O problema do uno e do múltiplo

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[Trecho de uma das aulas que ministro em meu curso Teologia & Filosofia]

Preocupando-se a metafísica com a realidade última, seus esforços imediatamente voltam sua atenção para a realidade em torno da qual o homem está inserido. No universo, parece haver muitos objetos, coisas, cores, formas, substâncias, nomes, etc. Existem, assim, muitas representações ou exemplos de coisas reais ou, talvez, aparentemente reais. A motivação metafísica, entretanto, pergunta-se se (I) a realidade é encerrada por cada um desses objetos (ou cores, ou propiedades, ou formas, etc.) ou se (II) cada um desses “objetos” está contido em uma realidade mais ampla e dessa realidade mais ampla são apenas espécimes.

Se, no primeiro caso, a realidade for encerrada em cada um desses exemplos, isso significa que a realidade é múltipla, afinal, existem muitos objetos e se cada um deles resumir em si a realidade, então existem tantas realidades quanto o número de objetos. Se, no segundo caso, a realidade transcender esses espécimes particulares, então significa que a realidade é una e que cada objeto no universo é uma pequena representação ou exemplo de algo maior que os ultrapassa. Contudo, neste caso, ainda haveria o problema de explicar a natureza dessa multiplicidade de objetos particulares, tendo em vista a possibilidade de a realidade ser una.

Tome como exemplo um conjunto de bolas com diferentes cores e tamanhos. Neste conjunto existem bolas azuis, vermelhas, brancas, amarelas, etc., além de existirem bolas grandes, médias e pequenas. Há, então, um conjunto com diversos exemplos particulares de bolas. Nesse sentido, seria possível afirmar que a realidade é múltipla, pois existem muitas bolas. Entretanto, apesar da diversidade de bolas com suas múltiplas cores e tamanhos, há algo que unifica este conjunto: o fato de todos os exemplos particulares nele contidos serem bolas. Em outras palavras, apesar de haver uma multiplicidade de cores e tamanhos nos objetos particulares de tal modo que eles possam ser considerados únicos, também há uma característica em comum a todos eles e que, de certa maneira, faz com que eles sejam apenas um: o fato de todos eles serem bolas.

Ora, esse exemplo ilustra o primeiro problema com o qual a metafísica se depara em suas investigações. Se a preocupação central da metafísica é a descoberta da realidade, se parece haver diversos espécimes particulares de realidade e, ao mesmo tempo, parece haver algo que unifica os diversos exemplos particulares, então a descoberta da realidade na indagação metafísica desemboca imediatamente na questão da unidade e/ou multiplicidade da realidade. Logo, a realidade é una ou é múltipla? Na filosofia, essa questão, é enunciada como o problema do uno e do múltiplo.

Gary Crampton e Richard Bacon desenham o problema do uno e do múltiplo nos seguintes termos:

"[...] a principal questão no estudo da metafísica é a do “uno e o múltiplo”. Como pode haver tantas coisas diversas no mundo, embora também pareça haver uma unidade básica? Entre tanta complexidade, como pode ainda haver simplicidade? Qual é o fato básico da vida, unidade ou pluralidade, o uno ou o múltiplo? Se a resposta para essa questão é “o uno”, então a unidade deve ter prioridade sobre a pluralidade. Se, por outro lado, a resposta é “o múltiplo”, então o indivíduo e os particulares têm prioridade. Se “o uno” é último, então os particulares estão degradados. Se “o múltiplo” é último, então o reverso é verdadeiro" [1].

Dessa forma, qualquer reflexão metafísica passa, em primeiro lugar, pela questão do uno e do múltiplo.

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