Perceba a Ação de Deus nos Eventos Ordinários

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"... e perguntaram: 'Onde está o recém- nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá- lo'” (PortNVI).

É incrível a facilidade com que, mesmo dentro de um ambiente religioso, podemos estar alheios à presença de Deus. E não creio que haja qualquer dificuldade, por qualquer pessoa intelectualmente comprometida, em constatar esse fato. A experiência, per se, o comprova e atesta, e a Bíblia Sagrada se mostra repleta de textos que desvinculam a presença de Deus de locais específicos, de pontos geográficos ou temporais que põem termo à ação de Deus. Desse modo, a presença e a ação da Divindade não somente deixam de se limitar a espaços geográfico-temporais como podem ser notadas e experimentadas a todo instante. E é precisamente neste ponto que apresento a fundamental lição deste artigo: Deus está constantemente agindo, a todo o tempo e em todo o espaço, e sua presença e ação não podem ser notadas SENÃO por aqueles cujos pensamentos e dimensões afetivas estejam completamete cativos ao Senhor Deus. O texto em destaque, apoiado por seu contexto, encerra e respalda essa afirmação.

Na ocasião do nascimento do Salvador, uma estrela despontou no céu do Oriente e magos que ali habitavam foram capazes de, pela graça de Deus, visualizá-la, dentre tantas outras. Não importa se a estrela que viram foi um cometa, uma supernova ou qualquer outro fenômeno correlato, ou ainda se tratava-se de algum fenômeno estrelar único providenciado por Deus para aquele propósito. O que, de fato, há de se notar, é que, aos olhos de todos os outros cujos corações estavam ocupados com diversas preocupações secundárias, a estrela que guiaria os magos ao Cristo era apenas mais uma estrela. Para os magos, ao contrário, não era: aquela era uma estrela especial. 

Os "magos" do capítulo dois de Mateus eram, na verdade, astrólogos orientais, que buscavam significados ocultos nos movimentos astronômicos. Ironicamente, embora a busca da astrologia seja completamente vã e antibíblica, aquela ocasião era excepcional, pois a estrela vista no Oriente cumprira uma profecia divina (Nm 24.17).

Além da astrologia primitiva praticada por aqueles estudiosos orientais, as Escrituras eram, possivelmente, objeto de intensa análise e apreço por parte dos magos. De que outra maneira eles poderiam ter aquiescido ao fato de que a estrela que visualizavam os conduziria ao Messias? Claro, alguns poderão argumentar que Deus lhes revelou tais acontecimentos, exatamente como operou neles uma revelação mediante um sonho, posteriormente (v. 12). Sim, isso poderia ser verdade. Mas determinados indicativos me dizem que aqueles magos tinham posse de alguma cópia da Escritura ou, ao menos, do Pentateuco. Eles, como grandes estudiosos, deveriam ter muitas cópias de diversos livros, de diversas religiões. Além disso, os magos orientais da época não tinham a observação de astros como um fim em si, mas como um meio ligado à religião e à política uma vez que, através do labor astrológico, eles pretendiam "prever" eventos importantes e os relatar a reis e políticos para que estes se preparassem. Tinham também amplo contato com judeus (talvez alguns dos magos fossem descendentes de judeus!) pois desde a dispersão desse povo nos dias de Nabucodonosor, muitos haviam se instalado no Oriente e levado algum conhecimento das Escrituras e, através desse conhecimento, talvez aliado a especulações inocentes por parte dos judeus coterrâneos, os magos chegaram à conclusão de que o fenômeno estrelar que presenciaram deveria estar relacionado ao nascimento do Messias, o rei dos judeus. 

Seja como for, se através de revelações diretas ou de uma orientação parcialmente instrumentalizada pela Escritura, um fato se mostra patente: Deus encheu os corações dos magos com o desejo de adorá-lo e, como consequência, os magos estavam com todos os seus pensamentos ligados a Deus, queriam descobri-lo e adorar ao Seu Filho.

Com efeito, esses estudiosos orientais empreenderam uma viagem considerável para chegar à Jerusalém. Na época em que realizaram essa viagem, estradas excelentes já haviam sido construídas pelos imperadores romanos, facilitando as jornadas, o comércio e todo tipo de intercâmbio. Mesmo assim, entretanto, as viagens eram longas e perigosas, sobretudo quando se trafegava com uma larga quantidade de itens valiosos como o ouro, o incenso e a mirra, por exemplo (v. 11). Mas a questão é: os magos foram dispostos ao chamado de Deus ao ponto de seguirem uma estrela até o local onde Deus deveria estar. Não importa qual era o nível de suas convicções iniciais e quão estabelecidas estavam suas certezas em relação à viagem, em algum ponto qualquer convicção passa por momentos de fraqueza (a fraqueza e a dúvida fazem parte da fé). Em uma viagem como a que fizeram certamente experimentaram momentos de dúvidas: "Pessoal, estamos seguindo uma estrela! Isso faz sentido?"; "Gente, vejam o quanto estamos gastando com transporte, recursos humanos, alimentação etc., será que essa estrela vai nos conduzir a algum lugar, realmente?"; ou ainda "Devemos estar loucos: estamos indo para um local que desconhecemos, buscar uma pessoa que desconhecemos, em terras desconhecidas ... e estamos fazendo tudo isso pela fé somente!". Apesar de todos esses momentos, com certeza, terem existido naquela viagem, os magos seguiram adiante, pois seus corações estavam repletos pela ideia de buscar a Deus (ainda que não tivessem consciência dos aspectos teológicos corretos envolvidos naquela jornada, nem de seus desdobramentos históricos). Seus ímpetos eram movidos pela ideia de Deus.

Portanto, o ensinamento subjacente a toda essa análise é que fatos ordinários podem se apresentar como tais para quem não está atento à missão a qual Deus lhe incumbiu, para quem não está consciente da ação incessante e onipresente de Deus, e acima de tudo para quem não está com os pensamentos fixados no Senhor. As pessoas que estão demasiadamente preocupadas (note: "pré-ocupadas") com seus próprios interesses não podem estar, ao mesmo tempo, com suas mentes e corações agarrados ao Altíssimo. Reversamente, os que se esforçam por manter seus pensamentos cativos a Deus [1], e cuidando que isso deve ecoar em esforços deliberados de suas partes, veem a mão de Deus a todo o tempo, em todas as circuntâncias, das mais notáveis às mais corriqueiras. Eles veem a operação graciosa de Deus quando conseguem um novo emprego, bem como notam a ação pedagógica e cuidadora de Deus quando um lhes é tirado. Percebem que Deus está operando quando encontram um amigo com o qual há muito perderam o contato e que, no momento, mostra-se carente de ajuda e conselhos sábios, bem como percebem que Deus está operando quando pequenos eventos de sua vida estão se encadeando de maneira incomum, direcionando-a para um cenário diferente. 

Não podemos viver nossa vida automaticamente, sem refletir e interpretá-la com as lentes divinas, fornecidas pela Bíblia Sagrada, sob a penalidade de deixarmos passar momentos definitivos nos quais Deus interfere em nossa existência (ou na vida de nossos próximos) com seu poder imanente e graça onipresente.

A ação de Deus só se torna percepetível para aqueles que enxergam a vida sob a perspectiva de quem está unido com Cristo. E tal como os magos se alegraram com grande júbilo quando perceberam que o "evento ordinário" (uma estrela) ao qual estavam atentos e o qual interpretaram como movimentação divina, finalmente, consolidou-se como tal (v. 10), aqueles que mantém seus pensamentos e corações no Altíssimo também se alegram quando as pequenas "coincidências" de suas vidas redundam em vislumbres inequívocos da ação poderosa, bondosa e imanente de Deus, há todo o tempo, na existência.



Notas
1. Manter os pensamentos aprisionados a Deus, na prática, equivale a manter os pensamentos incessantemente na Escritura, refletindo nela constantemente, pois é através da Bíblia que Deus se revela especialmente a nós (Lc 24.27,44; Ef 2.20), fala conosco (Hb 1.1,2; 1Ts 2.13), nos orienta, repreende, encoraja e confirma (2Tm 3.16), e nos enche com seu Espírito (cf. Cl 3.16 com Ef 5.18) nos transformando à imagem de seu Filho (Rm 8.29).

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