A abstração esquerdista do sujeito e suas ações

21:48

Esta semana o projeto de lei que previa a redução da maioridade penal foi quase derrotado na Câmara pela esquerda política e ideológica. O pertubador pretexto da esquerda para justificar sua posição foi: "Punir não resolve o problema!". Este e outros slogans correlatos cristalizam a percepção esquerdista de que a punição para os crimes é errada e que a reclusão dos bad guys (maiores ou menores de idade) em cadeia deveria servir ao propósito de reabilitá-los, e não de puní-los.

Bem, o ridículo de tal raciocínio é flagrantemente óbvio. Qualquer ser humano que não tenha renegado suas mais essenciais faculdades do intelecto saberia, prontamente, que a ideia de uma cadeia para infratores não serve como ferramenta de reabilitação, mas, ao contrário, de punição. Ao enviar um bandido para a cadeia ninguém está pensando em reabilitá-lo (que seria uma OUTRA parte do problema e da discussão), mas puní-lo. Diga-se de passagem, não existe reabilitação sem punição; ninguém pode se tornar um cidadão melhor sem a consciência mais elementar de que atos têm consequências. Isto está bem estabelecido.

Há, no entanto, uma rede mal entretecida na base do pensamento de esquerda que antecede este raciocínio e, em grande medida, o orienta e deflagra. É sobre esta rede que pretendo discorrer neste artigo. Trata-se da abstração esquerdista no que tange à consideração do sujeito. A opinião contrária a redução da maioridade penal, portanto, é expressão, na perspectiva esquerdista, de uma "teologia" (as aspas aqui talvez sejam desnecessárias) que evidencia-se pela transformação de anomalias éticas concretas e particulares em abstrações difusas, amorfas e, claro, carentes de uma base que as justifique.

As abstrações empreendidas pela esquerda, em nível histórico, remontam à socialização marxista do indivíduo e de sua ação, além de sua diluição em uma coletividade abstrata. É o antigo "burguesia" contra "classe operária" ou "opressor" versus "oprimido" do esquema de Marx pelo qual omitem-se os indivíduos cujas identidades são diluídas em símbolos. Como exemplo, na cosmovisão esquerdista, se um bandido negro assalta uma mulher branca de classe alta, ao contrário do diagnóstico evidente da situação (uma pessoa está assaltando outra; assaltar é errado; logo, quem está assaltando deve ser punido e a pessoa assaltada é a vítima da história), a leitura do cenário é: "pobreza [o ladrão não é mais um indivíduo: abstração n° 1] em busca de sobrevivência [subversão na interpretação dos fatos mediante o emprego da ética utilitarista] no ambiente opressor [a mulher não é mais um indivíduo: abstração n° 2]".
Deste modo, existe uma dimensão histórica verificável na qual são operadas tais abstrações dentro do pensamento de esquerda. Todavia - e ESTE é o epicentro da problemática - a natureza hedionda deste cacoete articula-se em virtude de seu nível teológico. É nesta dimensão onde a prática de abstrair cenários ou indivíduos concretos e particulares se revela imersa na mais profunda iniquidade.

Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança (Gn 1.26), e fez isso para a sua glória (Is 43.7). Cada indivíduo da face da terra é portador da Imago Dei. Logo, aquiescer ao ser humano como pessoa, como um ente único cuja existência foi deliberadamente decretada e providenciada por Deus, equivale a honrar ao Criador, sua ação, planos e finalidades. Por consequência, dissolver o indivíduo em uma abstração teórica, assim como conceitualizar ações concretas, descortina o exemplo mais notável da supressão da verdade pela mentira (Rm 1.25) e, de relance, traz à tona sórdidas motivações dos que assim procedem.

Uma dessas motivações, posso seguramente advogar, é a de embotar o conhecimento. Ora, desmentir e subverter situações cujos agentes e papéis desempenhados são evidentes, sobretudo segundo os parâmetros de Deus, causa, nos mais desguarnecidos, uma pane na percepção e consciência. Aqueles que não foram agraciados pela obra do Espírito com uma perspectiva biblicamente orientada, não têm parâmetros e fundamentos para rejeitarem as "vãs filosofias" e, deste modo, existem num estado latente de vulnerabilidade espiritual, intelectual e moral. Diz a Escritura: "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência" (Prov 9:10). Em outras palavras, aqueles que não temem a Deus e amam Seus preceitos, não têm discernimento e são suscetíveis ao engano. De fato, vivem nele.

Outra motivação, nítida, é a de absolver aquele que é culpado e culpar aquele que é inocente. Este motriz tem um forte aspecto político dentro do bojo escatológico marxista gramsciano. Porém, nos interessa mais, neste momento, a sua dimensão teológica. Conforme pontuei antes, o primeiro passo para instrumentalizar uma ótica reversa dos fatos em determinado cenário é, com efeito, torná-los abstratos e diluí-los em conceitos, via de regra, bastante ambíguos. Enquanto os indivíduos em determinada situação forem tidos como tais, e suas ações analisadas a partir de um ângulo absoluto - a Palavra de Deus - , empreender uma inversão de papéis é virtualmente impossível. Fulano fez "x" a Ciclano e "x" é correto ou errado. Ponto. Contudo, no momento em que Fulano e Ciclano são abstraídos de si mesmos e tornados em conceitos, todo o fundamento interpretativo da situação se mostra como manipulado, e, a partir daí, uma troca de papéis torna-se plenamente possível. Entretanto, a Bíblia diz: "Há duas coisas que o SENHOR Deus detesta: que o inocente seja condenado e que o culpado seja declarado inocente" (Prov 17:15 - NTLH).

Há ainda outra motivação que posso contabilizar e que relaciona-se com a reivindicação humana de autonomia. Autonomia significa "lei própria". Quando se nega o código moral fixado por Deus com a [vã] intenção de desorientar os seus princípios eternos, automaticamente ascende-se à leis e princípios alternativos, autonomamente estabelecidos. É o homem, com os punhos cerrados em direção ao céu, rejeitando a Razão de Deus e se afirmando como independe e capaz de gerar a própria ordem moral, epistemológica, política, etc. É o homem dizendo a Deus: "Você está errado; eu é que tenho os parâmetros corretos para analisar esta ou aquela situação, e elas não são objetivas como você quer que sejam!". Para o homem que se afirma como autônomo, qualquer autoridade, quanto mais uma invisível, é vista como pedante, opressora ... autoritária! Bem, você conhece o jargão.

Finalmente, há uma quarta motivação que me ocorre, que põe as anteriores em movimento como em um efeito ondular, e, em última análise, que as resume: a de negar a Deus em uma atitude de rebelião deliberada. Quando se inverte e/ou subverte toda a ordem e categorias divinamente estabelecidas, coloca-se no lugar de Deus fazendo-se Deus. É o cume da auto-afirmação. É o máximo do endeusamento do ego. É o topo da atitude de afronta à suprema autoridade divina.

A conclusão é que o anômalo estado mental esquerdista se apresenta mediante uma falaciosa técnica de coletivização, na qual indivíduos determinados e ações morais particulares têm a sua singularidade diluída em abstrações engendradas injustificável e ardilosamente. 

O pensamento da esquerda não é apenas bocó. Ele revela uma disposição mental reprovável e uma inclinação religiosa ainda pior. Ele se põe acima de Deus e de sua Palavra retirando as identidades dos seres humanos (positivamente outorgadas por Deus), suas responsabilidades individuais perante o Senhor e Legislador do universo e, enfim, esmagam a sociedade com as consequências nefastas de tal estupidez.

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