Duendes, fadas e livre-arbítrio

18:06


Há algum tempo, para a glória de Deus, o pensamento reformado, que é essencialmente evangélico, tem florescido no cristianismo brasileiro. As doutrinas da graça estão sendo expostas e popularizadas por diversas mídias e o conteúdo da doutrina bíblica tem sido propagado, promovendo, já, algumas mudanças sutis no panorama do cristianismo tupiniquim. Mais uma vez: glória a Deus por isso!

Entretanto, o reino de Deus é como uma semente de mostarda; cresce vagarosa e paulatinamente, muitas vezes à larga de nossa percepção. Desse modo, antes que nos alegremos na afirmação de um cristianismo bíblico e teocêntrico, notaremos ainda inúmeras incoerências e dissonâncias doutrinais, muitas vezes perpetuadas por irmãos piedosos e sinceros (mas que podem estar sinceramente enganados). Um destes desvios doutrinários e talvez o mais bem propagado ao longo dos séculos é o do livre-arbítrio, de modo que, a despeito de tudo o que se tem dito sobre este tema, nunca é demais reforçar a consciência dos santos com a luz do ensino bíblico.

A doutrina do livre-arbítrio dispensa apresentações. Ela afirma mais ou menos aquilo em que todo homem nasce crendo: que é livre! Ademais, além de a crença humanista no livre-arbítrio ser um consenso entre os homens, ela tem, há séculos, encontrado terreno fértil no discurso cristão. Ironicamente, os próprios cristãos, que julgam ter na Palavra de Deus a sua regra de fé e conhecimento, há muito têm acolhido esta doutrina, a despeito de tudo o que lêem na Escritura sobre o homem, sua escravidão ao pecado e sua existência não-autônoma diante de um Deus todo-poderoso e imanente. E o fato de o livre-arbítrio ser ensinado quase irrestritamente por várias tradições cristãs faz com que seja recebido pelo geral como um ponto pacífico.

Entretanto, apesar de o livre-arbítrio ser um ensino quase consensual em muitas tradições cristãs, tal ensino não corresponde ao que Deus nos revela em sua Palavra.

Em primeiro lugar a Bíblia apresenta um retrato bastante claro e deveras indigesto do ser humano como um ente ESCRAVO de suas paixões. Não são necessárias elocubrações muito elaboradas para a conclusão de que um escravo simplesmente não é livre. Moisés diz: "E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gen 6:5). A poesia hebraica indaga: "Quem poderá dizer: 'Purifiquei o meu coração, limpo estou de meu pecado?'" (Prov 20:9). Mais adiante, Paulo concorda com as Escrituras escrevendo aos romanos: "[… ] Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos". (Rom 3:10-18). Por fim, o próprio Deus encarnado afirma: "O que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias". (Mat 15:18-19).

A Bíblia descortina de forma inequívoca e exaustiva a condição humana de catividade ao pecado. No entanto, a vontade cativa do homem não deve ser inferida apenas em virtude de sua condição depravada, mas tendo em vista sua existência em contraste a de um Ser transcendente, onipotente,  onipresente e imanente, o que nos leva a um segundo ponto.

Repare como o ensino do livre-arbítrio não pode se adaptar à realidades claramente fixadas na Escritura, como a da soberania de Deus, por exemplo. Se o homem é plenamente livre, então Deus não é soberano sobre ele. Alguém que está (ou é) plenamente livre não pode estar, ao mesmo tempo, sujeito à influência ou persuasão de outrem. Assim, se o homem é plenamente livre, não está sujeito a Deus. Em contrapartida, se o homem não é plenamente livre, então NÃO podemos dizer que é REALMENTE livre. E se não é realmente livre, segue-se que não possui livre-arbítrio. Em adição, se Deus não for soberano sobre aquele homem, então Deus não é REALMENTE soberano. E se Deus não é realmente soberano, não pode ser chamado de Deus. Neste ponto, alguns podem argumentar que o homem é livre e, ao mesmo tempo, Deus é soberano, porém, Deus, voluntariamente, não exerce sua soberania sobre o homem e o deixa livre para exercer suas escolhas. Mas há vários problemas com esta teoria, e o que eu gostaria de trazer neste artigo é que a implicação direta desta afirmação é que, se as coisas fossem assim, a história e o curso do mundo dependeriam, em última análise, do homem, e não de Deus. Se Deus não intervém na volição humana, então é o próprio ser humano que dá o tom para o desenrolar de sua história. Isso não lhe soa como teísmo aberto? Em contrapartida, temos na Escritura uma evidência gritante de que o Soberano Deus atua na vontade de suas criaturas racionais. Bem, conclue-se que o livre-arbítrio humano e a perfeita soberania de Deus devem ser ensinos mutuamente excludentes. E a Bíblia mostra tão escancaradamente a soberania de Deus que temo que elencar versículos para provar este ponto seria apenas fútil.

Finalmente, a doutrina do livre-arbítrio é extraditada pela própria experiência cristã. Não que a experiência seja um critério válido para a afirmação de verdades, contudo, ao passo em que o evangelho não é apenas discernido cognitivamente, mas experimentado e vivido, a práxis, interpretada pela objetividade da Revelação (Bíblia), a comprova e estabelece. Você já teve a horrível sensação de querer fazer o bem e agradar a Deus mas, de alguma maneira, acabar fazendo o mal e o desagradando? Paulo, o apóstolo, já está vivenciou este dilema (Rm 7.15-20). Mas se ele fosse verdadeiramente livre em sua vontade, teria traído sua própria consciência? Não, é claro. E sem falar que o apóstolo, quando confessou sua inabilidade natural em fazer o bem, desfrutava já da habitação do Espírito (muitas vezes apontada pelos sinergistas como uma ação que restaura no homem a liberdade de seu arbítrio)! De semelhante modo, cada vez que nos vemos ainda obedecendo ao pecado em detrimento dos preceitos divinos, cônscios de que são corretos, maravilhosos e vetores de paz e deleite, flagramo-nos contradizendo o ensino do livre-arbítrio. E cada vez que nos flagramos em oração, em súplicas a Deus, em exercícios de adoração, em serviço e em confissões de arrependimento, não apenas confirmamos nossa incapacidade de prosseguir a carreira cristã por esforço próprio como confirmamos intimamente a soberania de Deus em nossas vidas expressa pela poderosa ação de seu Espírito, que opera em nós o querer e o realizar, segundo sua vontade (Fp 2.13).

Para concluir, vemos que embora o livre-arbítrio seja uma doutrina popular e amplamente aceita, mesmo no cristianismo, é mui carente do fundamento autorizado da Sagrada Escritura. O fato de um indivíduo se ver capaz de decidir entre almoçar omelete ou frango assado não deveria levá-lo, instantaneamente, a crer que é um ente livre. Ele pode ser livre para escolher seu almoço, mas seria livre para decidir não pecar? Ele pode ser livre de outros semelhantes, mas seria livre de Deus? Se a resposta for negativa, concluímos que este indivíduo não é totalmente livre, e se não é totalmente livre, não é livre de maneira alguma! Destarte, o livre-arbítrio não existe. Esta doutrina não vem da Bíblia, mas da filosofia pagã. É um mito muito bem disseminado, mas continua um mito. O que duendes, fadas e o livre-arbítrio têm em comum? Eles simplesmente não existem.

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