do homem, de modo que ele ENTENDA o apelo do evangelho, mas não se disponha favoravelmente a ele, visto que sua vontade e afetividade não foram alvo da operação graciosa do Espírito de Deus.

Ademais, a Bíblia diz claramente que não só Deus é soberano tanto para salvar pecadores quanto para condená-los quanto assevera que, frequentemente, Deus opera nos corações dos pecadores para que NÃO se convetam! Sim; e quanto a isso, nada podemos fazer a não ser nos redenrmos à realidade e ao trovão da soberania Divina. Mesmo diante do contexto canônico total pelo qual inferimos tais atributos de Deus, o texto de 2Co 2.14-16 nos fala especial e explícito sobre o assunto:

"Mas graças a Deus, que sempre nos conduz vitoriosamente em Cristo e por nosso intermédio exala em todo lugar a fragrância do seu conhecimento [os que conhecem a Cristo e Nele andam, são, em si mesmos, testemunhos vivos do evangelho]; porque para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo [este testemunho, promovido positivamente pela proclamação da Palavra e "automaticamente" pela união mística com Cristo, é geral]. Para estes somos cheiro de morte; para aqueles, fragrância de vida [tal testemunho vivo e orgânico produzido por e através dos salvos afeta os regenerados com paz e alegria em virtude da confirmação do evangelho em suas vidas, porém, afeta negativamente os que se mantém rebeldes a Cristo uma vez que o testemunho do evangelho, para estes, só confirma sua rebeldia, estado de pobreza espiritual, disposição hostil ao Senhor, confirma sua miserável angústia e aponta para sua futura condenação]".

Assim, vemos que Deus não somente utiliza sua Palavra para salvar, mas a emprega também para condenar pecadores. Considerando o princípio hermenêutico do tota Scriptura, verificamos que o ministério de convencimento do Espírito, na mesma medida em que age nos eleitos pela instrumentalidade da Palavra, age nos réprobos através da mesma Palavra. Em suma, isso significa que alguns não-eleitos, ao receberem o influxo clarificante do Espírito pelo instrumento da Revelação Especial de Deus, tornam-se objetos de profunda ira Divina e, justamente por seu grau de iluminação ampliado pela operação do Espírito, recebem condenação maior. E isso resume, amplia e lança luz às palavras de Jesus em João 16.8-11: o Espírito do Senhor convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.". Convencerá...

Sabemos que muitos irmãos se escandalizam com ensinos como esse e se indignam com o fato de que Deus escolhe pessoas para salvar, assim como endurece os que quer endurecer, como fez com o faraó em Êx 9.2. Estamos também cientes de que uma visão antropocêntrica das verdades espirituais tende a negar a soberania de Deus em sua disposição salvadora. Nós, contudo, não nos inclinaremos ao erro de julgar ou discernir os propósitos de Deus e seus juízos (Rm 11.33), mas, humildemente, aceitaremos a porção da Escritura que diz: "Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer." (Rm 9.18).

Soli Deo Gloria!

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